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‘A Caminho da Lua’ mostra que copiar a fórmula da Disney não é tão fácil quanto a Netflix pensa

Mesmo com um veterano da Disney na direção, a aventura é divertida, mas ainda marcada por algumas falhas.

Matheus Esperon

Após bater duas vezes na trave na categoria de melhor animação do Oscar — ambas as chances em 2020 com ‘Perdi Meu Corpo’ e ‘Klaus’ —, a Netflix decidiu dar uma de Facebook e “se inspirar” diretamente na fórmula de quem faz o sucesso que ela tanto deseja: no caso, a Disney, vencedora de 13 prêmios da categoria desde 2002 (contando as vitórias da Pixar também).

O streaming foi atrás de Glen Keane, veterano com mais de 30 anos no departamento de animação do estúdio do rato de shorts, envolvido em clássicos como ‘A Bela e a Fera’, ‘Pocahontas’ e muito mais, com a oportunidade de um primeiro trabalho na direção aos 65 anos de idade: uma parceria da empresa com a produtora chinesa Pearl Studio, dando origem a ‘A Caminho da Lua’.

O fruto desse trabalho provavelmente vai render uma nova indicação ao Oscar pra Netflix, mas ele também deixa bem claro que copiar a fórmula vencedora da Disney não é assim tão fácil.

Anos após uma grande perda familiar, a jovem Fei Fei decide construir um foguete pra chegar na Lua, com a intenção de provar ao seu pai que a deusa Chang’e, protagonista de uma antiga lenda chinesa que inspirou toda a sua infância, não só é real como pode impedir importantes mudanças na sua família.

Quem acompanha a Disney há mais de alguns filmes vai conseguir identificar diversos arquétipos em ‘A Caminho da Lua’ e até ver alguns acontecimentos chegando a galope: a grande perda na família, o companheiro animal, as músicas, as mensagens, o coadjuvante engraçadinho, a vilã que talvez não seja mesmo uma vilã…

Enxergar o “código” por trás da Matrix nesse caso não é necessariamente ruim, mas com certeza joga contra a autenticidade do filme — que só não é totalmente perdida graças à ótima escolha de usar uma história chinesa, com um elenco totalmente composto por atores asiáticos ou com ascendência asiática. Ou seja: a estrutura do filme pode ser meio batida, mas os visuais, as ambientações e a cultura pelo menos são diferentes do que estamos acostumados a ver aqui no ocidente, contando inclusive com uma mensagem muito bonita e menos habitual sobre aceitar novos membros na sua família (e, consequentemente, seguir em frente na vida).

Mas parece que os roteiristas esqueceram dessa parte sobre não termos familiaridade com a cultura chinesa, inserindo apenas uma rápida explicação folclórica pra ida de Chang’e pra Lua no comecinho do filme, sem abordar diversos elementos que aparecem em cena quando Fei Fei faz a transição do mundo real pro fantástico em solo lunar.

Outra inspiração na Disney são os números musicais, que na parte ainda na Terra são super bonitos e bem inseridos, ao passo que na Lua se tornam excessivos até pro meu sobrinho de 4 anos de idade (sério, ele me mandou áudio falando que o filme tem “muita música” pelo zap da minha cunhada kkkk), com grande parte deles não agregando nada em termos de conteúdo pra história ou construção de universo — coisa que a Disney faz com maestria nos seus trabalhos.

Se você conseguir relevar a estrutura extremamente familiar e a falta de explicações do universo fantástico do filme, ‘A Caminho da Lua’ ainda reserva uma grande aventura, cheia de representatividade, ótimas mensagens e um bom humor com pitadas bem acertadas de drama.

É o mais próximo que a Netflix conseguiu chegar da fórmula mágica da Disney, mas ainda falta aparar algumas arestas pra realmente ter chance de bater de frente com o Mickey no Oscar. Quem sabe na próxima animação? :)

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A Caminho da Lua

Uma tentativa válida, mas ainda falha de replicar o sucesso da fórmula da Disney na Netflix. Faltou um roteiro mais amarrado na parte fantástica, tanto pra explicar melhor o universo quanto adicionar conteúdo nos números musicais.

  • Visuais deslumbrantes na Lua
  • Bom humor com toques de drama
  • Muita diversidade, com boas mensagens
  • Universo com explicação a desejar
  • Números musicais em excesso, sem agregar muito à história ou ao universo
  • Estrutura previsível
Nota: 3/5