Review | Estrelas Além do Tempo

Divertido, emocionante e revoltante, o filme mostra que representatividade e oportunidade são importantes dentro e fora da telona.

Matheus Esperon

Nascer homem e branco é um privilégio enorme. Nós somos 74% dos protagonistas de Hollywood e 90% dos personagens nas propagandas. Podemos atirar numa mesquita e sermos chamados de “lobos solitários“, sem acusações de terrorismo. E, claro, podemos voltar no tempo para quando quisermos sem nenhuma preocupação.

Tais fatos (e muitos outros) podem ser a razão pela qual enxergar esse privilégio e as oportunidades a mais que recebemos simplesmente por termos um pênis e pouca melanina pode ser paradoxalmente difícil. Quando alguém está acostumado a estar no centro dos holofotes, a luz que ilumina também pode cegar.

É por isso que filmes como Estrelas Além do Tempo são tão importantes. São produções como essa que mostram de forma clara como representatividade e oportunidades são fundamentais para não cometermos os mesmos erros do passado – e avançarmos como sociedade.

A produção conta a história real das mulheres negras que atuavam como matemáticas e revisoras de cálculos (chamadas de “computadores” até) e foram fundamentais para a NASA no começo da corrida espacial nos anos 60 – especialmente o trio formado por Katherine (Taraji P. Henson), Dorothy (Octavia Spencer) e Mary (Janelle Monáe).

O grande conflito (tanto em termos narrativos quanto literais) do filme se dá na dinâmica de trabalho dessas mulheres num ambiente majoritariamente masculino e racista. Afinal, os times da agência espacial eram dominados por homens brancos e o filme se passa no começo dos anos 60, quando o movimento de direitos civis estava apenas começando.

O roteiro – que tem um ritmo excelente – é o casamento perfeito entre humor e drama, alternando entre momentos leves e pesados ao longo dos 127 minutos de duração. Além disso, ainda há trechos em que os escritores conseguem mesclar ambos na mesma cena com sutileza – por exemplo, quando vemos Katherine correndo de forma caricata de um prédio para outro durante o expediente para usar o banheiro exclusivo para negros. É engraçada a forma como ela corre, mas é absurdo o motivo por ela estar fazendo isso, entende?

Vale destacar que por mais que a história seja ótima, a grande força do filme está no trio Taraji, Octavia e Janelle. Cada uma busca seu objetivo mais individual ao longo da trama com extremo carisma, bom-humor (quando é hora) e, claro, atuações simplesmente espetaculares. Apenas Octavia Spencer foi indicada ao Oscar mas todas mereciam tal conhecimento.

O time de coadjuvantes também é ótimo, com Kevin Costner (Al Harrison, chefe de Katherine) e Jim Parsons (Paul Stafford, um colega de trabalho babaquinha, e sem parecer tanto o Sheldon) sobressaindo entre demais.

Além disso, a trilha sonora é certeira, com músicas sempre combinando com a época do filme e o tom das cenas. A direção e a fotografia não se destacam muito mas são super sólidas.

O único ponto criticável de ‘Estrelas Além do Tempo’ é um trecho do seu final, que parece ser mais romantizado que o resto da trama. Mas além de ser algo pequeno – principalmente no mar de acertos do longa -, há de se entender também que mesmo que a história seja baseada em fatos reais, ainda estamos assistindo a um filme. É compreensível que a vida real não tenha tido um momento digno de fechamento de uma produção Hollywoodiana e os roteiristas tenham feito algumas mudanças.

Estrelas Além do Tempo

Com atuações fantásticas e roteiro amarradinho, 'Estrelas Além do Tempo' não é apenas uma grande obra cinematográfica, mas também uma obra histórica e, infelizmente, ainda muito relevante hoje em dia. O filme mostra que representatividade e oportunidade são importantes dentro e fora da telona para não repetirmos os absurdos do passado.

  • Atuações excelentes de Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monáe
  • Bom elenco coadjuvante (especialmente Kevin Costner e Jim Parsons)
  • Roteiro com ótimo casamento entre drama e diversão
  • Ótimo ritmo
  • Trilha sonora bacana
  • Show de representatividade
  • Parte do final é romantizado demais
Nota: 5/5