Review | Operação Red Sparrow

Um ótimo final escondido dentro de um filme confuso e arrastado.

Matheus Esperon

Existem algumas experiências que são melhores no final, como extrair os sisos ou ser resgatado de um naufrágio após 53 dias à deriva no Oceano Pacífico.

Operação Red Sparrow, o novo filme de espionagem da atriz Jennifer Lawrence que vinha sendo chamado por aí de “proto-Viúva Negra”, entra exatamente nessa categoria – com o fato de que você também se sente à deriva durante 53 dias na sala de cinema.

Após o abrupto fim de sua carreira como bailarina, a jovem Dominika Egorova (Lawrence) é recrutada para a Escolinha Sparrow – uma academia de treinamento da inteligência russa na qual os recrutas aprendem a usar seus corpos para manipular as emoções de seus alvos. Logo em sua primeira missão na cola do agente da CIA Nate Nash (Joel Edgerton), Dominika precisará decidir onde reside sua lealdade.

A maior e mais óbvia crítica a ‘Red Sparrow’ é direcionada ao seu roteiro: uma história incrivelmente confusa que parece ter uma necessidade proposital de complicar ainda mais as coisas a cada 15 minutos de trama. Quando você sente que está entendendo o que acontece, o roteirista Justin Haythe (do ruim ‘A Cura’ e do intragável ‘O Cavaleiro Solitário’) te dá uma rasteira ao adicionar mais motivações e mais personagens.

É compreensível a ideia de criar uma história de espionagem com elementos de agentes duplos (e triplos, quádruplos, quíntuplos…). Mas Dominika muda tanto e parece sempre tão insegura em suas decisões que em vez de te deixar apreensivo, o roteirista consegue apenas despertar uma sensação de confusão.

“eu tô entendendo é nada.”

Outro problema do roteiro é que num filme no qual a trama avança a partir de uma única personagem, ter uma protagonista totalmente sem carisma é quase autossabotagem. Dominika, mesmo durante seus dias de paz no começo da história, é sempre retratada como fria, distante e, num português claro, totalmente sem graça. Logo, é difícil se importar com o que acontece com ela durante o filme – até mesmo nas cenas de tortura e violência que beiram a gratuidade.

Por fim quanto ao roteiro, um ponto rápido mas sério: a trama de ‘Red Sparrow’ se utiliza de dois estupros (um efetivo e uma tentativa, pra ser exato) para [tentar] construir a personagem principal. Em 2018 já deveria ser mais do que claro que esse tipo de coisa simplesmente não tem mais espaço no audiovisual.

Já passou da hora de abandonar essa muleta narrativa…

Também criticáveis são a direção sonolenta de Francis Lawrence (os últimos três ‘ Jogos Vorazes’ e ‘Eu Sou a Lenda’) e a fotografia quase monocromática de Jo Willems (também dos ‘Jogos Vorazes’), que tornam ‘Red Sparrow’ um filme visualmente genérico e esquecível, sem nenhuma cena que verdadeiramente chega sequer perto de se destacar. A direção especificamente tinha ótimas oportunidades de criar sequências tensas (como no trailer) mas nunca consegue alcançar nada além de bocejos.

Além disso, nem as atuações são capazes de nada pra aumentar a nota do filme. Jennifer Lawrence volta ao piloto automático que parecia ter sido desligado em ‘mãe!’ enquanto todo o elenco, pra ser justo, não tem nem chance de se destacar, mesmo contando com a melhor sósia não intencional de Vladimir Putin.

Quer dizer, olha pra esse cara.

O único destaque do filme é o seu final, com uma reviravolta verdadeiramente inteligente que faz com que você se pergunte por onde andou tal criatividade durante o resto da produção.

Se os [possíveis] futuros roteiristas de ‘Viúva Negra’ querem um filme pra se inspirar, que olhem para ‘Atômica’ (com Charlize Theron), uma produção que não é perfeita mas faz um trabalho muito melhor que ‘Red Sparrow’.

‘Operação Red Sparrow’ estreia em 1º de março de 2018.

Operação Red Sparrow

A trama de espionagem russa é confusa e visualmente genérica, com um roteiro arrastado, protagonista 100% sem carisma, direção padrão e fotografia monocromática. A única coisa que sobe a nota é o bem bolado final. Qualquer comparação de 'Red Sparrow' com um [possível] futuro filme da Viúva Negra é quase uma ofensa que viaja no tempo.

  • Final criativo e bem bolado
  • Roteiro arrastado e confuso
  • Estupro como artifício dispositivo da trama
  • Protagonista sem carisma
  • Direção genérica
  • Fotografia padrão
Nota: 2/5