Bacurau: a história de um povo que existe (e resiste)

Bacurau representa o espírito de uma região, mas nunca deixa de ser também um registro histórico de um povo que resiste.

Carlos Alberto Jr

A voz de Gal Costa cantando “Não Identificado”, direto do espaço, com a câmera fazendo zoom, saindo de um cenário com astros e satélites, até chegar ao sertão pernambucano, com os dizeres: “Futuro próximo”. Assim inicia um dos melhores e mais importantes filmes de gênero do cinema brasileiro contemporâneo.

Bacurau (2019), dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, carrega consigo características muito poderosas enquanto obra ficcional: representar o espírito de uma região, ser memória, mas nunca deixando de ser também um registro histórico de um povo que resiste.

Inicialmente, o fio condutor da trama é Teresa (Barbara Cohen), que retorna a Bacurau, um vilarejo do município fictício de Serra Verde, no Oeste de Pernambuco, para o velório a avó Carmelita (Lia de Itamaracá), uma matriarca importante na comunidade.

Sem presa, o primeiro ato do filme é dedicado em apresentar personagens singulares que compõem a cidadezinha, como a médica Domingas (Sônia Braga), o professor Plínio (Wilson Rabelo), o “matador” Pacote (Thomás Aquino), o foragido Lunga (Silvério Pereira) e o político populista e demagogo Tony Duda (Thardelly Lima).

Após estarmos familiarizado com a comunidade e até mesmo com parte da geografia na região – que se mostra importante no decorrer da obra – os diretores finalmente apresentam o foco de Bacurau quando os moradores da comunidade notam coisas estranhas, como cidade sendo apagada do GPS, objetos voadores não identificados e a presença de forasteiros misteriosos.

Sem medo de flertar com o sobrenatural e a mistura de gêneros, Bacurau tem um forte teor político e regional como as obras de Glauber Rocha, assim como também usa a fantasia e o gore para fins alegóricos, tal como John Carpenter. Tudo isso sem perder a originalidade de um filme que cria uma distopia para denunciar problemas vividos hoje.

Essa identidade única de Bacurau é construída não só no roteiro verbalizado, é sentida pela trilha sonora, que vai do tom revolucionário de Geraldo Vandré a esquisitos sons de sintetizadores.

O mesmo vale para a fotografia e seus enquadramentos muito saturados, dando bastante destaque ao verde das regiões de mata e azul do céu, com a clara proposta de causar estranhamento ao público que está acostumado a ver o sertão sendo representado no cinema como um lugar árido, com cores quentes e sem vida.

Ambos nordestinos, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, que também dividiram o roteiro do longa-metragem, constroem uma história universal, propositalmente expositiva, para dialogar com qualquer brasileiro.

Ainda sim, a dupla faz questão em falar sobre as divisões no próprio país, onde o Nortista e Nordestino são vistos como povos inferiores perante aos quem vivem na parte de baixo do mapa e os diretores alfinetam esse público categoricamente mostrando a visão estrangeira sobre brasileiros.

Mesmo com a direção em conjunto com Dornelles, conseguimos ver que em seu terceiro longa, Kleber Mendonça Filho entrega uma progressão temática coerente entre eles: O desconforto social em Som Ao Redor (2012), o ato de resolva em Aquarius (2016) e uma revolução na última obra.

Bacurau é fictícia por opção, afinal a ideia é que essa pequena comunidade represente uma gigante minoria no Brasil. Bacurau é toda região sertaneja do Nordeste, são os quilombos e aldeias indígenas que governos querem demarcar, são todos os municípios do interior do Amapá – estado de quem vos escreve viveu por mais de 15 anos – que não visitei por estar acomodado na capital, e quem nasce em Bacurau, como um próprio personagem diz: é gente.

Bacurau

“Bacurau” apresenta um sertão num futuro próximo, e assim como no curta “Recife Frio”, Kleber Mendonça Filho brinca com a fantasia ao mesmo tempo em que tece comentários sociais sobre a distopia. Com bons destaques pontuais de atuações, o grande diferencial do longa é não dar um rosto ao protagonista, mas sim uma cidade viva e repleta de brasilidade.

  • Ótima direção de elenco
  • Construção de universo
  • Equilíbrio na mescla de gêneros
  • Desenvolvimento superficial (mesmo que proposital) dos antagonistas do longa
Nota: 5/5