Criatividade não é um talento: os 5 passos de John Cleese pra você ser mais criativo

Muitas vezes me perguntam “como você consegue escrever textos tão criativos?” ou “como você pode ter medo de tubarões se a chance de ser morto por um é menor do que a chance de ser morto por uma daquelas máquinas que vendem refrigerante?”.

Matheus Esperon

Muitas vezes me perguntam “como você consegue escrever textos tão criativos?” ou “como você pode ter medo de tubarões se a chance de ser morto por um é menor do que a chance de ser morto por uma daquelas máquinas que vendem refrigerante?”.

A resposta é óbvia: esse tipo de estatística não faz sentido pelo simples fato de que tubarões não têm as mesmas chances que esses equipamentos. A área de degustação humana desses peixes se limita às praias, enquanto você pode comprar um refrigerante ou um salgadinho em praticamente qualquer lugar. Até o metrô tem essas máquinas de conveniência.

Quando tubarões começarem a aparecer no transporte público, a gente conversa.

3033465-poster-p-1-tips-on-making-b-movies-from-the-director-of-sharknado-and-sharknado-2
Ok, vamos conversar

Já a primeira pergunta tem uma resposta mais simples. Ou melhor, tinha. Eu acreditava que, assim como Marie Curie nasceu para ser cientista e descobrir a radioatividade, ou Michael Bay nasceu para nos surpreender e sempre fazer filmes piores que os anteriores, pessoas criativas nasceram com vocação — seja genética ou espiritual — para serem criativas.

Só que essa noção mudou depois que tropecei numa palestra super antiga do John Cleese — ator, comediante e ex-integrante do Monty Python — sobre criatividade. Em pouco menos de 40 minutos, John dá uma verdadeira aula sobre o tema, com direito à diversas dicas para sermos mais criativos.

E como é um vídeo bem longo e numa qualidade um pouco distante de HD (além de ser em inglês com uma legenda em alguma língua exótica como holandês ou braile), resolvi fazer um apanhado em texto de tudo de importante que Cleese ensina durante a apresentação.

Mas ainda recomendo muito que você assista ao vídeo! Ele é super leve e, obviamente, cheio de humor. :)

Clique na imagem para ver o video!
“Criatividade não é um talento, é um modo de operar.”

Logo no começo da palestra, John afirma que criatividade não é uma habilidade que você tem ou não. Ela é um modo de operar. “Isso pode surpreender vocês mas ela é absolutamente não relacionada ao QI. Levando em conta que você seja minimamente inteligente, é claro”, afirma.

Nos anos 70, o psicólogo Donald MacKinnon estudou centenas de arquitetos, engenheiros e escritores que eram considerados criativos e descobriu que eles não eram de forma alguma diferentes em termos de QI em relação aos seus colegas menos criativos. MacKinnon mostrou que as pessoas mais criativas tinham simplesmente adquirido uma maior facilidade em entrar num determinado estado de espírito, um modus operandi que deixa a sua criatividade natural fluir.

Donald descreveu as pessoas nesse estado como mais infantis, por serem capazes de brincar com uma ideia, explorá-la. Não para um propósito prático e imediato, mas apenas por diversão.

 

Modo aberto x modo fechado

Segundo o ator, as pessoas operam em dois modos: fechado e aberto. O modo fechado é aquele no qual a maioria das pessoas está durante o trabalho, preocupada com a quantidade de tarefas e ansiosa. É um modo no qual somos impacientes, tensos, mal-humorados e estressados. Mas não criativos.

Já no modo aberto estamos mais relaxados, contemplativos, mais inclinados ao humor (o que sempre acompanha uma visão mais ampla), e consequentemente mais brincalhões. É um modo no qual a curiosidade pode operar por si só porque não estamos pressionados para fazer algo específico rapidamente. Podemos brincar. E é isso que permite que a criatividade natural aconteça.

Um roteirista que trabalhou com Alfred Hitchcock disse que quando eles chegavam em alguma “parede”, o diretor subitamente parava o que estava fazendo e começava a contar uma história completamente alheia ao assunto. Ele fazia isso de propósito pois não confiava em trabalhar estressado. “Estamos pressionando e trabalhando demais. Relaxe, e a ideia virá”. E ela sempre vinha. Hitchcock sabia que era muito mais difícil ser criativo sob estresse — ou seja, era preciso estar no modo aberto.

Monty-Python-and-the-Holy-Grail-1975-Wallpapers-3
Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (1975)
Os 5 passos para entrar no modo aberto

Há algumas condições que tornam mais fácil que você entre no modo aberto. Cinco, pra ser mais exato: espaço, tempo, tempo, confiança e humor.

.:. Espaço: você não pode se tornar brincalhão e criativo se você está sob as pressões habituais. Logo, você precisa criar um espaço para você longe dessas demandas. Um espaço silencioso onde você não será incomodado.

.:. Tempo: não é necessário apenas criar espaço, você precisa criar esse espaço por um período específico de tempo. Seu espaço durará exatamente até a hora X e a partir daí sua vida voltará ao normal de novo.

