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O corajoso retorno de Borat mostra que as diferenças podem ser boas

Sem cair nas armadilhas de sequências medíocres, ‘Borat 2’ é menos caótico, mas mais relevante que o original.

Matheus Esperon

Se você era de adolescente pra cima em 2006, eu provavelmente não preciso te contar sobre o fenômeno cultural que ‘Borat – O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América’ foi na época.

O personagem criado por Sacha Baron Cohen pra escancarar as bizarrices (e preconceitos!!!) da sociedade americana acabou tomando o mundo de assalto, se tornando um sucesso tanto de público quanto de crítica  — e garantindo até mesmo uma indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado em 2007. Conhecíamos, há 14 anos, uma das melhores comédias do século 21.

Corta pra 2020, o ano da pandemia, do auge da polarização política e de preconceitos. Ou seja, 2020, o ano realmente perfeito pro retorno de Borat, gravado em segredo e anunciado de surpresa pela Amazon Prime Video como a sequência Borat: Fita de Cinema Seguinte.

Após envergonhar o Cazaquistão na sua primeira viagem aos Estados Unidos, o repórter Borat (Sacha Baron Cohen) recebe a nova missão oficial de levar um presente para o governo americano e restaurar a glória do país. Chegando na América, ele encontra um país completamente diferente daquele de 14 anos atrás: muito mais polarizado e entrando na pandemia do COVID-19.

Sacha Baron Cohen notoriamente enfrentou um desafio enorme na produção da sequência: Borat se tornou uma figura famosa nos EUA, tanto dentro quanto fora do universo da narrativa. Por isso, aquele tipo de situação do original onde o personagem finge ser um repórter real (e sem noção de nada) da Ásia pra entrevistar pessoas ou até mesmo o ato de andar na rua incógnito fazendo bizarrices se tornou quase impossível. Até acontece em algumas cenas menores aqui na sequência, mas em ambientes mais abertos e com mais gente, ele rapidamente seria reconhecido.

Daí surge a diferença primordial entre os filmes: enquanto o primeiro foi extremamente caótico e mais solto, ‘Borat 2’ se viu obrigado a ser muito mais estruturado e roteirizado, contando com elementos narrativos muito mais próximos de filmes tradicionais — o que não é uma crítica, já que o humor e o ritmo da história nunca deixam a peteca cair, misturando cenas improvisadas com momentos mais arquitetados. A proposta só se tornou um pouco diferente mesmo.

O que também se tornou diferente foram os Estados Unidos ao longo de mais de uma década. Além de ser uma ótima comédia por si só, ‘Borat 2’ é quase um estudo de como a sociedade americana retrocedeu em diversos pontos com a ascensão de Donald Trump ao poder — e não é coincidência que o filme esteja saindo às vésperas das eleições presidenciais de 2020. Por baixo de toda a ironia e de toda a farsa dos personagens principais, há um objetivo claro de escancarar a realidade vergonhosa do país.

É interessantíssimo também como algumas vezes ao longo do filme (inclusive no ápice da história), Borat se torna um coadjuvante, dando espaço para sua filha Tutar, interpretada pela desconhecida e, agora, grande promessa do humor Maria Bakalova.

A novata Tutar, ao lado de um já estabelecido e querido Borat, consegue ficar par a par com a performance de Sacha Baron Cohen, tanto em termos de humor e falta de noção mesmo, quanto no campo da atuação. Seria muito fácil a adição de “uma nova Borat” ser extremamente forçada, mas, com uma química perceptível, a dupla sempre se completa em cena. É uma pena que o Oscar notoriamente esnobe atuações em comédia (e terror) porque qualquer um dos dois poderia facilmente receber uma indicação pelo trabalho.

‘Borat: Fita de Cinema Seguinte’ tinha a missão quase impossível de suceder um fenômeno cultural. A sequência pode até não ser tão boa quanto o original — que tem o trunfo de 14 anos de nostalgia e o fator surpresa em 2006 —, mas só de ser uma continuação digna, sem repetir as mesmas piadas, dá pra dizer que a glória do Cazaquistão foi restaurada.

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Borat: Fita de Cinema Seguinte

Obrigada a mudar o seu formato graças à fama de Borat, a sequência da icônica comédia de 2006 escapa das armadilhas das continuações medíocres, entregando um filme que, mesmo não tão bom quanto o original, ainda diverte e tem algo a dizer.

  • Ótimas atuações de Sacha Baron Cohen e Maria Bakalova
  • Mais socialmente relevante do que o original
  • Grande reviravolta na história
  • Algumas situações mais roteirizadas não têm a mesma força do caos do original
Nota: 4/5