Review | A Lei da Noite

O projeto pessoal de Ben Affleck mostra que dar total controle criativo para alguém pode ser uma péssima decisão.

Matheus Esperon

Dar total controle criativo para alguém sobre um filme pode ser uma ótima ideia, vide ‘Mad Max: Estrada da Fúria’ de George Miller ou ‘La La Land’ de Damien Chazelle. Mas isso também pode ser um desastre, como ‘Batman vs Superman’ de Zack Snyder ou ‘A Minha Vida’ de Matheus Esperon.

A Lei da Noite, projeto pessoal de Ben Affleck – e estrelado, dirigido, roteirizado e produzido por ele (numa vibe bem ‘The Room’) -, infelizmente cai na segunda categoria. E explica as últimas mudanças no universo DC dos cinemas.

É, Ben, não foi dessa vez…

Ben Affleck é Joe Coughlin, um criminoso de Boston que se recusa a entrar no mundo dos gângsters, disposto a viver sem regras durante a Lei Seca norte americana (1920 à 1933). Ele leva isso a sério ao se envolver com a amante do chefão da máfia Albert White, o que obviamente faz com que ela seja morta e Joe, preso. O fora da lei então jura vingança contra o mafioso.

O principal problema de ‘A Lei da Noite’ é que o seu roteiro é completamente perdido, sem saber exatamente para onde ir e no que focar. O protagonista se junta à família rival de White para buscar retaliação, viajando até a Flórida para tomar seus negócios. Em poucos minutos, porém, Joe começa a viver como rei no sudeste americano, inicia um namorico com outra mulher  chamada Graciela (Zoë Saldaña) e abandona completamente a sua vingança.

Atente: Não é como se o personagem evoluísse ou algo do tipo. Essa virada é tão mal construída que parece que ele literalmente esqueceu o porquê de estar na Flória em primeiro lugar.

Além disso, os diálogos são super bregas e novos elementos aparecem e somem na história de forma completamente largada. Por exemplo, Joe literalmente abre a porta de um bar e, surpresa, é a Ku Klux Klan! Ela está no filme agora! O movimento é descrito como uma ameaça complicadíssima… Até o filme decidir 15 minutos depois que já deu e resolver tudo de forma super simples em praticamente uma cena.

E todo esse desleixo é acentuado pela péssima edição. Fica claro que cenas pequenas – mas importantes para conectar as passagens do filme – foram cortadas na mesa do editor. Há um momento em que o longa freia e corta bruscamente para mostrar Joe, seu braço direito, Graciela e mais alguns personagens viajando de barco rio acima na Flórida. Eles chegam em um bar (foto acima), bebem, dançam, Joe e Graciela têm sua primeira vez e… O filme vai para o pessoal de volta na cidade no dia seguinte.

Por que eles foram pra lá? De quem era esse bar?  Quem os convidou? De quem era o barco? O que Joe foi fazer lá? Essas perguntas poderiam ser rapidamente respondidas com uma ceninha antes do pessoal indo para o local.

Outro exemplo ainda pior do trabalho da edição é perto da conclusão do filme (que tem uns quatro finais em sequência, tipo uma versão péssima de ‘O Retorno do Rei’), quando Joe e seu braço direito estão indo de carro para um determinado lugar. Eles partem de dia, duas cenas depois (naquela clássica montagem de “pessoas viajando”) está anoitecendo e quando eles chegam ao seu destino… Está de dia novamente.

De duas, uma: Os personagens demoraram mais de um dia para chegar (mas não há cena nenhuma mostrando uma parada para dormir ou sequer malas para uma troca de roupa. Inclusive, eles nunca aparecem dirigindo à noite mesmo.) ou alguém fez besteira na hora de gravar/montar essa sequência. Seja o que for, é um erro tosco.

Falando sobre as poucas coisas boas do filme: Os figurinos e a direção de arte são bacanas, as atuações são ok e a direção em si de Ben Affleck consegue ser competente. E é basicamente isso aí. Nada realmente se destaca.

A qualidade de ‘A Lei da Noite’ – especialmente seu prejuízo de 75 milhões de dólares à Warner – explica bem o porquê de Ben Affleck não ser mais o diretor do filme solo do Batman. Por mais que tenha sido divulgado como uma decisão que partiu de Ben, fica difícil não imaginar que o estúdio também teve voz ativa nessa mudança.

De um lado, após o fracasso de seu projeto pessoal, Ben Affleck percebeu que fazer basicamente tudo num filme é complicado demais, preferindo não ter tanta responsabilidade num projeto arriscado como ‘The Batman’. Do outro, a Warner provavelmente perdeu um pouco da confiança no diretor.

E depois de assistir a ‘A Lei da Noite’, a decisão parece correta mesmo.

‘A Lei da Noite’ estreia dia 23 de fevereiro de 2017.

A Lei da Noite

O projeto pessoal de Ben Affleck mostra que dar total controle criativo para alguém pode ser uma péssima decisão. Com um roteiro completamente perdido, diálogos bregas e edição desleixada, 'A Lei da Noite' infelizmente justifica a saída do diretor do filme solo do Batman.

  • Figurino e direção de arte bonitos
  • Direção e atuações ok
  • Roteiro completamente perdido
  • Diálogos bregas
  • Edição terrível
Nota: 1/5