Review | Azul é a Cor Mais Quente

Pensei bastante se eu deveria escrever essa resenha. Ok, não “bastante” tipo a decisão de abortar o seu filho acéfalo ou gastar R$ 500,00 numa máquina Nespresso (what else?), mas dei uma pensada de 5 minutos antes de dormir ontem. Quando você não curte alguma coisa que praticamente todo mundo amou, qualquer comentário negativo é interpretado como haterismo e as pessoas imediatamente sacam o super trunfo “você não entendeu o filme”. Eu digo isso porque reconheço que também faço a mesma coisa quando estou no outro lado da brincadeira.

Matheus Esperon

Pensei bastante se eu deveria escrever essa resenha. Ok, não “bastante” tipo a decisão de abortar o seu filho acéfalo ou gastar R$ 500,00 numa máquina Nespresso (what else?), mas dei uma pensada de 5 minutos antes de dormir ontem. Quando você não curte alguma coisa que praticamente todo mundo amou, qualquer comentário negativo é interpretado como haterismo e as pessoas imediatamente sacam o super trunfo “você não entendeu o filme”. Eu digo isso porque reconheço que também faço a mesma coisa quando estou no outro lado da brincadeira.

Então essa resenha vai ser diferente. Haverá spoilers do filme e ela talvez seja mais maçante que o normal, justamente porque quero entrar em todos os detalhes que me fizeram gritar “PUTAQUEPARIU ” quando tudo acabou. Então, de forma extensa e detalhada, taí o que me fez detestar Azul é a Cor Mais Quente.

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::: HISTÓRIA :::::::::::::::

A história você provavelmente já sabe: uma jovem chamada Adèle (ROLLING IN THE DEEEEEEEEEP…) conhece uma mulher de cabelo azul que lhe aplica um pussy lock equivalente a versão masculina executada pelo Kili na Tauriel em A Desolação de Smaug (sério, a protagonista vê a azulada Emma no outro lado da rua um dia e é isso aí, meteoro da paixão. Elas devem ter lido o roteiro…). Se inicia então um romance que ajuda Adèle a descobrir sua própria sexualidade e se tornar adulta. E a gostar de frutos do mar.

Um dos problemas de Azul é a Cor Mais Quente é que o filme se divide em dois. Parece que mais ou menos na metade da brincadeira, mudaram de diretor e pegaram um roteiro novo. A história começa fantástica, mostrando os dilemas de uma pessoa que tá se descobrindo homossexual. Não sou gay, logo, posso estar equivocado, mas acredito que deve ser bem o que aparece na tela mesmo: desesperador, confuso e angustiante. Não porque é errado ou algo do tipo (fuck you, Feliciano), mas porque é algo inteiramente novo pra pessoa e que, muitas vezes, deve surgir meio do nada mesmo. Além de toda a merda que você vai ter que ouvir dos outros e diversas questões sociais.

Só que, bicho, na metade da parada (ali por volta de 8h de duração), o filme subitamente abandona todo esse tema maneiríssimo e se torna um drama genérico sobre relacionamentos e traição. Em vez de vermos como a recém descoberta Adèle lida com sua família, amigos e seu cotidiano numa sociedade ainda intolerante, somos forçados a ver a vida triste de uma pessoa que defecou em cima do próprio namoro. Cuén. :/

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Aliás, falando em namoro, quando as duas começam a ~paquerar, Emma menciona que tá com a atual namorada há dois anos. E aí, pouco tempo depois, elas se pegam e começam a namorar. E a tal namorada de dois anos SOME da trama, nunca mais nem é citada. Ok…

Agora, o que irrita bastante no filme é o excesso de cenas e diálogos completamente desnecessários. Pense nos semáforos em GTA. É tudo ainda mais dispensável. Conversas de 10 minutos que não levam a lugar nenhum, nem ajudam a construir os personagens. E pior: entre personagens que são completamente irrelevantes, muitos que só aparecem pra encher linguiça mesmo. Seria ok durante uma festa, por exemplo, mostrar o pessoal conversando sobre coisas cultas pra deixar claro o estilo da galera, mas o diretor se estende demais nisso. Uns dois minutos seriam suficientes pra mostrar quem é quem ali, mas realmente perderam a mão.

