O dia em que errei e perguntei pra um judeu se ele sentia raiva de Hitler

Não há afirmação mais equivocada do que “perguntar não ofende”. Ok, “o ar é composto por pequenos cabritos microscópicos” ou “O Homem de Aço é um bom filme” são declarações muito mais imprecisas. Mas a alegação de que indagações são incapazes de insultar alguém cai por terra quando você está no almoço anual de família, nota que sua distante tia Gertrude está mais redonda e pergunta se ela está grávida quando na verdade ela só engordou mesmo.

Matheus Esperon

Não há afirmação mais equivocada do que “perguntar não ofende”. Ok, “o ar é composto por pequenos cabritos microscópicos” ou “O Homem de Aço é um bom filme” são declarações muito mais imprecisas. Mas a alegação de que indagações são incapazes de insultar alguém cai por terra quando você está no almoço anual de família, nota que sua distante tia Gertrude está mais redonda e pergunta se ela está grávida quando na verdade ela só engordou mesmo.

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Aproveite sua torta de climão

O problema é que a curiosidade humana é uma força incontrolável. Ela nos levou até as Índias, até a Lua e, num jantar de aniversário há muitos anos, me levou à uma situação altamente constrangedora.

Em prol do anonimato, vamos chamar o aniversariante em questão de Luke Skywalker pois ambos são loiros e eu gosto de Star Wars.

Anualmente, Luke Skywalker marca uma ceia em sua residência para comemorar o dia do seu nascimento. Como de costume, lá estava eu (vamos me chamar de Mace Windu porque eu sempre quis ser o Samuel L. Jackson e gosto de Star Wars), sentado no sofá de Luke Skywalker saboreando um belo prato de crepe.

Eis que um jovem vizinho de Luke — velho conhecido que vejo com raridade –, senta ao meu lado (vamos chamá-lo de Legolas porque ambos são exímios lutadores e eu também gosto de O Senhor dos Anéis). Colocamos o papo em dia e logo depois ficou aquele silêncio digno de pessoas que não tem muito a ver e se encontram apenas em eventos sociais como esse. Buscando alguma informação pra puxar assunto, lembrei que Legolas é judeu. E foi aí que eu tive a fantástica ideia de perguntar se ele sentia raiva de Hitler.

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Três tortas de climão, por favor!

É claro que qualquer judeu até hoje deve achar Hitler o pior ser humano que já existiu, até mesmo na frente do cara que inventou o sorvete de pistache (sério, esse negócio tem gosto de remédio). Mas será que alguém jovem — no meio da adolescência na época — realmente tem um sentimento de raiva para com o ditador alemão? Você decide se é um questionamento válido ou não.

— Ei, Legolas — perguntei —, você sente raiva de Hitler?

Foi aí que o rapaz interrompeu a garfada já aérea que levava seu pedaço de crepe à boca e pousou o utensílio no prato. Encarou o nada por alguns segundos, respirou fundo, virou pra mim e respondeu:

— Não, cara. Minha bisavó e minha avó ainda criança tiveram que se esconder numa floresta por dois meses pra escapar dos nazisas. Mas não sinto raiva não. — Levantou e saiu da sala.

A sorte é que pouco tempo depois Legolas foi treinar por alguns anos com os militares de Israel e, quando voltou, parecia ter esquecido da pergunta desastrosa — mas inocente e banhada em curiosidade — feita naquele jantar de Luke Skywalker.

Pena que a minha tia Gertrude ainda lembra vividamente da indagação que recebeu. Tia, se você estiver lendo isso, quero conhecer o meu primo um dia!

Peraí.