‘Dope: Um Deslize Perigoso’ e os nerds pretos embranquecidos

Se você é preto e curte música indie, games e quadrinhos certamente já se questionou sobre seus gostos. Isso é comum, mas não é errado.

Carlos Alberto Jr

Neste Dia da Consciência Negra decidi lembrar do filme Dope: Um deslize perigoso e sobre as possíveis reflexões que ele poderia ter me causado se eu tivesse assistido na adolescência. Essa não é uma crítica sobre o filme, mas sim um diálogo de preto pra preto.

O tema apropriação cultural atualmente está em voga e geralmente o tópico vira assunto quando algum símbolo de uma minoria é utilizado e ressignificado/vendido por pessoas brancas (como dreads ou turbantes). Mas há algo dentro da comunidade preta que soa de forma semelhante, porém de forma inversa: o gosto de produtos “brancos” por pessoas negras.

Se você é preto e chegou até aqui deve entender do que estou falando. Afinal, cultura pop, curtir podcast, música underground, literatura fantástica e RPG são alguns dos nossos gostos adquiridos amplamente produzido e muito mais consumido por pessoas brancas. Há um sentimento de culpa incutido em curtir mais Arcade Fire do que Racionais MC’s (eu entendo, passei literalmente por isso).

Mas há algo muito errado nessa comparação sem sentido: a cultura pop não é de branco, não há um valor simbólico identitário ao caucasiano. Pelo contrário, há muita contribuição preta, asiática e demais minorias nos produtos que gostamos.

Esse sentimento de culpa e não pertencimento acontece pela falta de acesso, preço, divisão de classes, social e falta de representação. Dope fala sobre isso fazendo um metacomentário, afinal ele se trata justamente de um filme “sessão da tarde” nos dando representatividade ao ser protagonizado por adolescentes pretos.

A trama acompanha Malcolm (Shameik Moore), um adolescente negro que vive junto com sua mãe no bairro mais perigoso de Inglewood, na Califórnia. Extremamente inteligente, ele é apaixonado pela cultura “nerd” e sonha um dia estudar em Harvard. Seus melhores amigos são Jib (Tony Revolori) e Diggy (Kiersey Clemons), que em comum possuem a paixão pelo hip-hop clássico dos anos 1990.

Diferente de muitos outros jovens que moram na região, os três não estão envolvidos com nenhuma gangue e fazem questão de fugir de qualquer tipo de confusão, e por isso mesmo são tratados com desprezo pela maioria dos colegas. No entanto, a vida deles muda completamente quando seus caminhos cruzam com os caminhos de Dom (A$AP Rocky), um traficante da região.

Malcolm é o típico protagonista de um filme de aventura juvenil: sonhador, curte cultura pop, tem uma banda, sofre com os valentões não faz sucesso com as garotas. Em boa parte do longa, o fato dele ser preto não é tão relevante, exceto pela mensagem e desenvolvimento dele.

O roteiro faz questão de enfatizar que ir para Harvard é um sonho distante de Malcolm. Não pelo preço da bolsa ou pela exigência de notas altas, mas sim pela cor de sua pele e de onde ele vem. De forma nada panfletária, o filme escancara com bom humor (por incrível que pareça!) a dura realidade de pessoas pretas, que devem se esforçar duas, três vezes mais que uma branca para seguir seu sonho.

O texto de Rick Famuyiwa, que também dirigiu o longa, apresenta coadjuvantes muito que refletem as diversas possibilidades de pessoas negras: o traficante do bairro, a garota inteligente que é conhecida apenas como namorada do traficante, os professores conformados com a realidade daqueles garotos, o chefão bem-sucedido por meio de um império do crime.

Reforçando, apesar do subtexto e comentário sócio-racial relevante, Dope é essencialmente um longa de aventura, divertido e que funciona para pessoas não negras, assim como Scott Pilgrim Contra o Mundo funciona para nós pretos. Assistam, reflitam e não se esqueçam: vidas negras importam!