Review | Um Limite Entre Nós

Filmes com locação única precisam de duas coisas: Um roteiro amarradinho e atuações sólidas. ‘Um Limite Entre Nós’ tem ambos, com direito a um show de Viola Davis.

Matheus Esperon

O chamado “cinema espetáculo” pode ter diversas interpretações. Para Michael Bay, por exemplo, significa explodir tudo e então explodir o que sobrou mais uma vez. E não há nada de errado com isso (a não ser quando o Optimus Prime subitamente voa no final do filme quando isso nunca aconteceu antes).

Mas é bacana quando filmes simples mostram que “cinema espetáculo” pode ser o oposto disso. Produções que se passam basicamente em um lugar só, sendo alicerçadas por grandes roteiros e atuações, como ’12 Homens e uma Sentença’ e ‘Lunar’.

E o terceiro filme dirigido por Denzel Washington, Um Limite Entre Nós, entra para o hall de longas simples mas que definidamente são um espetáculo.

Ambientado nos anos 50, o filme retrata o dia a dia e especialmente a dinâmica familiar de Troy Maxson (Denzel), que tenta criar seus dois filhos e lidar com sua esposa Rose (Viola Davis) da maneira rigorosa que ele julga ser correta. Após passar décadas colocando cercas (metafóricas) entre si e os outros, Troy precisa lidar com o caminho que sua vida levou.

A história não é muito complexa e funciona mais como um vislumbre da interação diária dos personagens. Alguns deles até possuem tramas mais pessoais, mas estas ficam sempre em segundo plano pois o foco do filme é a família Maxson – tanto que a trama se passa praticamente toda na casa deles, especialmente no quintal.

Nos dois primeiros atos, vemos como Troy tem um bom coração mas basicamente escolhe agir de forma rígida com sua família – especialmente com seu filho mais novo – por traumas passados envolvendo seu próprio pai e a questão racial dos EUA. Suas relações familiares são tão fragilizadas que fica claro que o nome original ‘Fences’ (“cercas”) possui um significado metafórico muito forte.

No ato final, após uma revelação do protagonista, o filme avança no tempo para mostrar as consequências sofridas por ele e toda sua família. E, claro, quase sempre contido no quintal da família Maxson.

Com um foco tão grande nas interações e com praticamente apenas uma locação, seria impossível um filme como ‘Um Limite Entre Nós’ obter qualquer sucesso sem atuações minimamente sólidas. Acontece que as performances não são apenas sólidas como espetaculares.

Viola Davis simplesmente coloca o longa no bolso e garante o seu primeiro Oscar de melhor atriz. Sua presença é sempre marcante e seu trabalho, fantástico. Agraciada com uma personagem que percorre todos os tipos de emoção, a atriz brilha desde suas sutis expressões faciais ao fundo de uma cena discordando do que Troy diz até os momentos mais explosivos, literalmente de arrepiar os cabelos.

Denzel Washington também não fica muito atrás. Seu pai de família consegue ir de cara boa praça para homem ameaçador em questão de segundos. Pena que, diferentemente de Viola, Denzel não tem uma cena para extravasar (devido à natureza mais contida de Troy), o que certamente o garantiria o Oscar (pelo menos no meu coração).

Além do casal protagonista, o elenco secundário também faz um trabalho excelente, com destaque para o filho mais novo interpretado por Jovan Adepo (que poderia ter recebido uma indicação no lugar de Lucas Hedges de ‘Manchester À Beira Mar’) e o irmão mentalmente deficiente de Troy vivido por Mykelti Williamson.

Fechando os pontos positivos, a direção de Denzel é super competente. Não revoluciona nem esbanja criatividade, mas segurar um filme de 2h19m que se passa no mesmo lugar e tem menos de 10 atores requer um diretor talentoso.

De negativo, o filme só tem duas coisas, uma pequena e outra grande. A pequena é que há diálogos no comecinho muito acelerados e em sequência, quase sem pausa para os personagens (e, por consequência, nós que estamos assistindo) respirarem. Parece até um vlog da família Maxson – o bom é que não dura muito.

O maior problema do filme é realmente o seu ritmo. Em alguns poucos momentos ‘Um Limite Entre Nós’ deixa a peteca cair e se arrasta em demasia. Não chega a incomodar tanto, mas o andamento da produção poderia ser um pouco mais ligeiro no geral.

‘Um Limite Entre Nós’ estreia em 2 de março de 2017.

Um Limite Entre Nós

Filmes com poucos personagens e locação única precisam de duas coisas: Um roteiro amarradinho e atuações sólidas. 'Um Limite Entre Nós' tem ambos, com direito a um show de Viola Davis. Pena que o ritmo um pouco lento demais impede que o filme seja 10/10.

  • Atuação espetacular de Viola Davis
  • Excelentes performances de Denzel Washington e do elenco secundário
  • Direção competente
  • Roteiro amarradinho
  • Ritmo um pouco lento
  • Começo "vlog"
Nota: 4/5