Review | O Lobo de Wall Street

Ir ao cinema sem saber nada sobre o filme é como brincar de gato mia (tipo um cabra-cega num quarto escuro, seu sem infância). Pode ser que no meio da escuridão você consiga agarrar aquela sua amiga gostosinha, mas são grandes as chances de você sem querer acabar passando a mão no pênis do seu amigo Cláudio e fazer com que uma amizade de cinco anos nunca mais seja a mesma.

Matheus Esperon

Ir ao cinema sem saber nada sobre o filme é como brincar de gato mia (tipo um cabra-cega num quarto escuro, seu sem infância). Pode ser que no meio da escuridão você consiga levar tudo na boa, mas são grandes as chances de você sem querer acabar passando a mão no pênis do seu amigo Cláudio e fazer com que uma amizade de cinco anos nunca mais seja a mesma.

Foi exatamente assim que fui assistir a O Lobo de Wall Street: sem falar com o Cláudio há nove anos e não fazendo idéia da história do filme. Pra mim, havia altas chances do Leonardo DiCaprio ser um lobisomem solto na bolsa de valores. Acabou que, mesmo sem ter nenhum licantropo, o filme não deixou a fantasia de lado: são três frenéticas horas de pura anarquia baseadas na tal vida real de Jordan Belfort.

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O Lobo de Wall Street segue a trajetória do previamente citado Jordan Belfort (Leonardo DiCpario), desde o seu primeiro dia no distrito financeiro de NY, em 1987, até sua explosiva ascensão no início dos anos 90 com a fraudulenta Stratton Oakmont. Arremesso de anões, naufrágios, FBI, cocaína, crack e outras drogas que eu nem sabia que existiam são os detalhes dessa história mais louca que o Tom Bombadil.

De cara dá pra dizer que O Lobo já concorre a filme mais anárquico e frenético de 2014. Num paralelo super interessante, parece que Martin Scorsese e, por consequência, a direção do longa estavam sob influência das mesmas substâncias utilizadas pelo protagonista. Cortes brutos e rápidos, com diálogos afiados e acelerados são apenas exemplos do trabalho quase que surreal do diretor.

Falando em surreal, a trama do filme é algo que não fica no “quase”. Por mais que o filme seja baseado no livro homônimo escrito pelo próprio Belfort, não é loucura imaginar que alguém com um ego tão grande possa ter enaltecido e até mesmo inventado alguns episódios da sua vida. Muitos trechos da história ultrapassam os limites e, por mais que você saiba que é uma história verídica, fica difícil demais de acreditar. Acho que deve ser mesmo como Danny Porush, o sócio real de Jordan, definiu numa entrevista em dezembro: “o livro é um parente distante da verdade, e o filme é um parente distante do livro.

Uma coisa que incomoda bastante é o excesso de Tarantinoing (quando dois ou mais personagens conversam sobre algo irrelevante pra trama do filme, técnica popularizada por Quentin Tarantino, daí o nome). Esse recurso de roteiro é como democracia pra FIFA: é bom apenas em pequenas doses. Quando feito com maestria, ajuda a aumentar a imersão do expectador na obra — uma “conversa fiada” rápida durante o filme remete ao dia-a-dia e tal. Agora, no caso de O Lobo de Wall Street, a técnica se estende tanto que quando é utilizada chega a incomodar e se tornar perceptível. Pense no Peter Griffin fazendo o “TSSSS…AHHHH…” segurando a perna quando se machuca. É exatamente isso.

Film-Wolf of Wall Street

Se a Disney conseguiu fazer com que todos os personagens de Frozen fossem memoráveis, Scorsese por sua vez entregou uma obra na qual todos os atores brilham com a força espetacular de um celular sacado num cinema escuro. Matthew McConaughey, Jon Favreau, Jean Dujardin e tantos outros, mesmo com participações curtas, fazem um trabalho notável.

