Review | O Regresso

O Regresso é um filme bonito, lindo até. Bem, pelo menos visualmente.

Rafael Mei

O Regresso é um daqueles filmes que você assiste e parece excelente no primeiro momento –  e elementos dele realmente são -, mas quando para para pensar, mais problema você encontra. Seja pelos, admitidamente pequenos, erros no roteiro ou por perceber o quão simplista ele é.

Passado em 1823 O Regresso conta a história de Hugh Glass, um explorador trabalhando como guia de uma companhia de comerciantes de peles junto de seu filho Hawk. O garoto é mestiço, sua mãe era uma índia, e isso conquista a inimizade de alguns companheiros. Enfim, tretas acontecem, Hugh é atacado por um urso, se ferra todo e mais tretas acontecem.

Não confie nessa cara fofa, esse bicho vai acabar contigo.

O filme tem grandes momentos e é, no geral, muito bom. As sequências de ação são especialmente impactantes, com seus planos longos executados com maestria – contando com boa direção, coreografia e cenários. É impossível não ficar tenso e fascinado com o primor técnico que elas apresentam.

Filmado quase inteiramente em luz natural e em belíssimas externas, O Regresso é um filme que realmente chama atenção pela beleza. Parece que se passa em wallpapers do Mac de tão bonito. Isso seria ótimo, se não fosse pelo fato que Iñarritu parece ficar tão fascinado pelos locais quanto a gente.

Esse fascínio seria ok, e até bom, caso não atrapalhasse o andamento da trama e o ritmo do filme. Lá pela metade já é possível reparar no padrão que se forma: Cena -> Paisagem bonita -> Cena. Acaba que o filme vira uma sequência de cenas meio desconexas onde fica difícil saber quanto tempo passou, se é que passou. Isso é ainda mais complicado pelo fato que as cenas em si costumam ser bastante tensas e essas quebras acabam por desarmar um pouco dessa tensão. Isso é especialmente estranho ao compararmos esse trabalho com Birdman, onde – pela própria estrutura do filme – o ritmo da narrativa é algo tão bem construído.

Wallpaper do Mac ou O Regresso?

(Não, sério, coloca ai nos comentários qual dos dois)

Contudo, não é apenas exibindo a paisagem que Iñarritu perde a mão. A direção de algumas cenas também é problemática. Não me entenda mal, a habilidade e visão do cineasta são inegáveis, entretanto, essa capacidade torna-se exibicionismo em certos pontos. Alguns momentos tensos são diminuidos por movimentos de câmera exagerados que chamam muita atenção a si mesmos.

Um bom exemplo é uma cena na qual um personagem aponta seu rifle em direção a outro, ameaçando-o. A situação em si é tensa, até porque esse personagem é claramente capaz de matar alguém, porém a câmera gira em torno da cena, descendo o cano do rifle, dando piruetas e saltos a ponto que parece que nada vai acontecer.

Dito isso, a produção consegue se manter engajante até o fim e boa parte disso vem das atuações. Todo o elenco entrega performances excelentes e muito fortes. É um longa visceral e os atores realmente passam isso, com muita fisicalidade e atuações que poderiam até ser vistas como um certo “overacting” (quando o ator exagera demais na atuação), mas que funcionam nesse contexto brutal. 

Vale comentar as 12 indicações ao Oscar que o filme recebeu , são elas:

  • Melhor filme
  • Ator principal (DiCaprio)
  • Ator coadjuvante (Hardy)
  • Fotografia
  • Figurino
  • Direção
  • Montagem/Edição
  • Maquiagem e cabelo
  • Design de produção
  • Edição de som
  • Mixagem de som
  • Efeitos visuais (Urso babaca)

Não vi todos os filmes do Oscar ainda, mas acredito que a estatueta de Ator Principal finalmente vai para DiCaprio – o que é uma pena, a piada dele não ganhar era muito boa – e não acho que Tom Hardy leva o de coadjuvante, mas se levasse seria merecido. Acho que o filme também leva as de Fotografia, Maquiagem e cabelo (a academia adora maquiagem realista), de resto não sei o suficiente para opinar.

Alguém dá um Oscar para esse cara antes que ele se mate. Ou mate alguém.

O que é interessante notar é o fato do filme não ter sido indicado por roteiro, e esse traz meu último ponto sobre o mesmo. Lembra que eu disse que quanto mais você pensa sobre esse filme, pior ele fica? Então, isso é culpa do roteiro que é simples e raso, sendo repetitivo em suas situações e tendo pouco – ou quiçá, nenhum – desenvolvimento dos personagens. Além disso o arco narrativo do filme parece ser, basicamente: Hugh Glass se ferra. Muito. É tanta desgraça da vida do indivíduo que chega a ficar cômico em alguns momentos – o que, com certeza, não era a intenção.

 

O Regresso

O Regresso é um filme bom. Não é nenhuma maravilha em alguns pontos, mas que consegue te deixar tenso e investido na trama. Em termos plásticos também é espetacular e seus bons momentos são tão bons que fazem o filme ainda valer a pena ser assistido.

  • Sequências de ação incríveis
  • Planos longos bem executados
  • Plasticamente lindo
  • Atuações excelentes
  • Ritmo ruim
  • Direção exagerada
  • Roteiro fraco
Nota: 3/5