Review | Star Trek: Sem Fronteiras

O Star Trek de Justin Lin não tem a Enterprise fazendo drift, mas compensa essa falta de muitas outras formas.

Rafael Mei

Meu primeiro contato real com a franquia Star Trek foi o filme homônimo de 2009. Dirigido por J.J. Abrams, muitos fãs criticaram o longa por ser completamente diferente do tom das séries e, depois que comecei a assistir ‘Next Generation’, me vejo obrigado a concordar – embora ainda goste muito dos mesmos.

Quando anunciaram que o terceiro filme de Star Trek seria dirigido pelo diretor da franquia Velozes e Furiosos, Justin Lin, admito que fiquei com certo receio. Por um lado, Lin é um bom diretor de ação e variar a direção em relação a Abrams poderia fazer bem. Por outro, essa escolha deixa ainda mais claro o afastamento da franquia do estilo das séries – focada em diplomacia e lógica do que ação.

Surpreendentemente, Star Trek: Sem Fronteiras consegue ser mais fiel ao espírito da franquia original do que suas duas prequências, sem perder o estilo blockbuster das mesmas.

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“Você já fez drift antes né?”

Começando com uma rápida sequência – que poderia ter sido diretamente retirada de um episódio da série – onde Kirk negocia um acordo entre duas espécies fora da federação como parte de sua missão de cinco anos iniciada ao final de “Além da Escuridão”. Voltamos ao universo de Star Trek de forma menos bombástica que os filmes anteriores, algo que se provará recorrente na narrativa.

Somos reapresentados à Enterprise e sua tripulação, enquanto Kirk fala sobre como, após 3 anos de missão, a vida de capitão está se tornando monótona – ou como ele mesmo diz, em uma alusão muito apta às series, episódica. Vemos a Enterprise como uma comunidade e os membros principais da tripulação mais humanizados.

Esse é, inclusive, o maior trunfo de Sem Fronteiras. Por mais repleto de cenas de ação que seja, o longa tem muitos momentos lentos e humanos, com diálogos mais pessoais que exploram melhor a relação entre os vários personagens da tripulação – fugindo do foco Kirk-Spock e dando mais espaço para outros personagens. O destaque vai para McCoy e Spock que têm algumas das melhores cenas do filme.

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Se beber, não teleporte.

Esse foco maior não se limita apenas as relações entre os personagens mas também nas resoluções e narrativa do filme. Todos os membros principais da tripulação da Enterprise têm papel importante na evolução da narrativa e resolução dos conflitos. Além disso, o filme introduz uma nova personagem excelente em Jaylah, que se encaixa muito bem na dinâmica do grupo.

O longa também é extremamente respeitoso com o universo Star Trek, desde sua direção de arte até as raças e conceitos apresentados. Uma parte envolvendo especificamente equipamentos mais antigos desse universo traz uma direção de arte que comunica bem as origens do que conhecemos, além de ter inspiração direta em outras obras da série.

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O filme faz um bom trabalho em estabelecer a personalidade e habilidades de Jaylah.

Vale também notar a forma como o filme se despede de Leonard Nimoy – falecido em 2015. Sua morte é abordada no filme com muito tato e torna-se um ponto importante na narrativa. São momentos tocantes e que homenageiam as obras originais sem parecerem artificiais ou forçados.

Contudo, Sem Fronteiras não é sem falhas. A direção de Justin Lin é inconsistente em sua qualidade. Fora da ação e nas cenas que envolvem conflitos entre naves, é preciso e criativo, com um estilo que se encaixa na franquia, sem copiar diretamente Abrams – e, sinceramente, sendo até melhor. O clímax do filme, em específico, é simplesmente espetacular – em todos os sentidos da palavra – e totalmente absurdo.

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“E ali vai ficar a quadra poliesportiva, logo do lado da piscina e da sauna”

Já nas cenas de ação “em escala humana” os erros são muitos. O uso excessivo de câmera tremida e sua montagem confusa deixam algumas cenas quase incompreensíveis ou, no mínimo, muito difíceis de acompanhar.

Em suma, Star Trek: Sem Fronteiras é uma excelente continuação e cimenta perfeitamente a continuidade cinematográfica da série – desenvolvendo seus personagens e universo. Não é um filme sem falhas, mas suas qualidades superam – e muito – as mesmas.

Star Trek: Sem Fronteiras

Adicionando mais desenvolvimento aos personagens e estabelecendo novos, Sem Fronteiras consolida de vez o elenco atual dos filmes, sem perder a ação e espetáculo da franquia.

  • Personagens mais desenvolvidos
  • Jaylah é uma ótima adição ao elenco
  • Vilão interessante e bem realizado
  • Clímax incrível
  • Direção bastante ruim em algumas cenas de ação
  • O vilão poderia ser ainda melhor explorado
Nota: 4/5