Review | Festa da Salsicha

Será que Festa da Salsicha consegue se destacar sendo um filme de animação para adultos?

Bernardo Dabul

Festa da Salsicha veio com uma missão: tentar mudar a percepção do público geral de que animações são só para crianças. Embora a premissa (comidas que falam) pareça ter sido tirada da caixa de ideias rejeitadas da Pixar, o conteúdo do filme é exclusivamente para adultos, ao contrário de outros como Carros, Toy Story e afins. Mas a pergunta principal é: o filme é bom? Sim e não. Deixe-me explicar.

A história começa mostrando todos os alimentos em um supermercado se unindo para cantar uma canção. Esta conta a história de como os seres humanos são deuses e os alimentos escolhidos por eles são levados para o paraíso. Se você já viu o trailer desse filme (ou tem o mínimo de bom senso), sabe que não é bem assim que a banda toca.

Nesse mesmo dia, um humano retorna com um produto que havia comprado por engano, pedindo reembolso. Este produto, um pote de mostarda com mel (quem devolve mostarda com mel? É o melhor tipo de mostarda!), volta contando dos horrores que viu durante seu tempo fora. Os demais alimentos o taxam como louco, mas uma salsicha chamada Frank fica com as palavras da mostarda na cabeça e segue em sua aventura para descobrir A Verdade™.

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Você disse… A VERDADE™?

O maior problema em ‘Festa da Salsicha’ é que muitas de suas cenas são completamente desconectadas umas das outras. Embora a história tenha início, meio e fim, muitas transições consistem em fade-outs simples e trocas de perspectiva para outros personagens. Estas transições são tão frequentes e as mudanças de cenário tão grandes que não permitem que nenhuma das linhas narrativas tenha um bom ritmo, fazendo o filme parecer arrastado.

‘Festa da Salsicha’ também não possui um vilão bem estabelecido. Embora dois personagens possam ser considerados “antagonistas”, a presença deles é tão supérflua que em vários momentos até esqueci de suas existências na trama, somente me lembrando quando ressurgiam subitamente.

Você pode estar pensando agora “mas Dabul, eu quero ver esse filme pelas piadas, não por uma história rica e bem desenvolvida”. Nesse caso, caro leitor, você até que está bem servido. O filme faz uma mistura de piadas de “baixo calão” com humor mais refinado, usando várias situações da atualidade como base. Existe, por exemplo, um bagel judeu e um pão árabe islâmico que se perderam de suas respectivas prateleiras. Eles inicialmente se odeiam, mas conforme o decorrer do filme, a relação vai mudando de forma cômica. Além disso existem várias (VÁRIAS) cenas simplesmente absurdas que vêm tão do nada que são difíceis de não rir.

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Já a dublagem, com roteiro adaptado pelo pessoal do Porta dos Fundos, é muito boa. São pouquíssimos momentos que se sente a perda de alguma piada na troca de línguas. Além disso, o elenco em si também dá um show, especialmente Guilherme Briggs (como sempre) interpretando Frank. Entrei pensando que iria assistir ao filme novamente e inglês, mas saí satisfeito com a versão em português.

Quanto à animação em si, ela não é nenhuma segunda vinda de Jesus Cristo, mas se encaixa bem no contexto do filme. Todas as comidas são antropomorfizadas de forma inteligente e as animações são em geral exageradas e remetendo a filmes da Disney, o que causa uma certa estranheza cômica levando em consideração o tipo de humor em questão.

Divulgação

Festa da Salsicha

‘Festa da Salsicha’ é um filme diferente que tenta quebrar conceitos estabelecidos de que animações são só para crianças. A dublagem é bem feita e as piadas funcionam bem. Infelizmente uma montagem infeliz e a ausência de antagonistas relevantes impede que consiga ser um sucesso estrondoso.

  • Roteiro adaptado pelo Porta dos Fundos
  • Dublagem (especialmente o Guilherme Briggs)
  • Humor surreal
  • Antagonistas irrelevantes
  • Cenas desconexas
Nota: 3/5