Review | A Chegada

A Chegada é um filme raro. Não só por sua temática diferenciada, mas também por sua coragem e quantidade de acertos.

Rafael Mei

Existem filmes que te fazem pensar. Que quando você sai da sessão é impossível tirá-los da cabeça. Que te fazem reconsiderar alguns de seus conceitos e opiniões, analisar cada ponto e mensagem do filme e refletir sobre os mesmos. Que você tem certeza que vai citar muitas vezes no futuro ao compará-los com outras obras. A Chegada é um desses filmes.

Dirigido por Denis Villeneuve (Sicario: Terra de Ninguém, Os Suspeitos), o filme conta a história de Louise Banks (Amy Adams), uma linguista de grande renome que é convocada pelo coronel Weber (Forest Whitaker) – junto do físico Ian Donelly (Jeremy Renner) – para tentar decodificar a linguagem dos extraterrestres dos doze OVNIs que subitamente surgiram na superfície da Terra. Quem são, de onde vieram e – o mais importante de tudo – o seu propósito, são totais incógnitas.

Apenas pela forma como trabalha sua premissa, o roteiro já é absolutamente fascinante. É um longa que não tem pressa de chegar em sua conclusão, mas que – ao mesmo tempo – não tem sequer uma cena desnecessária. É belissimamente construído, com muitos detalhes e com algo que só posso descrever como um absoluto carinho pelo material.

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O desenvolvimento da narrativa e dos personagens são feitos com calma e precisão pelo diretor, que consegue manter um clima de tensão no filme todo, mesmo com seu ritmo mais lento. Seria muito fácil uma narrativa desse escopo entrar em clichês ou ficar saturada de personagens e linhas narrativas para dar um aspecto de grandeza à mesma – armadilhas que o filme desvia com maestria.

Escopo é, inclusive, talvez a palavra mais importante para o sucesso da trama. A história trata de questões enormes da condição humana, entre elas: política, memória, relacionamentos, ciência e filosofia. Porém todo esse universo gigantesco e complexo é abordado de forma humana, pequena e frágil ao focarmos, basicamente, nos três personagens já descritos. Cada um lida com a situação de sua maneira, cada um traz uma coisa diferente.

Esse processo acaba por criar uma sensação de extrema empatia para com todos os personagens envolvidos. Mesmo aqueles que tomam decisões repreensíveis são pintados como pessoas complexas, com suas próprias motivações e seus próprios medos. A verdade é que ninguém sabe lidar com o que está acontecendo e, honestamente, quem poderia dizer que saberia?

Tudo isso funciona pelas grandes atuações – com destaque para os protagonistas – e pela excelente direção de Villeneuve, que emprega uma fotografia cinzenta, fria, opressiva, com movimentos de câmera lentos e precisos – especificamente um que é recorrente na projeção onde a câmera realiza um travelling para frente ao mesmo tempo que faz um tilt vertical. Na sequência inicial já é possível notar o excelente uso da paleta de cor e da montagem paralela que são usadas em diversos momentos no filme.

O design de produção também não fica para trás. Os OVNIs com seu formato simples, geométrico e tão ausentes de detalhes ou símbolos apenas aumentam o mistério e a curiosidade despertada pelos mesmos. Sua escala gigantesca reflete perfeitamente a sensação de pequeneza dos personagens ao considerarem que não, não estamos sozinhos no universo. É um dos poucos exemplos em que não estamos lidando simplesmente com extraterrestres, mas sim com algo verdadeiramente alienígena em sua concepção.

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Esse sentimento é também reproduzido na trilha sonora, composta por Johán Jóhannsson. Em diversos momentos somos surpreendidos por sons dissonantes, estranhos e não-familiares. É uma trilha opressiva, incômoda. Também é possível notar na música o mesmo contraste de escalas visto nos outros pontos ao compararmos o resto da trilha ao tema composto por Max Richter (The Leftovers – que, inclusive, tem certa semelhança temática com o filme, além de uma trilha sonora incrível) que é, por sua vez, sublime, humano, quase – e eu sei que é muito estranho descrever assim – táctil de certa maneira.

Quanto mais eu penso em A Chegada, mais apaixonado e maravilhado fico. Quanto mais reflito, mais suas questões, temas e, de certa forma, coragem, me fascinam – afinal, é um filme que tem como principal alicerce um campo complexo e pouco atraente como a linguística. O total controle e segurança que Villeneuve, e toda a equipe envolvida, têm para guiar uma obra de tamanha profundidade – incluindo a magnífica conclusão – é algo, por si só, emocionante. É uma obra que inspira, assombra e comove como poucas são capazes.

A Chegada

Dirigido, escrito e atuado com absoluta segurança e habilidade - além da trilha sonora belíssima -, o longa não tem medo de adotar um ritmo lento e deliberado - sem perder a tensão - em prol de uma conclusão magnífica e satisfatória. Sensível - em todos os sentidos da palavra -, A Chegada é um filme que será comentado e reverenciando por anos.

  • Direção confiante e segura
  • Roteiro inteligente e bem construído
  • Atuações excelentes
  • Fotografia e direção de arte belíssimas
  • Trilha sonora criativa e tocante
Nota: 5/5