Review | Coragem de fazer diferente não é suficiente pra salvar ‘Mulan’ de uma péssima direção

A adaptação entra pra galeria de fracassos da Disney, ainda que por motivos diferentes do últimos remakes do estúdio.

Matheus Esperon

Assim como o exército Huno no desenho, o live-action de Mulan foi soterrado por uma avalanche – mas de polêmicas.

Teve de tudo: atriz principal apoiando o governo chinês na repressão aos protestos pró-democracia de Hong Kong, exclusão de músicas e do dragão Mushu na nova versão, mudança no lançamento dos cinemas pra Disney+ (com um salgado valor de 30 dólares, além da mensalidade da plataforma) e até o ritual de invocação de uma fênix de verdade que resultou em queimaduras de terceiro grau em mais de 55 membros da produção.

O que pouco se falou é como o ‘Mulan’ de 2020 é um filme corajoso. Ao se recusar a ser um simples remake cena por cena, como outras adaptações medíocres da Disney (alou, ‘Rei Leão’, aquele abraço!), ele realizou mudanças que sabidamente desagradariam os fãs, em prol de contar uma história mais original – inspirada mais nos contos do século VI do que no desenho de 1998 –, e muito menos ofensiva pro povo chinês.

Infelizmente, coragem não é o suficiente pra se fazer um bom filme…

A história é aquela que você já conhece, mas com algumas mudanças: quando o exército rourano, liderado por Bori Khan e a poderosa bruxa Xian Lang, ameaça a soberania chinesa, o imperador (vivido por um quase irreconhecível Jet Li, como o tempo voa!!!) emite uma ordem de alistamento de um homem por família. A jovem Mulan (Yifei Liu) decide tomar o lugar de seu debilitado pai, se passando por homem e partindo rumo ao seu destino junto ao exército chinês.

É nítido que o roteiro deu mais autonomia para Mulan ao longo da trama, inclusive colocando uma grande revelação da história sob sua total responsabilidade, o que é super bem-vindo. O problema é que a história é cheia do que chamamos aqui no site de roteirices, que é quando os acontecimentos e até a lógica estabelecida pelo filme se dobram às necessidades pontuais do roteiro – há uma cena, por exemplo (e sem spoiler), que a pontaria até então 100% perfeita de um grupo inimigo subitamente vai pro nível de stormtroopers de ‘Star Wars’ pra desencadear um grande evento em campo.

Outro problema do roteiro é ele não decidir se vai total ‘O Tigre e o Dragão’ na sua ação, falhando em estabelecer com clareza as regras do universo mais fantástico do filme. Uma das mudanças da versão 2020 é que Mulan agora tem “chi”, um tipo de poder que costuma ser exclusivo de homens guerreiros e garante habilidades de luta acima do normal, como golpes e acrobacias que desafiam as leis da física.

Mas quem pode usar o chi? Apenas guerreiros específicos? Parece que sim, até que simples e descartáveis guerreiros inimigos aparecem andando nas paredes. Então qualquer um pode usar o chi? Parece que não, pois ele é tratado como algo muito único pelo pai de Mulan e o próprio imperador chinês. Será que então existe uma diferença entre habilidades diferentes e o chi, que seria algo ainda mais poderoso? Não sei – e sinto que o filme também não sabe.

E um ponto bem negativo da inserção do chi na história é que ele rouba de Mulan um pouco de sua superação e determinação, saindo de uma personagem que precisa se esforçar para se destacar (não pela força, mas pela técnica e inteligência), pra uma pessoa que nasceu com uma habilidade sobrenatural e tem “apenas” que aprender a liberar o seu chi. A Mulan de 1998 passava a mensagem de que qualquer pessoa comum pode superar seus desafios. A Mulan de 2020 passa a mesma mensagem – mas pra quem já nasceu com dom especial.

Além disso, as cenas com habilidades avançadas (seja com o tal do chi ou não) são visualmente cafonas, emulando um ar de filme ruim de Bollywood. Os efeitos deixam a desejar e até o trabalho de cabos pra levitar os atores é ruim, fazendo nítidas correções no ar e movimentos bruscos que divergem completamente do sempre suave estilo chinês de cinema de ação – que o filme tanto tenta emular para agradar o mercado chinês.

E tudo isso é ampliado pelos dois maiores problemas do filme: direção e montagem. Surpreende muito a Disney ter colocado um filme tão importante, com uma repaginada proposta de ação e uma legião de fãs pra agradar, nas mãos da diretora Niki Caro, que contava apenas com alguns dramas no currículo antes de ‘Mulan’ – o mesmo vale pro editor David Coulson, parceiro de Niki em grande parte de seus outros trabalhos.

O resultado dessa falta de experiência com o gênero de ação são teleportes de personagens a la ‘Game of Thrones’ e cenas de luta extremamente picotadas, com inserções de tomadas que não servem pra nada (closes estranhos em objetos e reações, por exemplo, que poderiam facilmente ter morrido na mesa de edição). Nem Donnie Yen, que interpreta o comandante do exército e realmente é Mestre em Porradaria Asiática na vida real, foi poupado dos ataques da tesoura do editor em suas cenas de ação.

Mas nem tudo é ruim! Por mais que os personagens tenham desenvolvimentos rasos, Yifei Liu consegue entregar um bom trabalho nos poucos momentos em que o roteiro demanda emoção de Mulan. Além disso, a fotografia de algumas cenas fica acima da média, assim como a direção de arte, muito competente em sua representação de uma China pré-milenar (especialmente nos belos e coloridos trajes dos personagens).

Vale destaque também pra trilha sonora, que incluiu toques muito sutis de algumas canções do desenho nas suas músicas orquestradas.

‘Mulan’ não é um filme ruim por ser diferente do desenho que a gente ama. Não ter dragão, não ter canções, não ter romance bissexual com o comandante do exército… nada disso seria um problema se essa nova versão contasse com uma direção mais experiente e uma equipe mais empanhada em honrar o cinema asiático de ação.

Divulgação

Mulan

Uma tentativa corajosa, mas frustrada, de tentar agradar tanto o público ocidental quanto a audiência chinesa, a adaptação de 'Mulan' entra pra galeria de fracassos da Disney – ainda que por razões diferentes dos últimos remakes do estúdio.

  • Coragem em tentar fazer algo diferente do original
  • Boa direção de arte, especialmente os trajes
  • Direção nitidamente sem experiência com ação
  • Filme todo picotado na edição
  • Efeitos práticos e visuais executados de forma tosca
  • Não estabelece com clareza as regras do seu universo
Nota: 2/5