O pequeno coração elétrico de Ana Fainguelernt

Sinestesia ao som de metais e uma jovem mente brilhante.

Carlos Alberto Jr

Foi em uma tarde de sábado, esperando começar uma programação de Hip-Hop no Centro Cultural São Paulo (CCSP), que me deparei com o letreiro anunciando o show “Ana Frango Elétrico + Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo”. A apresentação começaria exatamente quando terminava o motivo inicial de estar no local. Foi então que – meio de bobeira – comprei o ingresso porque, simplesmente, me interessei MUITO pelo “sobrenome” da cantora.

A apresentação misturava o repertório de Ana com o de Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo. Apesar de curti ambos, as letras e a forma como a bossa nova  desconsertada – base das músicas da Frango Elétrico –me cativou profundamente. No fim do show troquei uma ideia com ela, e eis aqui o resultado desse despretensioso show, que acabou nem sendo uma grande perda de tempo.

O nome

Ana Frango Elétrico é a persona artística de Ana Fainguelernt, cantora carioca de 21 anos, que decidiu facilitar a pronúncia do sobrenome, assim como tentar se afastar de Fahrenheit. Ela acabou criando algo estranhamente agradável e pop: “[o nome] é mulher, que também é um bicho macho e ele é elétrico!”, explicou a artista.

De Mormaço Queima à Little Electric Chicken Heart

A ideia inicial era escrever sobre o então único disco de Ana, o instigante “Mormaço Queima” lançado em 2018, que ouvi aos montes desde o show. Mas em menos de uma semana da publicação deste texto, foi lançado o segundo disco da cantora carioca: “Little Electric Chicken Heart”, o qual não sai da minha playlist desde o lançamento.

Por mais que o título do disco seja claramente uma brincadeira com o nome artístico de Ana, e possa não parecer fazer tanto sentido, dentro da construção artística da cantora, que também é artista visual e escritora, ele faz.

Como resultado, temos um álbum rápido, divertido, com tons mais sérios na sonoridade, mas sem perder a essência musical que conhecemos em Mormaço Queima: fazer um passeio musical pela cabeça cheia de ideias da cantora de apenas 21 anos que achou uma boa ideia adotar frango elétrico como nome artístico.

Definido pela própria artista, que diferente do primeiro trabalho, que é uma bossa nova pop-rock decadente com pinceladas de punk, o novo disco é mais denso, perdendo as cores supersaturadas, ganhando tons pastéis, que pode agradar um público diferente.

“O disco [Mormaço Queima] é muito vermelho, amarelo, dá vontade de comer ouvindo. Ele conversa bem com seu público-alvo, que são pessoas que a continuam achando que berimbau é gaita e fazem xixi no banho. No novo [disco] é mais grandioso, há metais e sons mais orgânicos por resultado de uma forma completamente diferente de gravar”, detalhou.

Aos que acharam a explicação um pouco difícil de digerir, seu som, pode ser definido como se fossemos misturar num liquidificador os discos “Uma Tarde Na Fruteira” e “Plastic Sofa” do Júpiter Maçã e os álbuns de Gal Costa na era da Tropicália.

Versos distante como “fora a cena dum ciborgue / ver uma jiboia vir morrer no mar”, de “Promessas e Previsões” e “pesquisando o nome e o endereço de torturadores / só pra contar pros netos e porteiros / que têm todo o direito de saber”, de “Torturadores” estão em todo o disco, apresentando uma versatilidade de composição que acompanha a musicalidade, que por vezes está num formato clássico de banda de rock, em outras faixas com muitos metais, e em outros momentos um tom sóbrio, como em “Saudades”, que abre o disco.

Ainda é muito cedo, mas tudo – até então apresentado – me deixa muito empolgado com os próximos saltos desse frango, que têm tudo para conseguir alçar voos interessantes na cena musical brasileira.