Review | Até o Último Homem

Mel Gibson mostra que está mais lúcido ao entregar um excelente filme de guerra com algumas das melhores cenas desde ‘O Resgate do Soldado Ryan’.

Matheus Esperon

Quando você cometer um erro e achar que fez a pior cagada da sua vida, lembre que Mel Gibson – membro de uma indústria com fortes raízes judaicas – disse em 2006 que os judeus são a causa de todas as guerras no mundo. Inclua aí outros “discursos” altamente sexistas e racistas e você tem o porquê do ator/diretor ter sido basicamente banido de Hollywood. Viu? O seu erro não foi tão ruim assim.

O primeiro [Mad] Max  tem nos últimos anos tentado voltar ao cenário cinematográfico, com alguns filmes bem meia boca, como ‘Mercenários 3’ e ‘Herança de Sangue’. Eis que a maré parece ter finalmente virado a seu favor com o sucesso de Até o Último Homem, produção que mostra que Mel Gibson aparentemente está um pouco mais lúcido.

Baseado em fatos reais, o longa conta a história de Desmond Doss (Andrew Garfield), médico do exército que se recusou a sequer carregar uma arma – e muito menos disparar um tiro – durante seu treinamento e especialmente na sangrenta Batalha de Okinawa da 2ª Guerra Mundial.

A premissa do pacifista (a doutrina do personagem tem um nome especifico do qual não me recordo agora) que vai para a guerra é instigante por si só e muito bem explorada. A história vai além do campo de batalha e faz questão de mostrar como Desmond chegou à tal doutrina – muito em parte graças aos péssimos exemplos de seu violento pai interpretado pelo sempre sensacional Hugo Weaving.

Além disso também presenciamos todas as dificuldades que Doss passou durante seu treinamento, onde ele foi incompreendido, agredido e até mesmo preso por se recusar a pegar em armas. É nessa parte do filme que conhecemos diversos personagens que são puros clichês de filmes de guerra mas também duas excelentes surpresas nos papéis de Vince Vaughn e Sam Worthington, que fazem respectivamente um sargento e um capitão superiores ao protagonista.

Só vale comentar que Sam Worthington é britânico e começa fazendo um sotaque americano super convincente. O problema é que tal interpretação vai morrendo ao longo do filme e no final ele parece até australiano(?). É um pouco estranho.

Quem diria que viveríamos para ver Sam Worthington atuando bem pra caramba

Mas um dos maiores destaques do filme é Andrew Garfield, nosso ex-Homem-Aranha. O ator de 33 anos tem uma das melhores performances de 2016 e tranquilamente a melhor de sua carreira, com muito carisma, emoção a flor de pele, certeiras doses de humor e até mesmo muito esforço físico (a quantidade de gente que ele levou nas costas, literalmente, rapaz). Sua indicação ao Oscar de melhor ator é merecidíssma.

O outro grande destaque do filme é a direção de Mel Gibson, especialmente nas cenas de batalha. O diretor entrega algumas das melhores sequências desde ‘O Resgate do Soldado Ryan’, com cenas completamente brutais, cruas e viscerais (se você tem problema com gore é melhor ir preparado pra fechar os olhos).

Além disso, o diretor utiliza o caos de maneira certeira. Não chega a ser tanto para atrapalhar e fazer com que nos sintamos perdidos mas é o suficiente para mostrar o quão confuso é um contexto de guerra mundial. Explode uma bomba aqui, alguém leva uma saraivada de tiros do lado, voa um corpo em chamas pela cena, aparece um japonês com uma faca, é uma verdadeira loucura.

Pra fechar os pontos positivos, ainda há muita criatividade nos planos e nos takes, com uma fotografia maravilhosa praticamente o tempo todo. Uma cena que ficou na cabeça foi a em que a câmera fica fixa na parte de trás de uma metralhadora que dispara a toda, enquanto vemos o estrago causado mais ao fundo no plano. Coisa de primeira mesmo.

O ponto negativo do filme pode ser generalizado em uma palavra: Exagero. A trilha sonora no geral é bonita e bem orquestrada, mas não são raros os momentos em que ela é exagerada e invasiva. Personagem mais secundário andando calmamente com soldados passando ao fundo? Um tema super complexo tocando que simplesmente não encaixa com a cena.

Além disso, um ar estranhamente religioso permeia quase o filme todo, com diversos sermões bíblicos dados por Doss e algumas alegorias super bregas – essas tanto no roteiro quanto em takes que gritam “olha, esse cara é tipo Jesus, hein!” – que contribuem para o tom melodramático da produção. Se não fosse pela violência, Até o Último Homem poderia até se passar por aqueles filmes cristãos tipo Desafiando Gigantes e afins.

Por fim, há uma cena específica na qual um dos personagens é puxado para longe enquanto atira nos inimigos que é tosca no nível de te tirar do filme por alguns momentos.

Até o Último Homem

A produção de Mel Gibson é um excelente filme de guerra, com algumas das melhores cenas desde 'O Resgate do Soldado Ryan'. O tom melodramático, exagerado e religioso que permeia o filme não é suficiente para apagar a direção inspirada e a excelente atuação de Andrew Garfield.

  • Melhores cenas de batalha desde 'O Resgate do Soldado Ryan'
  • Direção criativa e super competente
  • Fotografia crua e bonita
  • Atuação incrível de Andrew Garfield
  • Ótimas participações de Hugo Weaving, Vince Vaughn e Sam Worthington.
  • Tom exagerado e melodramático
  • Trilha sonora invasiva
Nota: 4/5