Rodrigo Tinoco

Gratitrevas: com batuque, umbanda e música eletrônica, ÀIYE germina seu EP de estreia

A ex-baterista da banda Ventre mergulhou em uma jornada interna no seu primeiro trabalho solo.

Carlos Alberto Jr

Em novembro de 2017 a Ventre se apresentava em Belém, antes de subir no palco, eu entrevistei a – até então – baterista da banda, Larissa Conforto. Durante nosso bate-papo, ela comentou sobre a vontade fazer produções solo, compondo e cantando. Mais de dois anos depois nasce “Gratitrevas”, o EP de estreia de ÀIYE, primeiro projeto solo da artista.

Lançado nesta sexta-feira (20), o compacto da ex-baterista da Ventre é o resultado de um processo de autoconhecimento religioso, ressignificação musical e um dos discos mais interessantes deste primeiro semestre de 2020.

Disposta a fazer experimentos, Larissa largou o conforto das baquetas, do som mais pesado da Ventre, misturou o analógico com o digital, flertou com o trip-hop (espécie de colagem musical), e produziu composições com fortes influências da umbanda, astrologia, tarot e conjecturas político-sociais.

A produção do EP iniciou há um ano, mas de acordo com Larissa, Gratitrevas nunca teve um formato definido, pelo contrário, ele foi se moldando durante o processo de composição, gravação e até mesmo nas mudanças na vida pessoal da artista.

“Foi bem sofrido, eu nunca tinha produzido nada como compositora, nem cantado antes. Eu só tinha um monte de referências, ideias e frases soltas. Mas eu precisava desenvolver um processo meu”, explicou o que a motivou.

A mudança de São Paulo para Portugal. Se reconectar com as raízes indígenas e portuguesas no sangue e sua dicotómica relação. A ida para a França, para acompanhar a gravidez da irmã. Todos esses aspectos estão de alguma forma, nas oito faixas do EP.

A Terra chama

O título ÀIYÉ – que vem da mitologia ioruba – significa a terra onde habitam as diferenças. Larissa explica que adotou esse nome por diversos motivos, que vão desde o seu momento espiritual, como a não propensão em nomear o projeto com uma língua óbvia (português e inglês, por exemplo).

A curta e direta “Semente” abre o EP, deixando claro que Gratitrevas tinha germinado. Seguindo com “Pulmão” – a primeira música divulgada por Larissa ano passado – apresenta o elemento ar. A ainda menor “Silêncio”, que transita entre o ar e a terra, serve interlúdio para “Terreiro”, que mais uma vez fala sobre raízes e religião. As três primeiras faixas apresentam um ponto em comum: todas mesclam o som das baterias eletrônica e analógica, além de ter trabalhado em cima de beats.

Chegamos em “O Mito e a Caverna”, a música que mais se distancia do restante do EP. Ao lado de Vitor Brauer, das bandas Lupe de Lupe e Desgraça, a dupla cria uma canção de ataque (elemento fogo), quase recitada pelos dois. A música se aproxima mais do trabalho do artista mineiro ou do projeto Xoõ, que ambos fazem parte. Aqui as percussões somem e a terra é trocada pelo asfalto.

Se a faixa anterior quis dar uma mensagem dura, quase não cantada, contrário acontece em “Isadora”, um samba melódico que Larissa fez para a irmã. As duas últimas faixas do EP “Sombra (US)” e “Strosoma e (Wake Up)”, finalizam o disco de uma forma mais sóbria, bem eletrônica e até mesmo fúnebre. Lembrando de alguma forma Radiohead, nas canções com fortes elementos eletrônicos e melancólicos. Aqui, ÀIYE, também fecha o ciclo dos quatro elementos com água.

O mais interessante de Gratitrevas são as possibilidades interpretativas de um disco tão pessoal. Em pouco mais de 23 minutos, podemos fazer reflexões espirituais, traçar um mata astral e até mesmo identificar simbologias, como eu fiz acima.

Em meio ao período de cancelamentos de eventos, incertezas e isolamento, pretende voltar para Portugal assim que as coisas voltarem ao normal e fazer turnê do EP. Enquanto isso, nós podemos usufruir desse trabalho novo em nossa quarentena.