Review | A divertida (e contraditória) aventura de ‘Enola Holmes’

A mensagem progressista do filme é atrapalhada… pelo próprio filme?!

Matheus Esperon

Minha versão favorita de Sherlock Holmes, que já foi desde porradeiro até um mero idoso, foi escrita por Jô Soares em 1995 no seu ‘Xangô de Baker Street‘. No livro, Jô brinca com todo o pretenciosismo e a autoconfiança do famoso detetive, momentaneamente no Brasil imperial pra resolver o roubo de um violino, dando origem a uma releitura bem-humorada (e muito incompetente) do personagem.

O mesmo estilo de subversão, por mais suavizado que seja, também é a base do novo filme original da Netflix, Enola Holmes, que coloca Sherlock de lado pra focar na aventura divertida, mas estranhamente contraditória, de sua astuta e rebelde irmã mais nova Enola.

Após o desaparecimento de sua mãe Eudora (Helena Bonham Carter) e da apatia de seus irmãos, Sherlock (Henry Cavill, que começa fazendo quase o mesmo papel de seu Witcher, mas vai se soltando ao longo do filme) e Mycroft, perante sua situação, Enola Holmes (Millie Bobby Brown) precisa usar suas nada ortodoxas habilidades na aventura de sua vida para desvendar uma grande conspiração na Lodres de 1884.

De cara, ‘Enola Holmes’ começa bem demais. Logo nos seus primeiros minutos, o filme conta com um ritmo acelerado (energia lá em cima!!!), graças a um roteiro que, por mais que jogue um balde de exposição na nossa cara, faz isso de forma tão criativa e dinâmica que fica totalmente palatável.

E contar com uma Millie Bobby Brown no auge do seu carisma também ajuda muito. A Enola de Millie é o tipo de protagonista que muitos filmes apenas sonham em ter, contando com uma grandiosa presença de palco pra ser o fio condutor de toda a narrativa – narrativa essa que, por sinal, oferece à atriz muito mais pra fazer (e atuar) do que seu limitado papel em ‘Stranger Things’.

Outro fator que reforça o clima divertido do filme e sua conexão com o público é a constante quebra da 4ª parede (quando a atriz olha e conversa diretamente com a câmera/público), trazida aqui pelo diretor Harry Bradbeer, quase um expert nesse artifício graças ao seu trabalho na série ‘Fleabag’. “Quase” porque em alguns casos durante o filme essa quebra se dá um pouco sem propósito, deixando até a sensação de ter sido erro da protagonista (não é, só fica a impressão no momento mesmo).

Há uma dicotomia interessantíssima na narrativa, que emprega uma protagonista muito à frente do seu tempo presa na sociedade (ainda mais) machista e conservadora do final do século 19 em Londres. Esse embate de progresso vs. tradição gera uma história nitidamente – e às vezes literalmente – feminista, o que é super positivo de ver, ainda mais numa história de época como essa.

O problema é que essa ótima proposta começa a ser sabotada pelo próprio filme, que até ensaia uma quebra de expectativa, mas acaba se rendendo ao clichê de encontrar um par para Enola.

Com a adição desnecessária de um interesse romântico, não apenas o protagonismo da personagem principal é reduzido (especialmente no desfecho da história), como a própria trama da busca pela mãe desaparecida freia completamente pra ceder um espaço exagerado para a conspiração ao redor do jovem marquês Tewkesbury.

Até o ritmo do filme, tão divertido e acelerado no começo, desacelera com a chegada do interesse romântico, tornando a produção cada vez mais genérica até a sua preguiçosa conclusão, que nem mesmo responde direito ao grande mistério que dá o pontapé na história.

Se ‘Enola Holmes’ mantivesse seu ritmo e seu foco na protagonista até o fim, com toda certeza seria um dos melhores lançamentos da Netflix de todos os tempos. Ainda é um filme divertido, mas fica aquela chata sensação de que poderia ser muito melhor!

Divulgação

Enola Holmes

Um filme divertido e que tem o trunfo de conseguir ter uma identidade própria, especialmente pelo carisma da protagonista Millie Bobby Brown. Uma pena que caia na sina de querer enfiar par romântico onde não precisa.

  • Millie Bobby Brown mais carismática do que nunca
  • Henry Cavill entrega um bom Sherlock
  • Começo super acelerado e criativo
  • Interesse romântico descenessário
  • Final preguiçoso
  • Não responde à grande pergunta do filme
Nota: 3/5