Review | Ender’s Game – O Jogo do Exterminador

Adaptações cinematográficas de livros costumam ser mais imprevisíveis do que um pônei bêbado numa festa infantil. Pode ser que ele simplesmente deite e durma sem incomodar ninguém, ou até mesmo seja o melhor pônei de todos os tempos.

Matheus Esperon

Adaptações cinematográficas de livros costumam ser mais imprevisíveis do que um pônei bêbado numa festa infantil. Pode ser que ele simplesmente deite e durma sem incomodar ninguém, ou até mesmo seja o melhor pônei de todos os tempos. Mas são grandes as chances dele se aproveitar da confiança das crianças e causar um dano proporcionalmente maior do que o Superman em Metrópolis na luta final de O Homem de Aço.

A questão é que é preciso de muito cuidado e extrema dedicação pro resultado nas telonas fazer jus à qualidade da obra original. Peter Jackson, por exemplo, aparentemente gastou toda a sua sanidade na fantástica trilogia O Senhor dos Anéis, como os dois Hobbits já lançados evidenciam. Ender’s Game – O Jogo do Exterminador — baseado no livro homônimo que 6 em cada 10 pessoas consideram melhor que a segunda volta de Cristo —, por sua vez, falha duplamente: como adaptação e como filme em si.  :/

Sua expressão, à esquerda, durante a sessão

::: HISTÓRIA :::::::::::::::

O Jogo do Exterminador  se passa num “futuro próximo” (onde dominamos a viagem espacial, 2016 talvez? Alou, Eduardo Paes!) no qual aliens conhecidos como “buggers” atacaram a Terra e por pouco não conseguiram nos dominar. Décadas após esse evento, crianças são treinadas pelo coronel Graff (Harrison Ford) para defender o planeta de futuros ataques. Ender Wiggin (Asa Butterfield), um garoto tímido, brilhante e menos carismático que um saco de batatas, é selecionado para a Escola de Guerra e se torna a maior esperança da humanidade para acabar de vez com a ameaça alienígena.

O problema é que apenas a última batalha desse conflito —  um embate aéreo mais frenético do que Battlefield com 64 jogadores — é mostrada. Ou seja, em nenhum momento você sente que essa invasão realmente matou milhões de pessoas e foi pior do que uva-passa na comida, como é dito ao longo do filme. Diferentemente de Pacific Rim, por exemplo, onde os primeiros kaijus aparecem destruindo as cidades, aqui a catástrofe fica apenas no disse me disse.

Pra piorar, nas poucas vezes no início do longa em que o dia-a-dia da Terra aparece (a maior parte da trama se passa nos centros de treinamento fora do planeta), não vemos paranóia ou um medo por parte da população. Simplesmente não parece ser um mundo onde rolou uma merda desse tamanho, mesmo que algumas décadas já tenham passado. E é justamente por isso que fica difícil engolir que agora a humanidade militariza crianças pra enfrentar a ameaça alienígena. Além de uma explicação bunda de “crianças aprendem mais rápido que adultos”, só o coronel Graff apresenta uma obsessão por acabar com o perigo de vez. O resto da galera, até mesmo os militares, tá ali batendo ponto só.

::: ATUAÇÃO ::::::::::::::

O trabalho dos atores de Ender’s Game foi um desastre maior do a própria invasão dos buggers. O protagonista, Asa Butterfield, até se esforça, mas se carisma fosse pré-requisito pra virar adulto, teríamos o nosso Peter Pan da vida real. Pode ser que no livro o personagem também seja sério, calado e um pouco robótico, mas no filme você simplesmente não se importa com ele. A mesma coisa acontece com Harrison Ford, que parece que entrou num piloto automático sem limites e se preparou pro papel buscando “militar linha-dura” no Google. Mas ninguém supera esse cara:

ENDER'S GAME
Pense num ator ruim. Mas ruim MESMO

Maluco, esse aqui merece um parágrafo só pra ele. A atuação do Nonso Anozie, o Xaro Xhoan Daxos de Game Of Thrones, foi pior do que um holocausto nuclear. Ok, pra aliviar um pouco, o maior culpado desse trabalho risível é a pessoa que o escalou pro papel. Botaram um cara com voz fina e sotaque não identificável (meio britânico, mas ainda mais requintado), com uma vibe meio “mordomo britânico”, pra ser um instrutor bad ass a la aquele sargento do Full Metal Jacket. Sério, TODAS as cenas do Anozie no filme não funcionam, o cara tá deslocado demais, é gritante.

A construção desses personagens é tão ruim — por falha de roteiro e dos próprios atores — que todos poderiam morrer de forma brutal que você daria mais um gole no seu refrigerante e agradeceria pelo fim do filme. Ah, com exceção da Viola Davis, a única que consegue botar um pouco de emoção no seu papel e agir como um ser humano de verdade.

::: CONCLUSÃO ::::::::::::

 Conversando com um amigo que leu o livro, ficou claro que a história original foi mais cortada do que um adolescente burro em Crystal Lake. Diversos elementos imprescindíveis pros levantamos filosóficos e morais que consagraram a obra original foram pro lixo. Ender’s Game – O Jogo do Exterminador é um grande exemplo de um filme que realmente se beneficiaria de uma divisão em dois longas. Agora ler o original e torcer pra rolar um remake daqui a uns 10, 20 anos. Sim, o filme é tão fraco que te faz desejar um remake. Sinta o nível.

Este texto foi originalmente postado no Eleve Seu QI.

Ender's Game - O Jogo do Exterminador

O principal problema do filme é falta de desenvolvimento de... tudo. São quase duas horas no cinema e você simplesmente está cagando baldes pro que vai acontecer com os personagens e com o planeta. Não há envolvimento emocional nenhum com a trama, culpa de um roteiro corrido e muito mal escrito.

  • Visuais bacanas (todo mundo adora navezinha)
  • Atuações horríveis
  • Casting totalmente sem noção de Nonso Anozie como militar linha dura
  • Roteiro corrido demais com elementos mal explicados e resoluções instantâneas
Nota: 1/5