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Review | Quantum Break

Quantum Break é uma tentativa ousada de fazer algo novo ao misturar jogo e série de TV, mas o resultado final deixa a desejar.

Bernardo Dabul

Se eu pudesse voltar no tempo, diria algumas coisas para minha versão do passado: falaria para não perder o show do Bastille + Foster The People apesar de um certo alguém não ter me informado (estou olhando para você, Christian), falaria que aquele lance com aquela garota não ia a lugar nenhum e ainda para abaixar minhas expectativas sobre Quantum Break.

Deixe-me explicar. Um belo dia, Dabul do passado estava numa festa quando viu uma rapariga que… pera, você quer que eu explique Quantum Break? Ok então, você que sabe. Comecemos pela narrativa do jogo então.

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Tempo Quebrado

Quantum Break é parte jogo e parte série de TV. A primeira conta a história de Jack Joyce. Depois de muitos anos rondando o mundo fazendo… coisas, ele retorna para sua cidade natal de Riverport a pedido de um velho amigo, Paul Serene, que diz precisar desesperadamente de sua ajuda. No caso, o pedido é para ativar uma máquina do tempo de forma possivelmente ilegal. Como de praxe em histórias como essa, a máquina começa a apresentar problemas e acaba criando uma quebra no tempo, causando “soluços” temporais (pense: pausas no tempo) cada vez mais frequentes. Jack, que é pego na explosão do acidente, ganha poderes e imunidade a esses soluços temporais e deve achar alguma forma de restaurar o tempo antes que ele congele de vez.

A parte que é uma série de TV, por outro lado, segue a história de alguns dos funcionários da Monarch Solutions, a empresa que financiou a pesquisa e criação da máquina do tempo catastrófica. Embora os protagonistas variem entre o jogo e a série, os eventos que ocorrem em um lado da narrativa influenciam o outro, criando uma dinâmica inusitada.

Liam Burke, um dos protagonistas da série. (Foto: Divulgação)
Liam Burke, um dos protagonistas da série. (Foto: Divulgação)

Entre as porções de gameplay e série também existem as chamadas “junções”. Nestas sequências breves o jogador controla o antagonista de Quantum Break e toma decisões que irão ter efeitos tanto na série, quanto no jogo em si. Estas escolhas funcionam que nem as dos jogos da Telltale Games como The Walking Dead e Tales from the Borderlands: elas alteram alguns detalhes na narrativa, porém no fim das contas a história sempre mantém o mesmo rumo geral. Embora isso seja compreensível, levando em consideração a natureza multimídia da obra e a dificuldade que seria gerar conteúdo para várias opções narrativas divergentes, ainda é levemente decepcionante não ver algo um pouco mais ousado acompanhando esta nova abordagem.

A história geral é interessante, especialmente quando começa a focar mais em viagem no tempo e a relação de causa e efeito que isso traz. Como em muitos filmes que tratam deste assunto, existem detalhes que podem parecer estranhos no início, mas (quase) tudo faz sentido até o fim do jogo, dando bastante satisfação ao conseguir completar esse quebra cabeça narrativo. Mesmo assim há críticas a serem feitas. O ato final é um pouco corrido, causando situações estranhas como, por exemplo, a menção de um tipo de inimigo novo que nunca aparece. Além disto, muitas informações que contextualizam alguns acontecimentos do jogo são relegadas a e-mails soltos no ambiente que o jogador deve encontrar. Alguém desatento pode passar por muitos destes sem nem reparar, deixando para trás detalhes importantes para a narrativa.

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Dominando o Tempo

O gameplay de Quantum Break não tem muito mistério. No geral é um jogo de tiro em terceira pessoa tradicional, com alguns poderes especiais salpicados para tornar a experiência mais única. Alguns deles são interessantes, como o de criar uma bolha que suspende o tempo somente dentro dela, prendendo o inimigo e permitindo que o jogador acumule várias balas de sua arma que por sua vez atingirão o alvo juntas quando ela estourar. Já outros poderes não parecem ser tão relacionados a tempo como o jogo quer que pareça, como por exemplo uma visão estilo Assassin’s Creed que marca todos os inimigos na região ou um escudo temporal que deflete balas. O que tempo tem a ver com isso? Até hoje eu não sei.

Parar as balas tudo bem, mas defletir não faz sentido nenhum. (Foto: Divulgação)
Parar as balas tudo bem, mas defletir não faz sentido nenhum. (Foto: Divulgação)

Apesar dessas licenças poéticas, os poderes são bastante divertidos de usar. Em várias situações eu conseguia encadeá-los, aniquilando os inimigos na batalha enquanto usava todos os recursos à minha disposição. Nestes momentos eu realmente me sentia como alguém em poder do tempo.

O problema é que essa sensação parece ser contestada quase que constantemente por péssimas decisões de design de gameplay. A mira das armas é muito leve, fazendo com que seja difícil usar armas mais precisas como a sniper. O auxílio de mira do jogo várias vezes vai para o inimigo errado, causando muita frustração. Além disso, em algumas sequências específicas, o jogo retira seus poderes, permitindo apenas o uso de armas de fogo. A intenção com certeza seria tornar a experiência mais difícil, mas o resultado é somente tornar o jogo em um de tiro genérico. A progressão de inimigos também começa bem, mas logo apela para as famosas “esponjas de bala” que aguentam uma quantidade absurda de dano antes de morrer. São decisões preguiçosas vindas diretamente de 1997 e afundam a jogabilidade que poderia ser bem interessante.

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Iceman encontra Mindinho

Os gráficos em geral de Quantum Break são bacanas, mas nada revolucionário. Em algumas situações enquanto jogava, vi texturas pixeladas e casos de pop-in, porém nada muito frequente. O que se destaca mais são os rostos dos personagens. Como eles aparecem tanto no jogo quanto na série, foi necessário usar os rostos dos próprios atores. Não só estes foram recriados de forma extremamente fiel como a captura é de excelentíssima qualidade, sempre transmitindo a emoção de cada momento. É algo realmente impressionante.

Isso é renderizado em tempo real. (Foto: Divulgação)
Isso é renderizado em tempo real. (Foto: Divulgação)

Falando dos atores, a performance destes também é bem competente. Especialmente Shawn Ashmore (Iceman, dos filmes dos X-Men) como Jack Joyce e Aidan Gillen (Mindinho, de Game of Thrones) como Paul Serene fazem um trabalho brilhante e trazem seus personagens à vida tanto no jogo quanto na série.

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Quantum Break

Quantum Break infelizmente não chegou às alturas que mirava atingir, porém aqueles à procura de uma história com viagem no tempo interessante e uma dinâmica de jogo/série inusitada provavelmente vão curtir. Só é preciso engolir o gameplay e todos os seus problemas.

  • História de viagem no tempo interessante
  • Boa atuação
  • Captura facial impressionante
  • Ponte Jogo/Série
  • Gameplay fraco
  • Escolhas com pouca consequência
  • Ato final corrido
  • Informações importantes relegadas a conteúdo opcional
Nota: 3/5