Foto: Divulgação

Review | Alice Através do Espelho

Alice Através do Espelho traz discussões relevantes no meio de um mar (literalmente) de loucura. Tudo nesse filme é BEM literal.

Christian Kaisermann

Antes de qualquer coisa, apesar de ser um amante deste universo insano de Lewis Carroll, devo confessar que demorei 4 anos para ver o primeiro filme live-action da Disney de Alice no País das Maravilhas. Não sei dizer o motivo, apenas aconteceu. Enquanto isso estava satisfeito com o jogo Alice: Madness Returns e meu pequeno livro de 1960 que encontrei por um sebo da vida (obrigado vovó Arlinda, sejá lá quem você seja). Visto o primeiro filme, apaixonei-me ainda mais. O estilo de Tim Burton está para Alice assim como eu estou para batatinhas fritas, uma combinação perfeita.

alice-no-pais-das-maravilhas-livro
Deve ter sido um ótimo natal

Sabendo da existência do segundo livro de Lewis Carrol, Alice Através do Espelho, era de se esperar que, após o primeiro longa, fossemos ter uma sequência.

O enredo do filme é original, tomando poucas referências do livro, e envolve Alice em uma missão contra o tempo em pessoa (literalmente) enquanto busca solucionar certo mistério relacionado à familia do Chapeleiro Maluco.

Logo no começo somos apresentados novamente à Alice, agora capitã do Navio Wonder, de seu pai, executando feitos que sua tripulação julgava como impossíveis. De cara somos relembrados que nossa protagonista não deixa de ousar, que o impossível só é impossível até alguém torná-lo possível. Ao voltar à Londres após 3 anos de expedições marítimas ao oriente, Alice é recebida com preconceitos por sua mãe, seu ex pretendente Hamish, entre outros. Além de pensarem que uma mulher não é capaz de ser capitã de um navio, todos fazem questão de demonstrar como o tempo está passando e como ele é um inimigo para Alice.

Eis que em certa festa, Alice ouve um chamado de uma pequenina borboleta e, como qualquer pessoa não-normal, resolve adentrar um espelho a la Matrix e reencontra seus antigos amigos de aventura. Apreensivos, explicam que algo estranho aconteceu com o Chapeleiro e que Alice era a única que podia ajudá-lo (claro).

O chapeleiro está doente e em busca de sua perdida (morta) familia. Após Alice resolver ajudá-lo, Mirana explica que o único modo de solucionar o problema é voltando no tempo e para isso ela precisaria lidar com o Tempo. Sim, com primeira letra maiúscula. O Tempo é, de fato, um personagem, um “homem”. Além da interpretação interessante, este conceito abre oportunidades para diversos trocadilhos acerca de ‘tempo’ no decorrer do filme. Sério, são demais.

Somos apresentados ao passado do mundo subterrâneo e a tudo que levou às circunstâncias atuais do reino: por que a rainha de copas odeia sua irmã, um Cheshire filhote muito (muito) fofinho e muito mais.

alice-absolem

O foco do filme é ao redor de Alice e o Chapeleiro, o que, infelizmente, não deu espaço para os outros personagens que tanto amamos também, como os gêmeos, o dormidongo e afins. Porém, a pequena participação que têm já consegue arrancar boas risadas.

Para a sequência temos como diretor James Bobin, de ‘Os Muppets’. Apesar da mudança, Burton continua como produtor, conseguindo manter o filme fiel à estética caótica e ultra-colorida que esperamos e já estamos acostumados. Bobin consegue criar uma aventura dinâmica e acelerada enquanto fantástica.

Olha esse figurino!

O roteiro em si não é o ponto forte do filme. A história é relativamente pequena e rasa. Apesar de termos diversas provas de como Alice é uma personagem forte, corajosa e esperta, em certos momentos, por motivos de roteiro ela é inconsequente e age de maneira duvidosa (como invadir certo local enquanto ignora o dono deste, sendo que este apresenta um claro perigo à todos). Claro que o filme, ainda mais pela sua natureza, tem o direito de possuir decisões fantásticas e impulsivas, mas algumas se apresentam apenas como “falta de pensar um pouquinho” e quebram até mesmo a própria insanidade do filme.

Entretanto, ao mesmo tempo em que o roteiro erra em certos aspectos, este se mantém divertido, enquanto recebemos uma pequena dose de questionamentos relevantes. Desde a constante reflexão acerca do tempo e nossa relação com ele, dos preconceitos que aqueles que escolhem fugir do padrão sofrem ao papel da mulher na sociedade.

Foto: Divulgação

Alice Através do Espelho

Apesar de não ser um filme memorável para qualquer um, a obra consegue agradar os fãs ao fazer com que voltem àquele universo completamente maluco e incrível, com uma fotografia lúdica e espetacular. Um mundo aonde você não só pode como deve levar tudo ao literal.

  • Aquela estética Tim-Burtonesca
  • Personagens femininas fortes
  • Ótimos trocadilhos com a palavra 'tempo'
  • Reflexões acerca de temas relevantes
  • As roupas da Alice
  • Pouca participação de outros personagens como Cheshire e Absolem
  • Personagens inteligentes fazendo decisões duvidosas por motivos de roteiro
Nota: 4/5