Review | Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell é um filme competente que traz uma série de discussões sobre a ética de aperfeiçoamento humano, mas talvez não agrade os puristas do original.

Bernardo Dabul

Antes de começar gostaria de deixar algo claro: embora eu tenha assistido há algum tempo o ‘Ghost in the Shell’ original de 95, não lembro detalhadamente do mesmo. Assim, esse review será feito na perspectiva de alguém que não é tão familiarizado com a franquia (como será o caso da maioria dos que assistirão essa versão live action). Agora que estamos entendidos, vamos nessa.

Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (daqui pra frente referido apenas como ‘Ghost in the Shell’), que é uma versão live action do filme animado japonês de 1995, teve um início um tanto turbulento. Muitos criticaram a escolha de Scarlett Johansson para interpretar a protagonista ‘Major’, uma vez que originalmente era uma personagem asiática, agora transformada em ocidental. Porém, apesar disso, o filme persistiu, chegando nos cinemas com um resultado muito interessante (embora alguns puristas possam sair insatisfeitos).

Para os novatos, ‘Ghost in the Shell’ se passa em um futuro onde aperfeiçoamento humano através de implantes cibernéticos é o normal. Estes chegaram a um nível onde até mesmo as mentes das pessoas podem ser hackeadas, que é justamente como o filme começa: mostrando um desses ataques. É aí que conhecemos nossa heroína, Major. Ela é a primeira de seu tipo, a mente de um ser humano mas com o corpo totalmente cibernético, trabalhando para o Setor 9, uma divisão especial do governo.

Rapidamente Major descobre que esse foi só um de vários atentados a membros de uma das maiores empresas de implantes e vai atrás do arquiteto dos ataques, conhecido apenas como Kuze. Começa então a busca pelo vilão, desencadeando uma série de eventos que questionam a moralidade dos implantes cibernéticos, o fácil acesso e modificação das mentes de pessoas e outras questões semelhantes.

A parte mais interessante do filme é, de longe, a exploração dessas questões éticas sobre os limites entre homem e máquina. Até que ponto uma pessoa ainda é uma pessoa e não apenas um robô? Que sacrifícios são aceitáveis em nome do progresso? A partir do momento que memórias podem ser criadas e implantadas, o conceito de ‘realidade’ é comprometido? Não são muitos filmes que trazem esse tipo de debate à tona e ‘Ghost in the Shell’ o faz de forma especialmente eficiente.

A estética do filme também é impressionante, mostrando um mundo que visualmente é belo e marcante. Porém ao olhar de forma mais detalhada, é possível ver sinais de distopia aparecendo. Enquanto arranha céus têm hologramas enormes fazendo propagandas dos mais novos produtos para melhorar a vida, na rua é possível ver pessoas desfiguradas por seus implantes. É uma dualidade interessante que só avança o debate moral mencionado acima.

Quanto à etnia da Major, o filme tenta justificar a mudança através da narrativa, porém não é o suficiente. A alteração acaba sendo em serviço da escolha da atriz ao invés da história. Dito isso, Scarlett Johansson consegue vender bem a personagem, criando uma Major que é devota à sua missão, mas às vezes se questionando sobre sua realidade e propósito.

Quanto ao resto do elenco, todos trazem seus respectivos personagens à vida, mas nenhum em especial se destaca. Pilou Asbæk é o que chega mais perto como Batou, mas ainda assim aparece muito pouco para que a audiência consiga se conectar a ele.

‘Ghost in the Shell’ também apresenta uma série de mudanças em relação ao original de 95. Não irei comentar muito a fundo sobre elas aqui, mas basta dizer que são significantes. Puristas talvez não gostem dessas alterações, mas para aqueles com um pouco menos apego ou não familiarizados, ainda é uma história competente e interessante.

Divulgação

Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

‘Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell’ traz à vida o mundo futurista e distópico da animação de 95 de forma interessante, contando até com debates éticos sobre o aperfeiçoamento humano. É uma pena somente que tenha sofrido whitewashing desnecessário. De qualquer forma, é um bom ponto de entrada para os pouco familiarizados, mesmo que talvez não agrade puristas.

  • Debates éticos interessantes
  • Cidade futurista bem realizada
  • Atuação de Scarlett Johansson é boa...
  • ...pena que o whitewashing é significativo
  • Elenco coadjuvante pouco relevante
  • Mudanças em relação ao original pode não agradar puristas
Nota: 4/5