O dia em que fiz o celular da minha crush ser roubado

Você já passou por uma situação tão vergonhosa que desejou trocar de corpo com um avestruz pra poder enfiar a cabeça embaixo da terra? Então.

Matheus Esperon

Esqueça a globalização ou Beyoncé. O que une a humanidade é o fato de que todos tomamos decisões estúpidas.

Pessoas que continuam indo ao cinema ver filmes do Adam Sandler e outras que inocentemente perguntam se um judeu sente raiva de Hitler são exemplos disso.

Acontece que durante a adolescência passamos por uma fase conhecida como “puberdade” na qual pêlos começam a nascer em lugares estranhos, o que parece confundir o cérebro a ponto dele desligar a área que toma decisões com bom senso por alguns anos.

E foi durante esse apagão de sensatez que fiz o celular da minha crush — vamos chamá-la de Furiosa porque, bem, ela ficou furiosa comigo depois do que aconteceu — ser roubado.

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“Deixamos mesmo isso acontecer?”

Meu coração batia mais forte por Furiosa na 6ª série, quando eu tinha 13 anos. Furiosa estava no 5º, um ano abaixo de mim, e nos conhecemos na van da escola. Nos dávamos super bem e rolava a famosa paquera entre nós, a ponto de ser apenas questão de tempo (e coragem) para marcarmos um encontro.

Um dia qualquer após o fim das aulas, Furiosa e eu estávamos esperando a van chegar quando resolvi sair da área da escola pra falar com um amigo — vamos chamá-lo de Patrick Estrela (você vai entender) — que estava saindo da papelaria do outro lado da rua. Entediados à espera dos nossos transportes e passando pela puberdade, decidimos que seria uma ideia divertida passar trotes aleatoriamente enquanto esperávamos nossos transportes.

Como o celular do Patrick estava sem créditos e o meu, sem bateria, resolvi pedir o da Furiosa emprestado. Ela ainda estava dentro do colégio, apoiada na grade vazada que separava a rua do interior.

Aproximei-me da crush e:

— Furiosa, me empresta seu celular rapidão?
— É pra algo importante?
— Sim. — Não era.
— Ok… Mas toma cuidado, tá? — Ela disse, preocupada com o alto número de assaltos na região, e me passou o telefone.

Se eu não fosse um adolescente passando pelo apagão de sensatez, provavelmente teria tomado cuidado de verdade. Ou melhor, nem estaria pensando em passar trote pra começo de conversa, pelo amor de Deus.

Mas eu era (mais) jovem e (mais) idiota.

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Eu enquanto escrevo esse texto e vou lembrando da história.

Assim que peguei o celular das mãos de Furiosa, o levantei acima da cabeça como se estivesse mostrando o jovem Simba para os outros animais e gritei, rindo:

— O QUE??? TOMAR CUIDADO??? COM ESSE CELULAR DE DE RICO DE 500 REAIS??? (louco como “500 reais” era um preço caríssimo pra um celular na época)

Assim que disse a última palavra, ainda com a mãos erguidas, senti alguém parando ao meu lado. Virei e vi que se tratava de um total desconhecido com cara de poucos amigos.

— Abaixa o celular e bota na minha mão.

Abaixei o braço devagar, já totalmente murcho pelo assalto se desenrolando a ponto de soltar um leve “Ahhhh, não…”. Minha única reação foi responder:

— Sério?
— Sério, vai logo.

Olhei para Furiosa e ela já estava chorando. Olhei para Patrick e ele estava exatamente com essa expressão:

Pousei o celular alheio na palma maquiavélica do indivíduo que saiu correndo como se ele fosse o Forrest Gump do crime.

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Ele assaltou todas aquelas pessoas.

Como você deve imaginar, não rolou nada entre Furiosa e eu depois disso. Voltamos pra casa com um climão no ar que poderia ser cortado com uma faca de rocambole. A última vez que nos falamos foi alguns dias depois quando arranjei R$ 200,00 pra menina comprar um celular novo.

Sabe qual a pior coisa? Alguns anos depois descobri que o cara que me assaltou era amigo de um delinquente carga pesada do meu colégio e me abordou só porque eu tava fazendo graça.

Moral da história: bandidos detestam comédia.

P.S.: O pessoal aqui do site me avisou que já contei essa história no 10deCast #01. Mas aí eu já tava quase no fim do texto e achei que ainda era válido lançar essa versão.