Review | Ninfomaníaca – Volume 1

Nunca vi pornografia em grupo. Por mais que algumas mulheres achem que essa é uma prática comum entre os homens, salsichas demais numa panela fazem a água transbordar. A água, no caso, é a amizade. Ou seria a colher de pau? Nem eu sei onde eu quis chegar com essa comparação.

Matheus Esperon

Nunca vi pornografia em grupo. Por mais que algumas mulheres achem que essa é uma prática comum entre os homens, salsichas demais numa panela fazem a água transbordar. A água, no caso, é a amizade. Ou seria a colher de pau? Nem eu sei onde eu quis chegar com essa comparação.

O meu ponto é que pra tudo tem uma primeira vez e eu tinha certeza que Ninfomaníaca – Volume 1 proporcionaria tal experiência de pornô grupal, pelo retrospecto do diretor Lars von Trier e principalmente pela forma como o filme vem sendo vendido. Acabou que a minha primeira vez foi adiada porque o longa é muito mais leve — e incrivelmente melhor — do que eu esperava.  :)

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::: HISTÓRIA :::::::::::::::

Quase como uma arlinda mulher, Joe é encontrada toda remelenta e estronchada num beco por um homem mais velho chamado Seligman (o dr. Selvig de Thor /Os Avengeiros, totalmente recuperado do controle mental do Loki), que a leva pra casa para que ela possa descansar e se recuperar. Ao despertar, Joe — uma ninfomaníaca assumida que se considera um ser humano horrível — começa a contar passagens da sua vida, em forma de flashbacks divididos em capítulos, para Seligman.

Para um filme que está sendo vendido basicamente apenas como uma epopéia sobre sexo e putaria, Ninfomaníaca tem muito mais coração do que o marketing do longa vem divulgando. Logo no início dos relatos de Joe, é possível perceber que há uma história interessantíssima se desenrolando na tela. E surpreendentemente, uma história que vai muito além de sexo e pode ser encarada como uma grande metáfora para diversas áreas da vida moderna, seja a de Rocko ou a sua. ;)

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E todo o modelo de flashbacks — que não seguem uma ordem necessariamente cronológica, mas sim, ascendente — é simplesmente um espetáculo. A disposição das histórias de Joe é montada de uma forma que você quer sempre saber a próxima, o que ela pode fazer que seja “pior” do que acabou de acontecer. Isso tudo enquanto rola um certo embate entre a moça e Seligman, que tenta convencê-la de que ela não é uma pessoa tão ruim assim, aumentando ainda mais a vontade de continuar assistindo ao filme: quem conseguirá convencer o outro?

Além disso tudo, a direção é espetacular. Literalmente nos primeiros 3 minutos do filme, você já saca que vai embarcar numa viagem totalmente diferente. A direção ousada de Lars von Trier já começa a todo vapor, ao som de uma trilha sonora mais pesada que uma pirâmide humana de elefantes com problemas de sobrepeso. Tomadas engenhosamente construídas, um enquadramento super bem bolado e takes que fogem do padrão dignificam um trabalho que, da forma mais positiva possível, não pode ser classificado como normal.

Aliás, falando em fugir do padrão, finalmente um filme voltou a brincar com a edição! Ninfomaníaca acelera, volta, acelera de novo, divide a tela, faz cortes bruscos pras analogias e devaneios dos personagens, joga tipografia na sua cara, e por aí vai. Numa fase tão “certinha” das obras de Hollywood, é excelente ver um filme jogar o caretismo pela janela. :D

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::: ATUAÇÃO E SEXO :::::::::

Além do previamente citado marketing do filme, ainda teve toda a polêmica levantada por Shia LaBeouf ao afirmar que os atores fizeram sexo de verdade. Ou seja, 13 em cada 10 pessoas que foram ao cinema assistir a Ninfomaníaca esperavam ver um bacanal mais hardcore que uma festa na casa do Charlie Sheen.

