Divulgação

Os ‘Relatos do Mundo’ de 1870 não são tão diferentes dos de hoje em dia

Com poucas chances de ir além do básico, Tom Hanks é ofuscado pela jovem Helena Zengel.

Matheus Esperon

Já comentei aqui no 10de10 anteriormente sobre o curiosíssimo fenômeno cinematográfico dos filmes que, mesmo gravados antes da pandemia do coronavírus, têm elementos que conversam diretamente com o nosso contexto atual.

Por mais que Relatos do Mundo, segunda parceria do diretor Paul Greengrass com Tom Hanks após ‘Capitão Phillips’, até entre nesse “novo gênero” por mencionar uma epidemia de tuberculose que ameaçava os Estados Unidos de 1870, ele se relaciona com a nossa realidade de maneira muito mais forte (e planejada) ao abordar diretamente a divisão política ainda presente pós Guerra de Secessão, naquele clima gostooooso muito similar ao que vivemos hoje tanto lá quanto aqui no Brasil.

Tom Hanks (o Dan Stulbach dos gringos) vive o capitão Kidd, um veterano da guerra civil americana que aceita a missão de levar a jovem órfã Johanna (Helena Zengel) até seus tios, mesmo que contra sua vontade — afinal, por ter sido raptada muito novinha pela tribo Kiowa, ela se sente muito mais indígena do que americana.

Ao retratar uma jornada por terras texanas ainda mais em polvorosa do que hoje, Greengrass criou o cenário perfeito para conectar a realidade de 1870 com 2020/21 nos pontos mais deploráveis possíveis.

Além da supracitada divisão política (que, aliás, conta até com um personagem que se recusa a reconhecer a vitória do norte, a ponto de criar sua própria administração), Kidd e Johanna são ameaçados pelo [ainda mais] descarado racismo do sul dos EUA — o que contribui para grande parte do clima de tensão do faroeste: as estradas perigosas mencionadas por coadjuvantes são ainda mais arriscadas para um velho escoltando uma nativa-americana.

Falando na dupla principal, um dos pilares da narrativa é a constante evolução do relacionamento paternal entre os protagonistas, entregue mais pelo carisma de Tom Hanks e sua química com a jovem Helena Zengel do que pelo roteiro em si. O texto de Paul Greengrass e Luke Davies dá poucas chances para Hanks ir além do básico (que ele faz muito bem), permitindo que Zengel seja a grande estrela do filme com sua ótima performance baseada quase que inteiramente em gestos e expressões faciais, já que sua personagem quase não fala inglês.

‘Relatos do Mundo’ é um faroeste lento, mas que [por pouco] não se torna chato ao longo de duas quase duas horas de duração. Ao passo que a narrativa em si não é digna de torná-lo um filme memorável, até por ser bem previsível, seu diálogo com a modernidade, alicerçado sempre por um trilha sonora certeira de James Newton Howard, consegue dar um pouco de fôlego para o velho capitão Kidd.

Divulgação

Relatos do Mundo

Um faroeste lento, mas competente, cujo grande destaque é a revelação da jovem atriz Helena Zengel. Talvez se torne memorável apenas para fãs mais ferrenhos do gênero que enxerguem o valor nas conexões dos temas sociais de 1870 com 2020/21.

  • Revelação de Helena Zengel
  • Ótima trilha sonora
  • Tom Hanks é tipo pizza: é sempre bom
  • Ritmo lento
  • História previsível
Nota: 3/5