Review | A Promessa

Um filme que promete mas não cumpre.

Gustavo Angeleas

A história do mundo e das sociedades é, em diversas ocasiões, cíclica, repetitiva e, para usar o batido clichê, serve para recordar-nos do passado e não repetí-lo. Porém, é bem possível que haja diversos fatos históricos que acabam relegados à “temas de segunda importância”, apesar de terem afetado milhões e milhões de vidas. Você já ouviu falar do genocídio judeu, chamado também de Holocausto, não é? E do genocídio armênio, você já ouviu falar?

Sem muito alarde, pouca propaganda e ignorância da maioria, foi lançado “A Promessa”, filme de Terry George que se passa na Primeira Guerra Mundial e mostra o genocídio da população armênia pelo Império Turco-Otomano. George é roteirista de “Em nome do pai” (1993) e diretor de “Hotel Ruanda” (2004), filme também passado em um importante momento histórico. Com Oscar Isaac e Christian Bale, o filme até prometia, mas não cumpriu (VOCÊ VIU ESSA VINDO?? NEM EU).

O filme começa com Mikel Boghosian (Oscar Isaac), um armênio morador da pequena vila de Siroun, cuja população era toda armênia. Descendente de uma família de botânicos, tinha o sonho de ir para a capital do Império, Constantinopla, para estudar medicina e ajudar as pessoas. Para conseguir o dinheiro, ele recorre ao homem mais rico da vila, que oferece um dote de 400 moedas de ouro para custear os estudos, em troca da promessa de que Mikel case com sua filha. Na capital, ele vai morar com o tio, um rico comerciante, e se apaixona pela tutora de suas priminhas, Anna Khesarian (Charlotte Le Bon), que namora Chris Myers (Christian Bale), jornalista americano da Associated Press. E pronto, tá armado o triângulo amoroso.

Christian bale é um jornalista com um cavanhaque estiloso

Assim como no filme, vamos dar uma pausa aqui para explicar parte desse confronto pouco conhecido. Genocídio é o extermínio sistemático e deliberado de populações ou grupos étnicos. O Holocausto é um dos maiores e, sem dúvida, o mais conhecido, mas há outros na história (way to go, humanity) que são menos estudados e divulgados. É o caso tanto do massacre dos Tutsi, mostrado em “Hotel Ruanda”, quanto do genocídio armênio, promovido pelas autoridades turcas e que escravizou, torturou e matou mais de 1 milhão de armênios, além de forçar a migração de milhares de famílias. Até hoje o governo turco nega essas “acusações” (as aspas são por parte do governo turco) sob a alegação de que o país passava por uma guerra civil. É um assunto muito sério e que deve ser relembrado, ainda mais em um período tão caótico como o que vivemos hoje em dia na mesma região. Em dado momento, o filme até cita a cidade de Aleppo, o que, provavelmente, é proposital para fazer referência a esse centro da Guerra na Síria. Ponto para o filme pela coragem de tocar nessa ferida, considerando que o presidente turco é Recep Erdogan, político extremamente conservador que está em vias de instaurar uma ditadura no seu país.

o exército turco assassinou milhares de armênios

Feito esse elogio, os problemas do filme começam logo nas primeiras cenas. O primeiro é a escalação de Oscar Isaac, que nasceu na Guatemala (por essa você não esperava, não é?). Um filme desse poderia ter um protagonista que, pelo menos, tenha ascendência armênia. Mas vá lá, Hollywood, dá até pra aceitar isso se utilizarmos a justificativa de que, para chamar atenção ao tema do filme, precisa de um ator com nome forte. Mas, na primeira fala de Mikel, a língua é o inglês e, pasmem, COM SOTAQUE. Sinceramente, quer colocar os caras falando inglês, assume que está POUCO SE LIXANDO para a língua original, mas não coloca um sotaque fajuto. Isso chega a ser irritante em dados momentos da história. Sendo que (TALVEZ SPOILER, TALVEZ SPOILER NA PRÓXIMA FRASE), no final do filme, os caras fazem uma oração em armênio. NÃO FAZ O MENOR SENTIDO, JESUS CRISTO EMPOSSADO.

Mas, voltando à trama, quando o triângulo amoroso é estabelecido, o ritmo do filme vai longe: as coisas passam a acontecer de forma completamente desconexa, deslocamentos que deveriam parecer custosos passam completamente despercebidos e a química entre os três personagens principais simplesmente não existe. Sendo que até, mais ou menos, a metade do filme, as coisas não parecem que vão levar a lugar algum. Isso só vai mudar do meio pra frente, quando um problema específico acontece e une os três personagens em um objetivo, ainda que eles estejam separados geograficamente.

Isaac dá um show de atuação, apesar do personagem não ser lá essas coisas. Ele é bondoso e solícito, mas falta carisma. Bale tem um personagem bom nas mãos e entrega uma atuação interessante, mas nada parecido com o que já vimos dele em outras ocasiões.

Oscar Isaac é um armeno que fala inglês com sotaque

Em resumo, “A Promessa” é um filme que poderia ser muito melhor. Tem um plano de fundo historicamente rico, bons atores, um bom diretor, uma fórmula de sucesso, mas peca em praticamente todos estes pontos. Salvam-se, principalmente, a atuação de Oscar Isaac, a fotografia de Javier Aguirresarobe e a decisão de tratar de um tema tão importante quanto esse. Se você gosta de romances históricos, vale a pena assistir no cinema. Caso contrário, espere para ver quando estiver disponível nas plataformas de streaming.

Se você tiver se interessado pelo tema, indico aqui duas formas de começar: o podcast Xadrez Verbal que tratou do tema e o site feito pela produtora do filme para resumir o tema. Vale pesquisar para entender que os acontecimentos na Síria não são novidade.

A Promessa

Filme com tudo para ser 10/10, mas peca em diversos pontos. Salva-se, principalmente, pelo tema que trata e pelo final interessante.

  • Oscar Isaac dá show de atuação
  • Boa direção de fotografia
  • Começo arrastado
  • Roteiro incoerente
  • Falta representatividade
  • Casal protagonista não tem química
Nota: 2/5