Streets of Rage 4 deveria se passar em Belém ao som de tecnobrega

Por que o game não poderia se passar em Belém?

Carlos Alberto Jr

Antes de Sony x Microsoft, em meados dos anos 1980 e 1990, a maior rivalidade dos games era entre Nintendo e Sega. A disputa em 16 bits vinha desde a potência dos aparelhos até a identidade de público com os respectivos consoles. Enquanto a Nintendo ainda direcionava seus jogos ao público infantil, a Sega aproveitava a brecha para atrair também adolescentes e adultos. Foi assim que nasceu uma de suas principais franquias: Streets of Rage.

Lançado três meses após Sonic (que, por sua vez, também foi uma resposta ao mascote da rival), em setembro de 1991, Streets of Rage retratava a violência das gangues urbanas de cidades como Chicago, Nova York e Detroit. O mesmo tema foi amplamente explorado pelo cinema, em filmes como Warriors: Os Selvagens da Noite. E assim como o cinema, trilha sonora no game conversa diretamente com a linguagem das ruas na época, e é aqui que explico o título do texto. Mas para chegar lá temos que falar primeiro de Yuzo Koshiro…

Yuzo Koshiro


Poucas coisas estão tão conectadas na vida como Streets of Rage e Yuzo Koshiro. E a associação entre os dois é completamente natural, afinal, logo na tela título o game exibe o nome do criador de sua memorável trilha sonora.

Hoje em dia, isso pode parecer normal, mas acredite, nas décadas de 1980 e 1990, a prática mais comum era que as pessoas envolvidas na produção de um game ocultassem suas identidades.

Koshiro foi um dos primeiros a ter seu nome aparecendo logo na tela título de um game. Rumores apontam que a mãe do compositor foi uma das responsáveis por isso, mas independente do real motivo, é inegável que Streets of Rage não seria o mesmo sem sua trilha sonora.

Isso porque primeiro Streets of Rage reflete bem a fusão ocorrida na década de 80 entre a black music e a música eletrônica. Essa junção musical dialogava diretamente com a cultura das gangues de bairro, as pichações e até mesmo a sujeira dos grandes centros urbanos. Algo que se perdeu no último game da série.

Por que o tecnobrega?


Estamos em 2020, não existe mais esse culto ao techno e o house, e até mesmo os cenários dos primeiros games pouco refletem a estética visual de um joguinho de briga na rua. Foi daí surgiu a ideia de mudar de país e trilha sonora.

Quando as palavras Brasil e beat ‘em up estão juntas, pensamos automaticamente em cenários clichês como favelas e trilha sonora com o funk e o rap. E sabemos o quanto esses elementos são retratados de forma estereotipada por desenvolvedores gringos. Então, por que o game não poderia se passar em Belém?

Se seguirmos a lógica de Koshiro na composição da trilha sonora dos primeiros games da franquia, o tecnobrega seria uma substituição perfeita para o techno e o house. Uma vez que ainda hoje, essa variação de música eletrônica dialoga com a massa paraense e boa parte da região Norte/Nordeste, além de apresentar as mesmas referências: que vão de Kraftwerk a Black Music, e é cultuada em determinados nichos.

Em entrevista para a VICE Brasil, o Dj e produtor Waldo Splash explicou que existem dois tipos de público: o da massa, que é basicamente Nortista, incluindo as cidades interioranas; e também o “público cult”, que são pessoas não necessariamente do Norte, mas que estudam novas formas de som e acabam descobrindo o tecnogrega.

“É legal tocar pra galera cult. Não dá aquela grana toda da aparelhagem, mas o pessoal valoriza o autor, o produtor da música, independente daquele espetáculo de luzes piscando, fumaça, nave, boca gigante que se mexe. Que é mais pressão, igual quando a Gang tocava ‘Galera da Laje’ e ‘Tubagás’ nas aparelhagens.”, explica.

Sério, quando o Yuzo Koshiro conhecer o DJ Waldo Splash ele vai enlouquecer. Escutem o clássico moderno Galera da Laje:

Não, me rouba logo!


Além do berço dos experimentos musicais, a capital do Pará é considerada uma das cidades mais violentas do país, com altos índices de homicídios e assaltos. Além do que, a cultura local, por meio de expressões e gírias há muitas direcionadas ao medo de violência como o “levou o farelo!”, que em tradução livre significa que alguém morreu e o “me rouba logo!”, que serve tanto para reclamar de alguma mercadoria com preço algo, como para antecipar um assalto.

Curiosidade: no Amapá criaram o game chamado Me Rouba Logo.

Tento em vista a falta de identidade visual e musical Streets of Rage 4, fica claro que uma mudança de ares seria mais do que bem-vinda para que o jogo não se sustente apenas na base da nostalgia. E aí, concordam ou tô falando galasequice?