Esperon recomenda | Eu Sou a Lenda (livro)

Vampiros de verdade pra você esquecer o filme meia boca do Will Smith!

Matheus Esperon

Eu Sou a Lenda é um filme norte-americano de 2007 sobre Sam, o último pastor-alemão na face da Terra depois que uma pandemia deixou todos os seres humanos carecas. E zumbis. E pessimamente gerados por computação gráfica. Cabe então ao LOBO-DA-ALSÁCIA ajudar o Dr. Robert Neville (Will Smith) a encontrar uma cura.

Antes de mais nada, quero dizer que não acho o filme, dirigido por Francis Lawrence (‘Jogos Vorazes: Em Chamas’), RUIM. “Ruim” é uma palavra muito forte. Ruim é ‘Mulher-Gato’ OU abrir o pote de sorvete e encontrar feijão. Mas, ao mesmo tempo, tá longe de ser bom. Assim como ‘Hancock’ (porra, Will Smith!), que começa muito bem mas lá pra metade começa a cair tal como um saco de bosta atirado do topo de um prédio, dá pra rotular o filme como “fraco”.

Você sabe que é verdade, Will...
Você sabe que é verdade, Will…

A questão é que o longa do Will Smith é genérico demais. Ele realmente começa muito bem: a construção do universo pós-apocalíptico da história é bem bacana. Ver a Times Square completamente entregue de volta à natureza é muito legal. Só que, a partir daí, nada de novo é agregado. É a velha história de “um vírus matou mais gente que as sessões de Homem-Aranha 3” com zumbis em CGI e acabou. Não tem um mistério, não tem plot twist, nada. É só ação com alguns jump scares.

Além disso, é tudo tão mal desenvolvido que quando o protagonista se sacrifica no fim (COME ON, o filme é de 2007), você não poderia estar cagando mais pra morte dele (ou se perguntando POR QUE DIABOS ele não deixou a granada naquela sala e se enfiou no buraco com a Alice Braga e o moleque).

SÓ QUE o longa é uma adaptação do livro homônimo de 1954 escrito pelo mestre Richard Matheson, que é totalmente diferente da sua (terceira) versão cinematográfica, começando pelo fato de que a tal epidemia não transforma as pessoas em zumbis genéricos, mas sim, em vampiros. Vampiros de verdade: sensíveis à alho, cruz e luz do Sol. E sem brilhar! ;D

Uma das capas mais bonitas.
Uma das capas mais bonitas.

Sério, a quantidade de elementos que tornam ‘Eu Sou A Lenda’, livro, uma obra infinitamente melhor que o filme não tão no gibi. Vão desde coisas pequenas como a história se passar em uma área mais isolada de Los Angeles — e não no coração de Nova York —, até diferenças mais significativas, como a conclusão da trama, que dá um tapa na cara de tudo que o leitor acreditava até então. De quebra, esse puta desfecho ainda agrega um significado muito bacana e reflexivo ao próprio título.

Aquela versão alternativa do encerramento do filme — com a borboleta no vidro e o “zumbi líder” se mostrando mais racional do que os personagens pensavam — até se aproxima mais do original, mas ainda é a distância do Condado à Mordor. É muito repentino e fica por isso mesmo. “Ah, então os monstros são mais inteligentes do que a gente achava? Dane-se, vamos meter o pé e fazer a cura“.

"Eu também sei fazer regra de três."
“Eu também sei fazer regra de três.”

Já no original, tudo é muito bem desenvolvido, com cada elemento tendo uma explicação e um propósito. Lembra dos vampiros que eu citei, por exemplo? Robert Neville, que não é um cientista no livro, descobre que a sensibilidade aos elementos religiosos depende da fé da pessoa antes da transformação. O vampiro era cristão? Bíblias e cruzes. Judeu? Torá. Seguidor da cientologia? Uma foto do Tom Cruise.

Além disso, a atmosfera da obra é angustiante. Você sente de verdade que Robert está sendo vigiado por todos os lados, sempre correndo contra o tempo pra aproveitar a luz do Sol e voltar pra casa em segurança. Isso é possível graças à presença de inimigos verdadeiramente inteligentes, cujas táticas pra chegar no personagem vão desde investidas físicas, até jogos psicológicos (MIND GAMES!). Toda noite, sem exceção, um dos vampiros — que era vizinho do protagonista — fica gritando o nome de Neville, tentando convencê-lo a sair de casa pra parar de prolongar o inevitável (sim, eles sabem desde o começo onde o cara mora).

"Meu filme poderia ter sido tão melhor..."
“Meu filme poderia ter sido tão melhor…”

É até engraçado: o livro é tão bom, com tantos elementos que foram deliberadamente modificados ou ignorados na adaptação, que ‘Eu Sou a Lenda’ é um dos poucos casos em que eu torço pra que role um remake. Afinal, a história já foi levada pro cinema outras duas vezes, em 1964 e 1971. Quem sabe Hollywood não acerta em cheio na próxima?

Enquanto isso, fica a recomendação do livro. A obra é super curta — mas nada corrida: 160 páginas muito bem amarradas (o restante, na versão nacional, é um apanhado de excelentes contos do Matheson). Se você, curtindo ou não a adaptação, gosta de histórias pós-apocalípticas, vampiros ou simplesmente achou o universo do filme interessante, saia logo de casa à procura do seu exemplar de ‘Eu Sou a Lenda’.

Mas… evite sair à noite. ;D

Esse texto foi originalmente postado no JUDÃO em 8 de fevereiro de 2014.