Review | A vida é estranha

Quem nunca saiu de uma prova e, no instante seguinte, veio todas as respostas que faltaram, todos os erros cometidos e todas as vontades de se dar tapas na cara? Quem nunca desejou voltar no tempo, já sabendo as respostas, refazer a prova e passar como um rei nerd?

Christian Kaisermann

Quem nunca saiu de uma prova e, no instante seguinte, veio todas as respostas que faltaram, todos os erros cometidos e todas as vontades de se dar tapas na cara? Quem nunca desejou voltar no tempo, já sabendo as respostas, refazer a prova e passar como um rei nerd?

Bem, Life Is Strange, não tem nada disso (se quiser um filme com uma premissa parecida e despojada, assista Project Almanac). Desenvolvido pela Dontnod, Life is strange é um jogo de Point’n Click, como os da Telltale (Walking Dead, Game Of Thrones, Wolf Among Us, etc). Acompanhamos o dia-a-dia de Max, uma jovem estudante amante de fotografia que voltara á Arcadia Bay, cidade onde cresceu, para começar o ensino médio em um renomado colégio da região. Com seus recentes 18 anos, Max se vê despreparada para a vida adulta que está chegando.

Logo ao começarmos nossa aventura por Life is Strange, vê-mos Max subindo uma colina em meio á uma tempestade brutal (com direito a furacões e vacas voando). Ao chegar no topo, Max reconhece o local e percebe que está no alto da colina do farol da cidade. Em seguida, um dos destroços, carregados pelos ventos do furacão, destroem o farol e este começa a cair em direção á Max.

Foto: Reprodução

Ai que frio

Em um piscar de olhos, Max acorda, assustada e desnorteada, no meio de sua aula de fotografia. Aliviada por ter sido tudo um sonho, segue com a aula. Neste momento, você já consegue sacar um pouco como o jogo funciona, podendo verificar objetos próximos a você e até mesmo tirar fotos de certos eventos (seeeeeeeeelfies).

Após uma pequena lição de moral do professor (crianças, não durmam em aula (é impossível, eu sei)), a aula acaba e Max resolve ir ao banheiro para lavar o rosto. Após tirar uma foto de uma borboleta que aparecera no último box do local, duas pessoas entram no banheiro e começam uma discussão. Max, sem saber o que fazer, continua escondida e vê a discussão crescendo e crescendo e crescendo, até o ponto em que um dos envolvidos é morto por um tiro. Em um piscar de olhos, preocupada e atordoada, Max se vê na sala de aula novamente. Ela havia voltado á alguns minutos atrás. Tudo estava acontecendo de novo, as mesmas falas, as mesmas perguntas, as mesmas pessoas. Será que ela conseguiria salvar a pessoa no banheiro?

Foto: Reprodução

Não quero comentar muito sobre a história, já que o jogo se baseia fortemente nela, mas acho que uma introduçãozinha não faz mal á ninguém. Na verdade, eu queria separar alguns parágrafos para comentar o quanto esse jogo me cativou.

Já havia jogado vários jogos do gênero (como os que citei lá em cima) e apesar de terem uma história interessante, nenhum deles conseguiu chegar no nível de detalhamento que Life is Strange tem com seus personagens. Max mantém um diário sobre tudo que acontece na vida dela, com comentários debochados e engraçados sobre seus colegas, amigos, familiares etc. Você pode ler também sobre o passado de Max, como ela chegou aonde está. Além disso, você recebe, constantemente, mensagens por celular de várias pessoas, criando um ambiente próximo á realidade de hoje em dia. Você se importa com cada personagem. Você lembra do nome de cada um. Você sente que eles são realmente seus amigos.Cada um tem seus defeitos e qualidades particulares, segredos, medos. Claro que, assim como na vida real, você precisa querer conhecer os personagens. Apesar de ser opcional, recomendo muito separar um tempo para conhecer todo o ambiente de Arcadia Bay e seus habitantes.

Foto: Reprodução

<3

Quando tratamos de jogos, sempre tem aquele tabu dos gráficos. Bem, você não vai achar gráficos realistas e sim uma direção artística estilizada, semi-bucólica, que usa elementos de doodling (rabiscos), ângulos de câmera que fazem você sentir que está dentro de um filme. A coloração do jogo acompanha a situação, alternando entre tons escuros e frios, para momentos mais tensos e introspectivos, e tons quentes, o que torna o ambiente muito acolhedor.

