Review | Fragmentado

‘Fragmentado’ é bastante sólido e vale o confere, por mais que falte um pouquinho de sal na receita do suspense.

Bernardo Gadelha

Se você não é muito familiar com as obras de Shyamalan, apenas duas palavras são suficientes para se ter uma noção de qual é seu estilo de história preferido: plot twists. Isso mesmo, ‘O Sexto Sentido’ e ‘Corpo Fechado’ não foram apenas coincidências; o diretor-escritor de Fragmentado gosta de brincar com a cabeça de seus espectadores, mas o faz de uma maneira um pouco diferente em seu novo filme.

O suspense conta a história de Kevin (James McAvoy), um homem que divide seu corpo com vinte e três personalidades distintas e é capaz de alterar sua composição química de acordo com qual de suas faces está no comando. Inicialmente, conhecemos Kevin através de uma de suas personalidades – Dennis, um homem obcecado por limpeza – que sequestra três jovens garotas em um estacionamento com um objetivo a princípio misterioso.

Claire (Haley Lu Richardson), Marcia (Jessica Sula) e Casey (Anya Taylor-Joy) são trancafiadas em o que parece ser um porão de uma casa, onde recebem constantes visitas das diversas personalidades de Kevin, como Patricia – uma governanta inglesa – e Hedwig – um menino brincalhão de nove anos que aparenta ser a única identidade amigável o suficiente para conversar com as prisioneiras. Sem saberem o motivo de estarem confinadas ali, as três reféns precisam encontrar alguma maneira de escapar dos vinte e três lados de seu carcereiro (é gente pra caramba), mas descobrem que isso talvez não seja tão fácil quando Hedwig (não, não a coruja do Harry Potter – é o menino mesmo) revela que a vigésima quarta personalidade – “A Fera” – está por vir (e ela está com fome).  

Durante o decorrer da história, Barry – uma personalidade de Kevin que incorporou um estilista – se consulta com a psiquiatra Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley) – uma especialista em transtorno de personalidades múltiplas que o acompanha há anos. No entanto, as identidades de Kevin estão se comportando de maneira estranha, e logo a médica decide agir quando percebe que há algo de errado com Kevin. 

O filme conta com uma ótima direção por Shyamalan. As cenas são muito bem elaboradas, e, somadas à maneira como o diretor entrelaça tantas identidades em um só personagem, tornam o filme fluido e fácil de acompanhar. A trama é bem desenvolvida – sem deixar buracos inexplicáveis e nem dúvidas sem resposta – e se mantém interessante até o final, apesar de se mostrar um pouco lenta em algumas cenas compostas por muitos diálogos que poderiam ter sido encurtados ou até mesmo evitados. A Dra. Fletcher – além de representar uma ótima atuação de Betty Buckley – é essencial para a compreensão de toda a trama, já que, através de suas consultas com Kevin, ela ajuda o espectador a encaixar as peças da história por trás do homem de vinte e três faces.

Interpretar um personagem em nível Hollywoodiano já é uma tarefa difícil. Agora, imagine o trabalho que James McAvoy deve ter tido para fazer isso no mínimo cinco vezes em um mesmo filme (já que nem todas as personalidades são trabalhadas tão profundamente quanto outras). Sua performance explora muito bem os pequenos detalhes e variações entre cada uma das facetas de Kevin (inclusive seu guarda-roupa bastante variado), se mostrando muito convincente e digna de aplausos.

É mais do que justo reservar um espaço para falar de Casey – a deslocada da escola que acaba por se mostrar a única capaz de se tornar a líder do grupo. Enquanto Claire e Marcia se submetem ao medo, Casey planeja meticulosamente suas jogadas e aproveita as poucas oportunidades que aparecem para avançar com seu plano de fuga, mostrando a Kevin que ela não não se deixará ser presa tão facilmente. A atuação de Anya Taylor-Joy é de altíssimo nível, mostrando sua habilidade em navegar entre diversas faces de sua personagem, sendo capaz manter uma atitude fria e calculista nos momentos necessários, e, ao mesmo tempo, se entregar ao desespero quando o negócio fica feio (o que acontece bastante, diga-se de passagem).

Shyalaman trabalha bem a perspectiva e o clima da obra, e, em termos técnicos, o filme chega bem perto de um gabarito. A mixagem de som e a trilha sonora encaixam muito bem com a atmosfera tensa do confinamento, e a fotografia é feita de uma forma a sempre deixar o espectador intrigado com o que está por vir – mesmo que, na maioria das vezes, não seja grande surpresa. No entanto, o filme falha em uma de suas principais propostas: o fator “medo” é quase que esquecido, visto que não se tem quase nenhum jumpscare (o que não deixa de ser bom pra galera com coração fraco) e a iluminação parece generosa demais para um filme com uma premissa a princípio assustadora. Por esses motivos, a obra pode deixar uma pequena sensação de insatisfação entre os fãs de thrillers.

Como dito no início, o filme tem uma fórmula um pouco diferente dos plot twists clássicos de Shyamalan; o diretor espalha as reviravoltas mais uniformemente ao longo do filme em vez de as concentrá-las em um grande final (estou olhando pra você, ‘O Sexto Sentido’). No entanto isso não invalida o fato de as cenas finais são extremamente bem pensadas e bastante satisfatórias, sendo um dos pontos mais altos da história – com direito a uma surpresa aos fãs das obras passadas do diretor. Com essa obra, Shyamalan dá a volta por cima e deixa claro que ainda há um pouco de magia do cinema sobrando em suas mãos.

‘Fragmentado’ estreia no Brasil dia 23 de Março de 2017.

Fragmentado

O que o Bernardo tá falando aí em cima? Ele só pode estar maluco. O filme é terrível, um festival de clichês. Além disso, é incrivelmente arrastado e o plot twist é RIDÍCULO. Essa historinha de múltiplas personalidades é tosca demais!

  • NADA
  • Personagens ridículos
  • Plot twist fraco
  • Ritmo lentíssimo
  • Direção amadora
Nota: 1/5

Fragmentado

Shyamalan retorna aos cinemas com uma obra convincente que demonstra sua capacidade de direção e construção de roteiros. James McAvoy e Anya Taylor-Joy fazem atuações excelentes e comandam o filme com seus personagens.

  • Excelentes atuações de James McAvoy, Anya Taylor-Joy e Betty Buckley.
  • Direção competente
  • Trama interessante e bem desenvolvida
  • Final espetacular
  • O filme se atrapalha nos elementos de suspense
  • Pode ser um pouco lento e previsível em algumas partes
Nota: 4/5