Review | Vida

O horror espacial definitivamente é um dos melhores e mais tensos sci-fis dos últimos anos.

Matheus Esperon

A busca por vida inteligente é algo que permeia a comunidade científica há décadas. Depois de constatarem que aqui na Terra a coisa tá complicada, pesquisadores começaram a olhar para o espaço (#CríticaSocialFoda). A humanidade já mandou sondas para Marte, Saturno, Nova Iguaçu e diversos outros alvos nos confins do universo.

Imagine que finalmente um espécime completamente desconhecido é encontrado em Marte e precisa ser estudado na Estação Espacial Internacional, logo aqui em cima. Essa é a premissa de Vida, também conhecido como o filme com o título mais genérico em anos.

Como um bicho tão pequeninho pode ser tão capeta?

Só que é claro que as coisas não são assim tão simples e o organismo microscópico rapidamente começa a evoluir –  ficando maior e cada vez mais agressivo – até fugir do confinamento. Cabe então aos astronautas (encabeçados por Jake Gyllenhaal, Rebecca Ferguson e Ryan Reynolds) sobreviver à criatura e, principalmente, impedir que ela chegue na Terra.

Logo nos primeiros minutos fica claro que ‘Vida’ não veio para ser um filme medíocre e esquecível. A produção abre com um complexo (mas não exagerado *coff coff ‘O Regresso’*) plano sequência com todos os astronautas em zero gravidade flutuando pela nave e realizando diversas tarefas. Cerca de 4 minutos(!) depois a cena chega ao seu ápice, com Ryan Reynolds segurando com sucesso – via braço robótico – a sonda de Marte que estava se aproximando sem rumo.

A direção de Daniel Espinosa é criativa (por mais que as boas ideias se concentrem mais no primeiro ato) e consegue criar tensão sem apelar apenas para jumpscares. Eles existem, mas não são apelativos (leia “bicho pulando na tela e o som aumentado a ponto de quase estourar teu tímpano”). A maior parte do terror do filme se alicerça na ótima atmosfera do universo.

Na verdade, pelo menos pra mim, ‘Vida’ não é terror, mas sim, horror. Em inglês, cinematograficamente, não existe tal distinção (é tudo “horror”) mas em português dá pra dividir. O filme é muito mais tenso do que aterrorizante, com algumas cenas visualmente chocantes.

Abre a porta, Mariquinha!

O roteiro por sua vez é sagaz mas deixa a desejar. A escrita constrói muito bem os personagens, com até os mais secundários tendo um lugar na sua preocupação pela vida da galera, e as explicações científicas são bem boladas (pelo menos para nós, leigos e não cientistas). Os roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick também subvertem alguns clichês do gênero e brincam com a nossas expectativas de forma muito inteligente.

O problema se dá no ritmo. É claro que filme nenhum pode ser tenso e frenético do começo ao fim, precisando ter “pausas” para o público e a própria trama poderem respirar.

Só que as pausas de ‘Vida’ vêm em horas muito inoportunas e sem sentido dentro da história. O bicho acaba de sair do laboratório e infiltrar a nave? Vamos focar em outro problema e agir com calma como se a criatura não fosse A maior prioridade. Sabe? Galera batendo papo numa boa como se o hasmter do Ricardo tivesse fugido, e não um alienígena assassino.

Outro problema menor é que o grande acontecimento que dá o pontapé do terceiro ato não faz sentido à luz da revelação do filme sobre os conhecimentos de missão de uma das personagens. Pra não dar spoilers, é como se eu fosse intolerante à lactose e comesse queijo durante 1h30. E aí depois, já me peidando todo, eu dissesse “na verdade, galera, eu não posso comer queijo”. Ué, por que você esperou tanto?

BATEU

Mas de resto, todo o filme funciona perfeitamente como o sci-fizão que a gente esperava. Os atores entregam performances super sólidas – com destaque para Jake Gyllenhaal, Rebecca Ferguson, Ryan Reynolds e Ariyon Bakare -, os visuais são incríveis (um dos melhores que já vi) e a criatura em si é interessantíssima.

Falando nela, alguns rumores apontavam que ‘Vida’ na verdade seria um prequel do recém anunciado filme solo do Venom, revelando como o simbionte chegou na Terra – que seria algo simplesmente genial. Como não sei se você que está lendo consideraria a revelação de se é ou não é um pré-Venom spoiler, vou escrever sobre isso no próximo parágrafo:

Então, se você ainda está lendo isso e não quer saber se é um prequel de Venom, pule direto pra caixa de review aí embaixo. Se você ainda está aqui, infelizmente a Sony deixou a peteca cair e não aproveitou a oportunidade. O pior é que ‘Vida’ se desenvolve perfeitamente como uma explicação da origem do vilão. Só faltou o Venom. Bobo sou eu que acreditei que logo a Sony teria tanta visão e sagacidade…

‘Vida’ estreia dia 20 de abril de 2017.

Vida

O horror espacial definitivamente é um dos melhores e mais tensos sci-fis dos últimos anos. Direção criativa, bela fotografia e ótimas atuações. Mas as pausas dramaticamente sem sentido e algumas cabeçadas do roteiro infelizmente impedem o 10/10.

  • Direção criativa
  • Excelente plano sequência no comecinho
  • Fotografia bonita
  • Roteiro foge do lugar comum
  • Ótimas atuações (de todos mesmo)
  • Efeitos vislumbrantes
  • Freadas sem nexo na trama
  • Caneladas no roteiro
Nota: 4/5