No âmbito dos personagens mais recorrentes, Kyle Chandler (você pode não reconhecê-lo de nome, mas com certeza sabe quem é) prova que ser um typecast não é necessariamente ruim e entrega talvez um dos melhores homens da lei da sua carreira. Taí um cara que é muito bom mas sempre acaba com papéis secundários, interpretando algum policial, agente do FBI ou da CIA. Vamos lá, Hollywood! Dê uma chance maior pro cara!  ;D

Aliás, Margot Robbie, que vive a amante de Belfort, tem tudo pra se tornar mais uma queridinha de Hollywood. Seja lá qual for a versão masculina de “aumentar a umidade relativa do ar”, era justamente isso que acontecia no cinema toda vez que a moça entrava em cena. Além de estonteantemente gata, ainda sabe atuar muito bem. Precisa de mais alguma coisa?  ;)

THE WOLF OF WALL STREET

Agora, tem dois caras que realmente extrapolaram e fizeram um trabalho melhor do que Deus quando Ele criou o purê de batatas (“pirê” existe?). O primeiro você já deve saber quem é: Leonardo DiCpario. Atuação impecável em todos os momentos, desde os acessos de fúria do seu personagem até o humor físico a la Monty Python na cena do carro. E se o cara já demonstrava uma singela inclinação pro humor em outros papéis, em O Lobo de Wall Street — graças à direção e ao roteiro que muitas vezes arranca gargalhadas da sala — ele se solta completamente no papel mais engraçado da sua carreira. Sério, se o Leo (pros íntimos) não levar o Oscar esse ano, é pra desistir de vez e virar professor de educação física.

O outro que superou qualquer expectativa foi o Jonah Hill. É bizarro pensar que ele começou desenhando pênis em Superbad e hoje atua em alto nível ao lado de monstros como Brad Pitt e o próprio DiCaprio. O papel do drogado e desmiolado sócio de Jordan Belfort, Donnie Azoff, não poderia ter ido pra alguém melhor. Sério e sóbrio nas situações tensas, mas o Jonah Hill maluco que nós amamos nos momentos de festa e drogas. Não assisti a Moneyball, mas acredito que o trabalho do Hill nesse filme deve estar, no mínimo, no mesmo nível. Mais uma indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante seria justa e correta.

Golden Globes Nominations

Por mais que a direção frenética tenha um propósito e a trama completamente insana seja baseada em fatos reais (se é que você acredita), é muito difícil levar O Lobo de Wall Street a sério. Isso normalmente não é um problema, pelo contrário. O alucinado Sem Dor, Sem Ganho também é baseado numa história verídica totalmente maluca e, por mais que não seja nenhuma obra-prima, é muito bom. A questão é que o filme estrelado por Mark Wahlberg e The Rock não se leva a sério desde o primeiro minuto. No meio do longa, por exemplo, exibirem “lembre-se: isso ainda é uma história real” ilustra bem o que eu quero dizer.

Não diria que O Lobo de Wall Street é ruim, não no geral. Péssimo mesmo é o final do filme, os últimos 5 minutos, aí sim. Enfim, o ponto é que, infelizmente, a obra de Martin Scorsese deu um passo maior que a própria perna. Trama maluca demais (se Hollywood pode fazer mudanças pra engrandecer histórias verídicas, por que não fazer o mesmo pra torná-las mais reais também?), direção nervosa, roteiro corrido e forte apologia às drogas (olha que eu nem sou desses politicamente corretos chatos). Por outro lado, o humor é de primeira e as atuações fazem valer o ingresso. Vale a pena assistir nem que seja pra torcer pelo Leonardo DiCaprio e, quem sabe, o Jonah Hill no Oscar. ;)

Este texto foi originalmente postado no Eleve Seu QI.

O Lobo de Wall Street

O Lobo de Scorsese não sabe como se posicionar. Em alguns momentos ele engata um tom de trama séria sobre fraude no mercado financeiro, mas logo em seguida tudo vira uma grande piada com ares de surrealismo e ficção. E esse ciclo se repete pelas quase três longas — e desnecessárias — horas de exibição.

  • Uma das melhores atuações de Leonardo DiCaprio e ótimo trabalho de Jonah Hill
  • Longo demais
  • Por mais que seja baseado numa história real, a trama é tão surreal que muitas vezes chega ao ridículo
  • Final corrido
Nota: 3/5