E tem cena cortável e excessivamente longa pra dar e vender. Mostrar a protagonista dormindo uma vez? Ok, a forma como uma pessoa dorme pode falar muito sobre a ela. Agora, repetir praticamente a mesma cena 3, 4, 5 vezes durante o filme? Por que?! Se o jeito como ela dorme fosse mudando, evoluindo pro perfil de uma pessoa mais tranquila e em aceitação consigo mesma, perfeito, mas não é o caso.

A própria tão comentada e mega explícita cena de sexo entre as mulheres dura oito minutos, cara. Pra quê? No início você entende qualé a da parada: “ah, olha, elas realmente se amam, a Adèle tá descobrindo pela primeira vez o que é fazer sexo de forma que ela realmente curta e se entregue, legal”. Mas depois de 3 minutos inteiros disso, fica um “er… ok, e aí? Vamos continuar com o filme?”. Um amigo meu argumentou que são 8 minutos pra chocar o público e “quebrar tabus”. Olha, poderiam ser 8 minutos de sexo heterossexual, sexo com anões, sexo com uma caixa de coxinhas do Fornalha, seria longo demais do mesmo jeito. Não precisa de tanto tempo pra chocar o público. Pra mim, o baque tá na cena em si, não na sua duração.

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Pra fechar, outro fator negativo é a exposição gratuita presente no filme. Adèle dormindo? Bunda empinada pra cima, em primeiro plano, obviamente descoberta. Adèle andando na rua? Câmera posicionada atrás da personagem, que tá usando calça legging e ainda dá uma puxadinha na calça pra realçar ainda mais a bunda (e isso se repete mais umas duas ou três vezes durante o longa). Estátuas no museu? Vamos filmar a bunda delas. Sério, que fixação maluca esse diretor tem com bundas.

As próprias cenas de sexo entre elas (sim, tem várias além da de 8 minutos, todas desnecessariamente longas também) mostram demais. Mas aí é mais uma opinião pessoal mesmo. Daria pra passar a mesma mensagem (elas tão apaixonadas) da mesma forma sem ser tão gráfico. Ficou gratuito demais.

::: CONCLUSÃO ::::::::::::

De forma curta e grossa, Azul é a cor Mais Quente seria um bom filme se fosse mais enxuto. Se tudo durasse umas 2h, sem as cenas tediosamente estendidas e desnecessárias, a experiência seria outra. Entenda: o meu problema não é ele ser longo e lento, é ele sê-lo sem justificativa. Se o longa também se mantivesse fiel às questões belamente abordadas na primeira metade, seria um filmaço.

Ah, ter um final também seria excelente — a história termina mais do nada que roleta russa. Ouvi dizer que teria uma sequência, por isso o desfecho sem fim, mas o diretor e as atrizes se desentenderam. Mas o título original diz “partes 1 e 2″, então acho que não é bem assim.

Este texto foi originalmente postado no Eleve Seu QI.

Azul é a Cor Mais Quente

Azul é um puta potencial desperdiçado. Duas atrizes belíssimas e altamente talentosas, aliadas à uma trama inicial inovadora, crua e realista. Acabou que o filme é tão ruim que me fez questionar cenas de sexo lésbico entre duas beldades. Sinta o nível da parada.

  • Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux são talentosíssimas
  • A história começa muito bem
  • Mas vira um drama qualquer sobre traição
  • Cenas gratuitas que não adicionam nada à trama
  • Longo e arrastado demais
  • Não há final
Nota: 1/5

*Alguns disclaimers e respostas antecipadas  ;)
.:. “Ah, você que não gosta de filme lento!“: um dos meus filmes favoritos de ficção é 2001 – Uma Odisséia no Espaço, que é mais lento que uma tartaruga tetraplégica.
.:. “Ah, você que não gosta de filme longo!“: sou apaixonado pelas versões estendidas de O Senhor dos Anéis, cuja duração gira em torno de 7 anos e meio.
.:. “Ah, você que não gosta de filme sem ação!“: 12 Homens em Fúria tá no meu top 5 e se passa inteiramente numa sala de tribunal, apenas com diálogos.
.:. “Ah, você foi despreparado, com outra expectativa!“: nope, já tinham me falado que era um filme lento.
.:. “Ah, você já foi querendo não gostar do filme!“: pelo contrário, amigos próximos tinham me falado muito bem dele.