Por último, deixei o que, de toda a experiência que foi jogar Life is Strange, mais me impactou. A trilha sonora. Mesclando o uso de músicas próprias (feitas pelo Syd Matters) e outras já existentes, como Something Good da Alt-J, a ambientação quase que te dá um abraço de tão acolhedora. Majoritariamente acústica, as músicas te deixam em um clima gostoso e relaxado. O melhor de tudo é que, em grande parte da vezes, a própria Max está escutando as músicas em seu fone de ouvido (ou seja, ela tem ótimo gosto músical).

Update 16/02/16

Alguns meses (de muita espera) depois e: pronto, acabou. A saga de Max e Chloe finalmente chegou ao seu fim. Desde quando escrevi este texto, há mais ou menos meio ano, os dois últimos episódios foram lançados.

O decorrer destes episódios é mais uma mescla da sempre boa e presente trilha sonora, com seus cenários e personagens excepcionalmente vivos. Além do “pacote padrão” Life Is Strange, a Dontnod conseguiu criar momentos em que os poderes de Max são usados de maneira inteligentíssima (estou olhando para você, sala de alguém muito importante do colégio). Lembro de ficar, ao concluir certos puzzles, completamente “CARA, MAS É ISSO MESMO QUE EU FARIA MEU DEUS MEU DEUS MEU DEUS!!!!!!!!!!”.

Ah sim, quase esqueci da pitadinha a mais que colocaram de COMPLETO NERVOSISMO, TERROR E MEDO. É plot twist atrás de plot twist. A Max, cada vez mais se encontra em situações impossíveis, que (quase) nem mesmo seus poderes conseguem solucionar. Você fica tenso. Você fica desesperado. Você quer ajudar a Max de todos os jeitos possíveis.

Entretanto, algo começou a incomodar enquanto jogava.  Parecia que a Dontnod não conseguia manter todos os plots sendo desenvolvidos e rolando ao mesmo tempo. As visões apocalípticas de Max acabaram ficando de lado por um (bom) tempo, como se fosse algo que ela pudesse simplesmente ignorar, não avisar ninguém, não fazer nada sobre. Sei que não havia muitas opções acerca do que Max podia fazer para impedir o que via em suas visões de acontecer, mas deixar de lado até ser conveniente não é a solução certa.

Eis que tudo se encontra no último episódio da série. Embora ainda amasse o jogo de maneira incondicional, estava ficando cada vez mais preocupado com sua conclusão. Amante de histórias de viagem no tempo que sou, já vi diversas terminando com o clássico ‘opa, deu tudo errado, volta tudo e reseta pro que tava antes’. Aquela saída preguiçosa, parecendo que ninguém teve paciência de terminar a história ou que se perderam no meio de tanta bagunça com o espaço-tempo.

Foto: Reprodução

Como prometido, não haverão spoilers neste texto, mas posso dizer que minha preocupação estava, de certo modo, errada. O que, infelizmente, não salva o final de Life Is Strange. Embora não tenham fechado a história do jeito mais preguiçoso possível, todos os finais disponíveis pecam em impressionar e em te deixar com um sentimento de encerramento.

Para certo final, ainda me parece que se perderam na própria história e que apenas queriam concluí-la. Este final, vou chutar aqui, deve ter um total de 10 minutos de conclusão.

Já o outro final, um pouco mais apreciado por mim, pecou em… tudo. Não pelo os acontecimentos em si, mas pela falta de atenção e de interesse da Dontnod. Lembra da duração do outro final? Este, se teve 3 minutos, foi demais. Senti-me ofendido, que nenhuma das minhas ações, durante todo os 5 episódios, valeram de algo.

Mas Christiaaaaaan, como você ainda pode falar bem desse jogo se o final te decepcionou tanto? Pois é, eu fiquei muito decepcionado, mas mesmo assim, a experiência do jogo, do ambiente, da música e de tudo isso junto, valeu a pena. E ainda vale!

O game é distribuído em episódios. Você pode achar links de compra para PC, Xbox One, Xbox 360, PS3 e PS4, aqui.

Sendo direto, vai jogar. Apenas. Jogue. Mergulhe nesse universo, mas não tanto pra não bater a cabeça no fundo.

(Post original em: http://girlsonroad.com/games/a-vida-e-estranha)

Foto: Divulgação

Life Is Strange

Life Is Strange conta com uma história imersiva, trilha sonora magnífica, personagens interessantes e realistas e possui algumas mecânicas interessantes. Mesmo com um final desinteressante, a jornada do jogo continua valendo muito a pena.

  • Trilha sonora 10 de 10
  • Você se importa com os personagens
  • Gráficos estilizados lindos
  • Final fraco e desinteressante
  • Alguns diálogos não fazem o menor sentido
Nota: 4/5