Review | Rua Cloverfield, 10

Um filme cheio de tensão com potencial para se tornar um clássico moderno é destruído pelo péssimo final…

Matheus Esperon

Após 12 shots de tequila na casa do Christian na noite de Réveillon de 2013, despertei dia 1º de janeiro de 2014 sem abrir os olhos sentindo que minha cabeça estava gentilmente repousada sobre algo fofo.

“Ah, devo ter apagado no sofá dele”, pensei. Abri os olhos e, para a minha surpresa, vi uma privada na minha frente. Sem entender nada, percebi que havia dormido no chão do banheiro usando uma almofada como travesseiro.

Essa é basicamente a sinopse de Rua Cloverfield, 10, só que com menos apocalipse nuclear mas tantos arrependimentos quanto.

10 CLOVERFIELD LANE

O filme conta a história de Michelle (Mary Elizabeth Winstead), uma jovem que sofre um acidente de carro e acorda presa num quartinho desconhecido. Ela logo conhece Howard (John Goodman) e Emmett (John Gallagher Jr.), que explicam que ela está num bunker porque houve um desastre nuclear e o mundo como ela conhece não existe mais. Cabe a Michelle tentar entender o que houve e, principalmente, decidir se acredita nos dois.

Dá pra dizer que alguém encheu o roteiro da produção de sal porque, rapaz, ele é hipertenso. Todo o mistério e paranoia da trama são construídos de forma primorosa. Mesmo quando a principal questão do filme parece estar resolvida, o longa puxa o tapete sob seus pés e você volta a ficar sem saber no que acreditar.

Além disso, os três personagens são super bem escritos, com destaque para Howard, cujo comportamento explosivo faz com que você nunca saiba o que ele vai fazer. O mérito também recai sobre John Goodman, numa das suas melhores atuações dos últimos anos.

O problema é que três coisas acabam com o potencial da produção.

A primeira, pequena, é a decisão de abrir o filme estabelecendo rapidamente a vida de Michelle e mostrando seu acidente. Começar o filme direto do bunker e ter a história da personagem contada por ela mesma conversaria muito mais com a proposta de mistério e desconfiança da trama.

A segunda, média, é o humor do roteiro em certas partes do filme. Há diversas piadas ao longo da história que funcionam muito bem ao serem utilizadas, por exemplo, no pico de um momento de tensão para aliviar e contrastar o clima. Outras, no entanto, só servem para derrubar a construção de ansiedade em algumas cenas. Um tom mais sério no geral teria sido bem melhor.

A terceira, enorme, é o final. Sem entrar em spoilers, o negócio se arrasta mais que a conclusão de ‘O Retorno do Rei’. Você acha que o longa vai acabar, ele continua. Você acha que agora sim vai acabar, ele continua. E continua. E continua. E então o filme vai de mistério sóbrio e tenso para filme trash dos anos 80, é impressionante.

A conclusão se prolonga por uns 15 minutos de forma mais desnecessária do que ‘Batman vs Superman’. Quando o filme finalmente acaba, todo o clima de tensão já desapareceu e o resultado é pura decepção.

Se a produção terminasse na primeira vez em que você acha que ela vai acabar — e é tudo tão perfeito pra isso —, teríamos visto um clássico do cinema nascer na forma de um longo episódio de ‘The Twilight Zone’.

Rua Cloverfield, 10

O filme é ambicioso com uma ideia excelente que poderia ter sido verdadeiramente memorável se tivesse simplificado as coisas. É o exemplo ideal de que menos muitas vezes é mais.

  • Ideia super instigante
  • Ótima atuação de John Goodman
  • Tensão muito bem construída pelo roteiro
  • Início fora do bunker desnecessário
  • Humor fora de hora
  • Final horrível que se arrasta por 15 minutos e transforma o filme em galhofa
Nota: 2/5