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O dia em que errei e afrontei meu professor de geometria

Um momento de tensão que moldaria a minha personalidade pra sempre.

Matheus Esperon

Pessoas desesperadas tomam ações desesperadas. E eu em 2009, com 17 anos e no último ano do colégio, caminhando para a minha 9ª recuperação de fim de ano seguida, estava desesperado.

Desesperado a ponto de sentar na primeira fileira da aula de geometria (que poderia ser chamada de aula de hieróglifos porque eu não entendia porra nenhuma mesmo) achando que estar mais perto do quadro e do professor faria o meu cérebro absorver melhor o conteúdo — como eu disse, ações desesperadas.

Talvez se eu enfiar a minha cabeça no quadro os números vão entrar mais fácil na minha mente.

Lá estava eu em mais um dia de aula de geometria como um pastor alemão, o cachorro, numa igreja evangélica em Berlim, ou seja, totalmente fora do meu ambiente — por mais que de certo modo fizesse sentido eu estar ali —, quando entra a coordenadora do ensino médio do colégio na sala. Vamos chamá-la de ministra Dilma Rouseff porque a coordenadora realmente parecia a Dilma quando ministra da Casa Civil agora que eu tô parando pra pensar ao digitar esse parágrafo.

A ministra Dilma Rouseff entrou para entregar os simulados que nós e outras turmas tínhamos feito no dia anterior (ano de vestibular, né, você sabe, aquele inferno) para o professor de geometria, cujo nome original vou manter porque nada que eu coloque aqui vai ser melhor que o verdadeiro nome dele, Cataldo.

Como um feriado se aproximava no dia seguinte, alguém na plateia de alunos que integrava aquele circo adolescente achou prudente perguntar ao Cataldo se ele iria aproveitar o pequeno recesso para corrigir os simulados, na esperança de ter os resultados mais rápido, ao que o professor respondeu: “eu não, em casa eu não corrijo prova”.

E aí eu não sei o que aconteceu.  Não sei se foi a pressão de um ano de vestibular. Não sei se foram os hormônios na reta final da puberdade. Talvez tenha sido a minha verdadeira personalidade presa há anos tentando escapar. Seja lá o que for, algo me possui e eu imediatamente completei a fala do Cataldo, sem perceber o que fazia, como se as palavras que eu proferia não fossem minhas, falando bem alto como um ator tentando fazer uma fala normal atingir até as fileiras mais distantes do teatro.

— É, porque em casa o Cataldo faz outra coisa!!!

Silêncio. Como se o ar na sala tivesse sido subitamente sugado, deixando nada além do vácuo e um mundo em câmera lenta.

Os outros alunos imóveis como se estivessem no Jurassic Park tentando evitar um Tiranossauro.

Ao meu lado, Ana Carolina (uma amiga minha, não a cantora) completamente boquiaberta.

A ministra Dilma Rouseff incrédula com o que eu tinha falado.

Todos os olhos e expectativas então lentamente convergiram em um único ponto: Cataldo.

Sua expressão era de absoluta confusão, como se o professor fosse um protagonista de H.P. Lovecraft que acabara de deparar com uma escada num ângulo impossível. Alguns poucos segundos se arrastaram como horas enquanto parecia que Cataldo buscava em todo o seu conhecimento geométrico, oriundo dos antigos babilônios em 3.000 a.C., uma forma de reagir aquele momento.

Algumas vertentes babilônicas que se especializaram em tentar entender alunos malucos acabaram dando origem à feira hipster do Rio de Janeiro.

Então o inesperado aconteceu. Após uma longa reflexão, Cataldo mudou totalmente seu semblante. O professor geométrico começou a rir, apontando pra mim e gritando:

— O CARA É MUITO BOM!!! “EM CASA ELE FAZ OUTRA COISA”, MUITO BOM!!!

Aos poucos, as testemunhas antes silenciosas daquela situação começaram a acompanhar Cataldo em suas risadas. Ministra Dilma Rouseff, Ana Carolina, o resto da turma, todos se entregaram ao riso — mas definitivamente um riso de alívio por tudo ter acabado bem.

Daquele dia em diante, uma lição ficou marcada pra sempre na minha vida: fazer piadas medíocres sem pensar antes de falar pode dar certo.

E é por isso que hoje eu tenho duas contas banidas no Twitter.

Se você gostou de ler essa história, também tenho textos sobre a vez que fiz o celular da minha crush ser roubado, quando fiz uma pergunta idiota pra um judeu e o dia que chutei algo inusitado numa prova de ciência.