Quando o Daft Punk fez de um anime a maior banda da Terra

18 anos depois, o álbum visual Interstella 5555 mostra o tamanho do duo francês pra cultura pop dos anos 2000.

Carlos Alberto Junior

O início da década de 2000 determinou mudanças drásticas no cenário musical mundial. As relações de transmídia ficaram cada vez mais estreitas e recorrentes, grupos hegemônicos, sobretudo dentro do rock, passaram a perder relevância, e se destacava quem tinha mais ousadia.

Foi assim que, em 2001, o Gorillaz, um grupo de trip rock em que os astros são animações em 2D, mudou de vez o jeito de fazer e consumir música. No mesmo ano, em a dupla francesa Daft Punk lançava Discovery, seu segundo disco, mas que demorou dois anos para ele realmente decolar. Literalmente.

Se ontem (22/02/21) lamentamos o fim do duo, nós também podemos comemorar os 20 anos do disco mais importante dos Djs e os 18 de Interstella 5555, o álbum visual de Discovery.

Para os mais novos ou que ficaram congelados entre 2003 a 2005, Interstella 5555 marcou a mistura nada convencional entre música eletrônica francesa com animação japonesa, quando a dupla Daft Punk propôs para o animador Leiji Matsumoto, da Toei Animation, narrar uma história baseada nas 14 músicas do disco Discovery.

Mesmo dividido em 14 atos (videoclipes), a animação funciona como um longa-metragem, tanto que ele foi lançado em primeira-mão no Festival de Cinema de Cannes, uma das principais celebrações do audiovisual.

A maior banda da Terra veio do Espaço

Interstella 5555 conta a história de uma banda de música pop alienígena que é abduzida de seu planeta natal por um grande empresário da indústria fonográfica para tocar suas músicas na Terra e conseguir aclamação e prêmios para ele.

A ideia de juntar aspectos de ficção científica com a indústria musical veio da dupla e, por conta disso, o produto final conta com várias críticas para a forma de produção de música pop, com um excesso de “one-hit wonders” produzidos apenas para ganhar dinheiro e fama para seus produtores, com sua personalidade se perdendo no meio do caminho.

Essa não é a primeira vez em que um álbum visual era lançado, os gigantes The Who, com “Tommy” e Pink Floyd, com “The Wall”, também lançaram longas baseados em seus discos. A diferença de Interstella 5555 se trata da forma e como ele foi pensado a ser consumido pelo seu público, a MTV (e outros canais de televisão voltados para a música) e a internet, que estava começando a se popularizar, abraçaram o projeto de tal forma que transformou o título num clássico instantâneo.

Títulos como “One More Time” e “Digital Love”, viraram hits isoladamente, como videoclipes. Talvez quem esteja lendo esse texto já viu algum desses clipes, mas nem todos assistiram os 14. Essa é a diferença, não precisa. Mas se deixar de ver, perde uma grande viagem.

Acima citei os atos, e ele realmente tenta emular um formato mais cinematográfico, mas que também funcione como um videoclipe. Faixas como “Digital Love” e “Something About Us” conseguem apresentar uma história de amor no meio do álbum, sem fazer ele se perder em sua história. Do mesmo jeito que músicas como “One More Time” mostram a força que um hit pode ter.

Pousando

Interstella 5555 é uma mistura nunca vista antes e que talvez nunca será reproduzido por outro artista. A dupla Daft Punk conseguiu criar uma obra que é atemporal e que inovou em dois meios ao mesmo tempo, o musical e o cinematográfico, comprovando o poder da música na união, seja essa entre pessoas ou planetas. E isso há 18 anos.

O filme completo está disponível abaixo: