Review | John Wick – Um Novo Dia para Matar

Por mais que não supere o original, o retorno de John Wick não deixa de ser uma aula de como fazer uma sequência – e um excelente filme de ação.

Matheus Esperon

Lembro de sentar no cinema para assistir ao primeiro ‘John Wick’ (‘De Volta ao Jogo’ aqui no Brasil, um título bem aceitável diga-se de passagem) em 2014 com um total de zero expectativas, tal como chegar num restaurante e perguntar “posso almoçar de graça?”.

Para a minha surpresa – e acredito que da grande maioria que conferiu o longa na época -, a experiência foi simplesmente incrível. Mantendo-me à analogia ali de cima, é como se o gerente do restaurante não só respondesse “sim” mas me trouxesse um de cada item do cardápio e ainda me fizesse um lap dance durante a refeição ao som do tema de ‘Space Jam’.

Como tudo que faz sucesso em Hollywood ganha uma continuação (menos ‘Distrito 9’ e ‘Dredd’ porque a vida é uma sacanagem), o diretor Chad Stahelski logo recebeu sinal verde para desenvolver John Wick – Um Novo Dia para Matar.

Para o bem de todos e felicidade geral da Nação, a sequência é excelente. Inferior ao original, mas ainda muito boa.

Após tentar se aposentar e ver seu cãozinho assassinado por Theon Greyjoy, John Wick (Keanu Reeves) agora precisa novamente voltar ao jogo™ para pagar uma antiga dívida (não em termos de grana) com um italiano babaca. Coisas acontecem e Wick subitamente se vê na mira de dezenas de caçadores de recompensa.

É animador escrever que um dos maiores destaques do primeiro filme se faz presente na sequência: A fantástica direção – especialmente nas cenas de ação. O diretor e ex-dublê Chad Stahelski mostra que entende mesmo do gênero com câmeras fixas e planos longos, sem picotar os momentos de adrenalina como parece ter infelizmente virado regra em Hollywood. Em outras palavras: É possível entender completamente o que se passa na tela.

E isso é importantíssimo porque as coreografias super realistas de luta e os mais loucos stunts (que te deixam pensando “como o Keanu Reeves e os dublês não se mataram nesse filme?!”) merecem ser apreciados no seu total esplendor. Até simples movimentos dos atores com armas em mãos (que eles estão sempre recarregando!) tendem a ser belos e minuciosamente pensados.

Além disso, a trilha sonora se encaixa perfeitamente em todas as cenas e a fotografia da produção mantém o belo trabalho do original. Os belíssimos takes por um momento te fazem esquecer que se trata, no fim de tudo, de um filme de porradaria e tiroteio.

Keanu Reeves brilha mais uma vez com uma atuação propositalmente mais “cansada” devido ao contexto do personagem, com destaque ao seu empenho físico nas cenas de ação (ele dispensou dublês na sua grande maioria e leva tudo sem deixar nada a desejar). Ian McShane – o dono do hotel dos assassinos – e Lance Reddick – o recepcionista do local – retornam para roubar todas as cenas nas quais aparecem.

O problema é que os outros personagens e atores são insossos e até totalmente dispensáveis mesmo. O grande vilão italiano interpretado por Riccardo Scamarcio quase não tem profundidade, assim como sua escudeira muda vivida por Ruby Rose (que aparentemente está em todos os novos filmes de ação).

Common e Laurence Fishburne também estão no elenco. O primeiro até tem uma boa (e engraçada) cena no metrô mas no geral serve apenas para atrasar a história – com direito a uma sequência de luta arrastada e que se estende muito além da conta. Já o segundo é tão dispensável e inútil na história que fica a impressão de que só foi chamado para repetir o duo de Matrix com Keanu – e fazer uma piadinha sobre isso.

Falando em história, ‘John Wick – Um Novo Dia para Matar’ começa com o pé no acelerador (literalmente, até) mas rapidamente freia, se arrastando por uma boa meia hora até soltar o freio de mão (para logo depois voltar a parar). Por mais que o filme tenha ótimas sequências, o roteiro dessa vez não soube dosar tão bem os momentos de adrenalina com as partes mais calmas que movem a trama.

O lado bom é que pelo menos há uma grande expansão do submundo de assassinos – outro destaque do original. Entre muitas coisas, o longa mostra como os contratos de assassinato são feitos e de que forma os caçadores de recompensas os recebem.  Quem, assim como eu, ficou fissurado naquela realidade secreta apresentada em 2014 vai ficar bem satisfeito.

Uma última crítica, porém, é o tom da produção. Piadas são sempre bem vindas mas algumas delas destoam completamente do estilo do filme. Claramente houve uma decisão criativa de injetar mais humor no roteiro. O problema é que algumas situações se aproximaram demais do nível galhofa.

John Wick - Um Novo Dia para Matar

Por mais que não supere o original, o filme não deixa de ser uma aula de como fazer uma sequência. Praticamente tudo de bom do original não foi apenas preservado como expandido, resultando no que provavelmente será um dos melhores filmes de ação de 2017.

  • Direção perfeitinha para um filme de ação
  • Fotografia e trilha sonora certeiras
  • Cenas e stunts que te fazem se preocupar se os atores ainda estão vivos
  • Keanu Reeves sensacional mais uma vez
  • Ian McShane e Lance Reddick
  • Trama arrastada
  • Coadjuvantes insossos
  • Humor um pouco fora de tom
Nota: 4/5