Saiba que quando você criar seu oásis de tempo e espaço, sua mente começará a correr de novo. “Preciso dar aquele recado”, “preciso dar aquele telefonema”. Você não deve levar essa corrida a sério. Só sente ali por um tempo e tolere a corrida e a ansiedade até a sua mente se acalmar.

É por isso que não adianta abrir uma janela de tempo curta porque assim que a sua mente estiver se acalmando, seu tempo estará esgotado. Mas também não precisa ser uma manhã inteira. É melhor 1h30 agora e depois de amanhã do que 4h num dia só apenas uma vez por semana.

.:. Tempo: “Eu sempre me intriguei com o fato de que um dos meus colegas do Monty Python que eu julgava ser mais talentoso que eu nunca produziu roteiros tão originais quanto os meus”, diz John. “Observei-o por um tempo e comecei a entender porque. Se ele se deparava com um problema e rapidamente encontrava uma solução, ele a aceitava, mesmo sabendo que a solução não era tão original.

Enquanto isso, quando eu me encontrava na mesma situação, claro que me sentia tentado a embarcar nessa solução prematura, mas não me permitia. Eu sentava com o problema por mais 1h e, por insistir naquilo, costumava sempre chegar a algo mais original. Meu trabalho era mais criativo que o dele simplesmente porque eu estava preparado pra confrontar o problema por mais tempo.”

vida-de-brian
A Vida de Brian (1979)

E foi justamente isso que MacKinnon notou nas suas pesquisas: profissionais mais criativos brincam mais com seus problemas antes de tentar resolvê-los. Eles estão preparados para tolerar aquele desconforto e ansiedade que todos vivemos quando temos um impasse.

Normalmente quando temos um problema, queremos nos livrar desse desconforto e então tomamos uma decisão. Não porque temos certeza que é a melhor decisão, mas sim porque ela nos deixará mais aliviados. Pessoas criativas aprenderam a tolerar esse desconforto por muito mais tempo. Logo, suas soluções são mais criativas.

Dê à sua mente o maior tempo possível pra bolar algo original.

.:. Confiança: quando estiver no seu oásis entrando no modo aberto, nada vai te atrapalhar mais a ser criativo do que o medo de errar. Brincar é experimentar. “O que acontece se eu fizer isso?”. A essência da brincadeira é estar aberto a qualquer coisa que possa acontecer. Você não pode brincar se tem medo de errar.

Você não pode ser espontâneo dentro da razão. Então você precisa arriscar dizer coisas que sejam bobas, e ilógicas, e erradas, e a melhor forma de conseguir a confiança pra isso é saber que enquanto você está sendo criativo, nada é errado. Não há erros e qualquer coisa pode levar à descoberta.

.:. Humor: o humor nos leva do modo fechado ao aberto mais rápido do que qualquer outra coisa. Quantas vezes discussões importantes precisaram desesperadamente de soluções criativas e originais para solucionar problemas mas o humor era tabu porque o assunto discutido era “tão sério”? Durante uma discussão sobre o sistema educacional ou o sentido da vida, nós poderíamos estar rindo e isso não faria o assunto discutido menos sério. O humor é altamente necessário pra criatividade aflorar, independentemente do quão sério for o assunto.

maxresdefault
Monty Python – O Sentido da Vida (1983)
Regras

O único requerimento desse processo é que você mantenha sua mente gentilmente ao redor do tema para o qual você precisa de uma solução. Sonhe acordado, mas constantemente traga sua mente de volta. A coisa extraordinaria sobre criatividade é que se você deixar sua mente brincar ao redor de algum tema importante por um bom tempo, de forma amigável mas constante, cedo ou tarde você será recompensado pela sua própria consciência. Pode ser no chuveiro mais tarde ou no café da manhã do dia seguinte. Mas de qualquer jeito, a solução vai aparecer do nada.

E assim que ela aparece, devemos voltar para o modo fechado para implementá-la. Só somos eficientes nessa etapa se formos decisivos, sem sermos distraídos por dúvidas. Apenas depois de colocarmos a nova ideia em prática é que devemos voltar pro modo aberto para analisarmos se a nova estratégia está funcionando e devemos seguir em frente com ela ou se devemos criar uma nova alternativa. E aí de volta pro modo fechado, assim por diante.

Criatividade é como humor. Numa piada, a risada vem no momento em que duas referências são conectadas de uma forma diferente da normal. Ter uma nova ideia é exatamente a mesma coisa. É o ato de conectar noções diferentes de forma que tenham um novo significado. Quando você brinca, você pode deliberadamente criar essas justaposições e usar sua intuição para saber se uma delas tem significado pra você. Suas novas ideias podem ser absurdas ou impossíveis. Bom! Elas não precisam ser necessariamente o seu produto final, mas escadas pra você chegar onde precisa.

Recapitulando

Entenda os dois modos nos quais operamos, entre no modo aberto quando precisar ser criativo e volte para o fechado quando precisar colocar as novas ideias em prática. Se permita brincar e procure não embarcar na primeira solução que aparecer. Se nenhuma ideia surgir, pare e dê tempo pro seu inconsciente trabalhar sozinho.

Por último, sempre abrace todas as ideias, por mais malucas que elas sejam. Elas certamente te levarão a um lugar fantástico.

Obrigado, John. :)