Depois de conferir o longa, posso dizer duas coisas: alguns atores CERTAMENTE entraram em ação de verdade, e o filme foi muito mais suave do que eu esperava. Tudo bem que as versões disponíveis no Brasil devem ser as com cortes (disseram que no início há um aviso sobre qual versão você vai ver, mas por aqui ficou apenas uma tela preta excessivamente longa antes de tudo. Aposto que a distribuidora nacional tirou o tal discernimento pra evitar #mimimis sobre a edição, o que é zoadíssimo), mas ainda assim, a atmosfera do filme em si é muito mais tranquila do que foi vendido por aí.

Sobre o sexo (pode admitir, você veio aqui só pra isso): ele realmente é MUITO explícito. De cabeça aqui, acho que é a barra mais pesada que eu já vi num filme (algumas cenas são realmente dignas de vídeo pornô). Mas cá está uma coisa engraçada e até mesmo mágica: diferentemente do que eu senti em Azul é a Cor Mais Quente, nenhuma das cenas aqui são gratuitas. Pelo contrário: todas são muito bem inseridas (sem trocadilho), desde o timing até o sexo em si, sempre mutável de acordo com o momento da personagem. Também não há exposição desnecessária dos atores, tanto em termos do que aparece em tela quanto a duração das cenas. Dá pra sentir que Lars von Trier respeitou e preservou o pessoal o máximo possível. :)

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Agora, em termos de atuação mesmo, em primeiro lugar, uma salva de palmas pra galera que topou participar desse filme. Sério mesmo, tem que ter coragem e muita confiança em si e no diretor. Em segundo lugar, mais uma salva de palmas a todos os envolvidos pela qualidade geral do trabalho. Desde a protagonista nos seus 50 anos, passando pelas suas versões criança e adolescente, até o pessoal que aparece apenas em algumas cenas, dá pra sentir a entrega da galera. Todos que aparecem em cena mandaram muitíssimo bem.

Mas, assim como em O Lobo de Wall Street, tem dois que se destacaram dos demais: Uma Thurman e Shia LaBeouf. A eterna Beatrix Kiddo faz apenas uma rápida participação como sra. H, mas bota o filme no bolso e vai embora. Não vou relevar absolutamente nada sobre a tal cena pra que você tenha também se surpreenda e chore de rir tanto quanto eu. ;)

Shia LaBeouf por sua vez prova que é o ator mais injustiçado de Hollywood. O cara é bom! Sim, calma, larga essa pedra aí, eu vi as sequências de Transformers e também sofri queimaduras de 3º grau assistindo a Indiana Jones 4. Mas botar toda a culpa desses fiascos no cara é demais! Não dá pra dizer que a atuação dele foi o motivo pelo qual esses filmes fracassaram. A culpa é dos roteiros mais loucos que urso pegando táxi e da direção incompetente de cada um deles. Ok, talvez dizer que ele é bom seja demais também, mas ele certamente não é ruim. E em Ninfomaníaca, LaBeouf comprova isso mais uma vez.

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::: CONCLUSÃO ::::::::::::

Acho que a melhor forma de resumir Ninfomaníaca – Volume 1 é com uma comparação, dessa vez, não tão pirada: enquanto Azul é a Cor Mais Quente passa a sensação de ser uma história de 3h pra justificar sexo lésbico, Ninfomaníaca consiste em 2h de sexo pra contar uma história interessantíssima e super relevante.

Minha recomendação final é: leve seus pais ao cinema com você. Eles vão adorar! ;D

Este texto foi originalmente postado no JUDÃO.

Ninfomaníaca – Volume 1

Não se deixe enganar pelo marketing do filme: a obra de Lars von Trier mais ladra do que morde, em termos de impacto e choque. Ou seja: assim como na vida real, por trás (opa) de todo o erotismo e sexualidade há uma história que vale a pena ser contada.

  • Direção fantástica
  • Edição super criativa
  • Sexo muito bem utilizado sem exageros
  • Excelentes atuações
  • Roteiro bem escrito que te fisga desde a primeira cena
  • Não tem final (é o volume 1 né)
Nota: 5/5