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A brutal, sombria e ‘Bela Vingança’ de uma ex-jovem promissora

A diretora e roteirista Emerald Fennell se apresenta como um novo nome fortíssimo para o cinema.

Matheus Esperon

Antes de começar, vale o aviso de que esse texto contém temas e palavras que podem engatilhar vítimas de abuso. Se você não se sentir confortável pra seguir a leitura, segue um veredito rápido sobre o filme: muito bom, muito bem dirigido e muito bem atuado, merecendo um ótimo 4/5.

Enquanto alguns enxergam como tabu tratar assuntos sérios de forma bem-humorada, outros fazem piadas no funeral de um amigo ou, como no caso da diretora estreante Emerald Fennell e seu Bela Vingança (Promising Young Woman), encontram no humor formas de abordar temas seríssimos como abuso sexual, vingança e morte.

Mas qual seria a melhor forma de abordar esses assuntos? Não existe resposta certa, claro, já que cada pessoa tem sua forma de lidar com esses assuntos. E é por isso que ‘Bela Vingança’, sobre uma “ex-jovem promissora” (como o próprio título original referencia) numa busca por vingança contra assediadores, vem sendo um dos filmes mais divisivos — e inegavelmente corajosos — dessa temporada.

Sem se prender às expectativas, tanto dentro quanto fora da história (especificamente na forma como o tema do filme costuma ser abordado em outras produções relativamente similares), Emerald Fennell nos oferece um cartão de visitas extremamente competente e diverso, seja na técnica ou na narrativa.

Sua direção é sempre segura e criativa, com destaque para algumas jogadas visuais entre primeiro e segundo plano que refletem a índole ou o sentimento de personagens, sempre alicerçada por uma fotografia camaleônica que sabe favorecer os climas praticamente opostos que os diferentes momentos do filme requisitam.

E Emerald também merece elogios por sua escrita, já que é dela e somente dela o roteiro. O feito de incluir momentos de comédia e respiro numa história extremamente sombria, sem que o humor nunca tire o peso e a tensão do drama, com certeza já a coloca como uma das grandes revelações da temporada cinematográfica de 2020/21 — por mais que o comecinho da narrativa cometa alguns deslizes ao passar uma ideia que se prova equivocada sobre a rotina da protagonista Cassandra.

Dá pra dizer que ‘Bela Vingança’ está para a carreira de Emerald Fennell no cinema como ‘Corra!’ esteve para a estreia de Jordan Peele (ou pelo menos deveria estar).

Aliás, todo o sucesso da direção e do roteiro definitivamente não seria possível sem uma grande atriz que conseguisse transmitir todo o peso da vingança, ao mesmo tempo que acompanha o roteiro nos momentos mais leves da história. Carey Mulligan com certeza se mostrou a escolha perfeita, alternando com maestria entre vulnerabilidade, intimidação e gentileza com a facilidade de quem aperta um interruptor. O reconhecimento na atual temporada de premiações é certo, nem que fique apenas nas indicações.

O mesmo aviso no começo do texto vale [ainda mais] pro filme também. ‘Bela Vingança’ pode ter seus momentos de leveza, mas, como 50% do título diz, ainda é um conto sobre vingança — vingança essa extremamente brutal e sombria, que tem como ponto de partida situações que, infelizmente, toda mulher que você conhece já presenciou ou viveu.

Se você é mulher, cabe cautela ao conferir o filme. Se você é homem, cabe assistir e refletir. Como a própria Cassandra pergunta logo após uma de suas vítimas dizer que ser acusado de assédio sexual é o pior pesadelo de um homem: e você sabe qual o pior pesadelo de toda mulher?

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Bela Vingança

Com a competência de sua diretora e roteirista, consegue ser um drama pesado que visita a comédia de forma natural e respeitosa, mesmo tratando de um tema tão sério. Não vai agradar todo mundo, mas foi melhor ter a coragem de arriscar do que ficar no mais do mesmo.

  • Atuação camaleônica de Carey Mulligan
  • A ótima direção e escrita de Emerald Fennell a colocam como novo nome fortíssimo do cinema
  • Grande elenco secundário
  • Roteiro passa uma mensagem equivocada sobre a história no começo (e nos trailers, mas aí não é culpa do filme)
Nota: 4/5