Review | Mais Forte que o Mundo

O filme sobre José Aldo também é conhecido como “SLOOOW MOTIOOOON” ou “Todo Mundo é Meio Maluco”.

Matheus Esperon

Depois de sair do oftalmologista e perceber que estava ao lado de um cinema (graças à minha visão reparada com a tecnologia chamada “óculos”, olha só), decidi ver o que estava pra começar naquela hora. A única opção dentro de uma janela tolerável era Mais Forte que o Mundo, que não me animou muito — por mais que o trailer tivesse sido minimamente interessante.

“A gente não tá sempre criticando a indústria de cinema brasileira e dizendo que ela precisa melhorar?”, refleti. “Mas a gente também não assiste aos filmes em cartaz. Quer saber, vou fazer a minha parte”. Comprei o ingresso, garanti a pipoquinha (dizendo “pra você também” quando o caixa me desejou uma boa sessão, argh) e entrei com a esperança de assistir a um ‘Creed’ brasileiro.

Infelizmente minha expectativa foi nocauteada por um filme extremamente confuso e ocasionalmente sem sentido. :(

etcha filme ruim

‘Mais Forte que o Mundo’ é o filme sobre a vida do lutador do UFC José Aldo — é curioso que as peças de divulgação, incluindo o trailer, foram vinculadas com ‘A História de José Aldo’ logo após o título mas isso não aparece no filme, então… sei lá se isso é um subtítulo real —, mostrando sua ascensão no mundo da luta, desde a vida humilde em Manaus até a fama alcançada no Rio de Janeiro e no mundo.

cleo pires sozinha 2Um dos grandes problemas do filme (talvez o maior) fica evidente de cara e continua ao longo da produção: é bem difícil sentir empatia por José Aldo pelo fato de que ele não é uma boa pessoa (pelo menos até pouco tempo atrás no período no qual a trama se passa). E isso é especialmente um problema quando ele é o protagonista numa história de “redenção”.

Por mais que José Loreto seja super carismático — e atue muito bem —, as ações reais do personagem minam esse magnetismo do ator. No começo da história, por exemplo, um dos passatempos de José e seus amigos é passar de carro ao lado de pedestres e acertá-los com tábuas de madeira. Sinta o nível.

Além disso, Aldo é extremamente violento e explosivo, chegando a descontar sua raiva em cima de seu interesse amoroso ainda no primeiro ato. Pensei que era algo do “jovem” personagem, cuja personalidade imbeciloide mudaria ao longo da trama (afinal, é uma história de superação e redenção), mas não é o que acontece.

O lutador continua repetindo seu comportamento, principalmente na truculência e machismo para com seu novo par, interpretado por Cléo Pires, já no ato final do filme. Novamente, fica difícil simpatizar com o personagem quando ele é um idiota…

E vale notar que o longa conta com dois relacionamentos abusivos (e um deles fisicamente violento) mas, no fim, as vítimas continuam com seus parceiros — eu pensava no cinema “Cléo Pires, amiga sai dessa relação maluca! Você consegue coisa muito melhor (por mais que ela tenha uma crise de ciúmes que vem absolutamente sem razão num certo momento)”.

treta

O roteiro do filme também é incrivelmente problemático e sem sentido, com algumas decisões entranhas no que tangem visões e sonhos alucinantes que José Aldo tem mesmo acordado e sóbrio.

Esses delírios são majoritariamente focados na confusa relação com seu pai — o texto constrói uma noção clara de que o lutador o odeia para depois jogar tudo pela janela sem explicação quando chega a hora de resolver o conflito entre os dois — e sua rivalidade com um bigodudo cuja personalidade lembra uma versão porradeira do Coringa.

Os dois verdadeiramente se odeiam também sem muito motivo aparente. E é um ódio fervente a ponto de fazer Aldo se desconcentrar no nível do Batman quando Superman fala “Martha” — o que é representado de forma super nada a ver pela direção ao mostrar o inimigo ocasionalmente desfocado e fora de quadro, mesmo nas conversas mais banais entre os dois.

Há um momento logo no começo em que José dá uma daquelas madeiras automobilísticas no seu rival, acertando-o no rosto. O carro capota mais à frente e o bigodudo, com o rosto ensanguentado, o alcança e ambos começam a lutar, com o protagonista saindo vencedor.

O filme então corta para a polícia chegando com a real vítima e seu rosto ensanguentado, um outro personagem menor da história, dando a entender que cego de raiva e grogue pelo acidente, Aldo imaginou aquela situação. Mas então, algumas cenas depois, o rival aparece com uma cicatriz na bochecha, indicando que ele sim é que foi o alvo. Mas que diabos?!

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A direção parece ser seguidora da escola Zack Snyder porque a câmera lenta rola solta, mesmo nos momentos mais banais como quando começa a chover após o acidente de carro mencionado ali em cima.

E além da decisão de mostrar o rival desfocado, também rolam outras escolhas que não funcionam, como várias câmeras uma ao lado da outra para girar ao redor do octógono (a ideia é boa e poderia rolar um efeito bullet time bem legal mas a técnica só é utilizada para acelerar o movimento de câmera e falhando em manter os lutadores enquadrados direito).

O filme também nunca explica o porquê da escolha de José Aldo pelo MMA e em certos momentos o tom da trama entra em conflito — o personagem chega ao Rio super sorridente e animado mesmo tendo termos acabado de ver a vida dele ir por ladeira abaixo em Manaus, por exemplo.

Enfim, são muitos os momentos sem sentido no roteiro e de péssimas escolhas da direção. A montagem só ajuda a deixar tudo ainda mais confuso (principalmente numa troca de ordem de eventos no fim), motivações nunca são explicadas e alguns personagem poderiam ser cortados por importarem tão pouco pra trama.

Mais Forte que o Mundo

O filme tinha potencial para ser o 'Creed' brasileiro mas não conseguiu causar empatia pelo protagonista — algumas coisas poderiam ter sido omitidas em prol do entretenimento. A direção caótica e o roteiro confuso acabaram desperdiçando o carisma e as boas atuações da dupla principal. No fim, a redenção de José Aldo chega sem você sentir que ele evoluiu ao longo da história.

  • Boas atuações de José Loreto e Cléo Pires
  • Algumas boas piadas vindas principalmente de Rafinha Bastos
  • Direção caótica e com péssimas escolhas
  • Câmera lenta totalmente gratuita
  • Roteiro confuso e sem sentido
  • Montagem maluca
Nota: 1/5