O que os problemas do filme solo do Han Solo revelam sobre a Lucasfilm

Falsa promessa de inovação OU maldição de Harrison Ford?

Matheus Esperon

Recapitulando pra você que não é super ligado em Star Wars ou é personagem de um clássico da Disney que acaba de acordar por meio do beijo de um homem que você nunca deu permissão para lhe beijar (homem este inclusive que topou beijar um cadáver): Phil Lord e Chris Miller, diretores dos excelentes ‘Anjos da Lei’ (1 e 2) e o filme do LEGO foram contratados para o filme solo do Han Solo.

As filmagens começaram no início de fevereiro, tudo correndo aparentemente bem, pipocaram fotos oficiais, fotos de bastidores, tudo na paz. Até que DO NADA a Lucasfilm anuncia que a dupla não está mais envolvida com o filme. O motivo? “Diferenças criativas”, o que eu, tu e tua vaca sabemos muito bem que 99% das vezes quer dizer alguém foi babaca.

Logo começaram a surgir os [ditos] reais motivos. E, olha, foram vários. Teve até avião cheio de cocaína decolando de fazenda de ministro. Ah, não, peraí, isso é outra novela.

Primeiro, o estilo de direção de Lord e Miller tava deixando a Kathleen Kennedy (presidente da Lucasfilm) e o Lawrence Kasdan (roteirista e diretor do Episódio V) pistolas, como diz a garotada. A dupla notoriamente gosta de improvisar bastante, dando liberdade pros atores no set sem se prenderem muito ao roteiro. O problema é que a Kathleen e especialmente o Kasdan queriam que as falas, por exemplo, fossem ditas exatamente como estavam no papel.

Outro ponto foi que o filme aparentemente estava indo para um caminho de comédia completamente diferente do que a Lucasfilm queria. Fontes chegam a dizer que o Han Solo do Alden Ehrenreich estava parecido com Ace Ventura (o que seria fantástico e terrível ao mesmo tempo).

Falando no ator, a Lucasfilm chamou um professor de atuação pra tentar melhorar sua performance, presa demais na veia cômica idealizada pelos diretores. Chamar profissionais para melhorar a atuação dos atores não é incomum em Hollywood. O que é estranho é fazerem isso tão tarde (as filmagens já aconteciam há 3 meses). A Lucasfilm também trocou o editor do filme, provavelmente prevendo que teriam que mudar muita coisa na pós produção.

Vendo que o impasse estava ficando sério, a Lucasfilm buscou repetir a “fórmula” de produção utilizada em ‘Rogue One’. O primeiro spin-off da franquia também teve uma produção desastrosa, com Gareth Edwards (diretor) ficando para escanteio enquanto o roteirista Tony Gilroy assumiu a direção das refilmagens do terceiro ato. No caso de ‘Han Solo’, esse papel seria de Lawrence Kasdan.

Mas Lord e o Miller se recusaram a passar por isso (provavelmente por terem mais nome do que o Edwards), sendo a gota d’água da situação – junto com filmagens de uma sequência com a Millenium Falcon na qual a Lucasfilm queria 12 a 15 variações de câmera e eles gravaram apenas 3.

Uma pessoa próxima aos diretores disse que eles se queixavam de zero liberdade criativa e pouco tempo para gravar as cenas.

Como todo mundo sabe, eles foram demitidos com apenas 3 semanas restantes de filmagens e Ron Howard foi contratado para substituí-los – com refilmagens agendadas até setembro. Howard é um diretor muito competente (‘Apollo 13’, ‘Uma Mente Brilhante’ e ‘Rush: No Limite da Emoção’) mas com muitos filmes medíocres ultimamente (‘O Código Da Vinci’, ‘No Coração do Mar’ e ‘Inferno’). Dizem que o Howard e os ex-diretores têm se falado por email e que a dupla tem sido muito “elegante e solidária” com ele.

Essas informações são interessantes e preocupantes em relação ao modo como a Lucasfilm está tocando seus projetos. Primeiramente fica evidente (aqui o lance é rimar, espero que você ainda possa me amar) uma certa falta de planejamento do estúdio. Como são escolhidos diretores cujo estilo é improvisar e puxar tudo pro humor para um projeto que aparentemente deveria seguir o caminho oposto? É o equivalente a contratar Michel Temer para um documentário sobre Cristianismo e ficar surpreso quando ele pegar fogo ao entrar na igreja.

Toda essa história também joga um pouco por terra aquele papo da Lucasfilm de querer diretores mais novatos com ideias inovadoras e visões únicas para salvar o mundo das cáries. Aparentemente a Lucasfilm já tem um visão bem definida e quer que os diretores se encaixem nela, não o contrário.

E é aquilo: De 4 novos ‘Star Wars’ que saíram ou estão pra sair, apenas 1 não teve problemas de produção – o Episódio 8 de Rian Johnson que estreia esse ano. ‘Rogue One’ é o caso mais notório. Precisaram refilmar o 3º ato inteiro e o diretor foi jogado pra escanteio. Agora isso com o do Han Solo.

Até ‘O Despertar da Força’ teve problemas, especialmente com a data de lançamento do filme e a total mudança do roteiro escrito por Michael Arndt (que, na prática, foi demitido). Mas o J.J. Abrams conseguiu segurar no peito por ter cacife para peitar a Lucasfilm.

Só nos resta torcer para que com mais um projeto recheado de problemas de produção, Kathleen Kennedy realmente faça valer o que constantemente diz sobre deixar diretores inovadores trazerem suas ideias para o universo Star Wars.

Ou isso tudo pode ser apenas uma maldição lançada por Harrison Ford que nunca foi muito fã do personagem.