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‘Os 7 de Chicago’: a triste contemporaneidade de um filme que se passa há mais de 50 anos

Com um ótimo roteiro fortalecido por atuações de primeira, o filme se torna um dos grandes acertos cinematográficos da Netflix.

Matheus Esperon

Karl Marx — filósofo, sociólogo e visionário por proibir comunistas de terem iPhone ainda em 1867(!!!) —, tem uma frase que, por mais que tenha se tornado clichê, não deixou de conter verdade: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.”

E é impressionante a quantidade de farsas que as parcelas poderosas e conservadoras da sociedade ocidental continuam tentando nos enfiar goela abaixo, como o eterno fantasma do comunismo e a tentativa de nos convencer de que a ameaça ao status quo das elites também é uma ameaça pra gente (spoiler: não é verdade).

Discursos de “nós contra eles”, que batem em teclas já encardidas como valores, tradição, família e pátria, não são invenção do bolsonarismo de 2018, sendo artimanhas antiquíssimas que permeiam as decisões históricas do presente, como a eleição de Donald Trump em 2016, e do passado, como toda a Guerra do Vietnã e suas consequências, exploradas no novo filme da Netflix, Os 7 de Chicago.

No auge da Guerra do Vietnã em 1968, uma grande manifestação contra o conflito na cidade de Chicago acabou em violência: a polícia começou o confronto, mas as autoridades culparam os manifestantes — exatamente como acontece hoje em dia no Brasil (entende o que eu disse sobre a história se repetir como farsa?).

Em busca de “”justiça”” e retaliação, o governo federal acusou os sete líderes dos diversos movimentos sociais presentes na manifestação de terem conspirado desde o começo pra incitar um protesto violento, dando origem ao julgamento dos “Sete de Chicago”, como o grupo ficou conhecido.

A adaptação da história, que originalmente iria pros cinemas, mas acabou na Netflix por causa da pandemia, é extremamente feliz  em passar os três sentimentos que permeiam a história, seja aqui como ficção ou na realidade como evento histórico: raiva, frustração e impotência — que é exatamente como você se sente ao longo das suas duas horas e dez minutos de duração.

O roteiro de Aaron Sorkin, um dos melhores roteiristas em atividade no cinema, transcreve com maestria a crescente de absurdos que cercou o processo legal, indicando a cada novo evento e reviravolta como a situação dos réus é um caso perdido, justamente por se tratar de um julgamento político.

Os diálogos super afiados e rápidos, marca registrada de Sorkin que em alguns (poucos!) de seus filmes acaba passando uma ideia de artificialidade por todos os personagens sempre terem tiradas, respostas e até discursos perfeitos na ponta da língua, aqui são um pouco mais contidos e até mesmo lentos, contribuindo pra um ar mais natural e realista, o que conversa bem demais com a proposta de adaptação de um evento histórico.

A força do roteiro é amplificada pelo elenco super gabaritado do filme. Praticamente todo e qualquer personagem que aparece em cena é interpretado por um grande ator, dando uma grande performance — o destaque fica pro advogado Mark Rylance, candidatíssimo a mais uma indicação ao Oscar, e os ativistas vividos por Jeremy Strong, Sacha Baron Cohen e Yahya Abdul-Mateen II (Eddie Redmayne, já vencedor do Oscar, poderia estar entre os maiores destaques também, se ele estranha e claramente não fosse perdendo seu sotaque ao longo do filme kkkk).

O último ponto positivo é a direção, também de Aaron Sorkin (marcando apenas seu segundo trabalho na função), que vi ser muito criticada por ser “simples demais” — o que pra mim é justamente a sua força. Com uma história real já tão poderosa por si só, tão bem adaptada e, especialmente, tão bem atuada, uma direção mais chamativa serviria apenas de distração. A ideia de fazer um trabalho discreto, se foi realmente pensada desde o começo pra ser assim e deixar o destaque pra todo o resto da produção, foi uma decisão acertadíssima.

‘Os 7 de Chicago’ é um filme que consegue mexer com quem tá assistindo. É uma adaptação de uma revoltante história real que consegue te deixar revoltado ao longo de toda a sua duração — e, honestamente, espero que também depois dos créditos.

Afinal, o mundo precisa de mais pessoas revoltadas.

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Os 7 de Chicago

Um dos grandes acertos cinematográficos da Netflix, 'Os 7 de Chicago' consolida a ainda iniciante carreira de Aaron Sorkin como diretor. Uma adaptação melancolicamente moderna que consegue mexer com quem tá assistindo e nos faz pensar em como pouca coisa mudou em mais de 50 anos.

  • Atuações excepcionais de todo o elenco
  • A indicação ao Oscar pro Mark Rylance tem que vir
  • Roteiro transmite toda a energia e os sentimentos certos
  • Direção sutil que não atrapalha o resto dos elementos da produção
  • NÃO TEM FOTOS DOS PERSONAGENS REAIS NOS CRÉDITOS 0/5
Nota: 5/5