O dia em que fui chamado pro McDonald’s e acabei num culto evangélico

Algumas coisas na vida simplesmente não fazem sentido. E essa ida ao McDonald’s está no topo da lista.

Matheus Esperon

Algumas coisas na vida simplesmente não fazem sentido. Pessoas contra casamento gay, combustão espontânea ou o fato de existir um Busca Implacável 3 são exemplos de fatos reais que não têm explicação lógica.

E quando uma situação incompreensível dessas ocorre diretamente com você, talvez seja melhor não entender tudo que aconteceu pra vida continuar descomplicada e feliz. Tal como o processo de fabricação dos nuggets.

Spaccce_copy_copy
É assim que nuggets são feitos e ninguém me convencerá do contrário

Até hoje não sei explicar o que aconteceu comigo há alguns anos numa situação quase lovecraftiana — mas com menos tentáculos e escadas em ângulos impossíveis.

Estava sentado no sofá da casa do meu pai vendo TV quando meu irmão (vamos chamá-lo de Vin Diesel pois ambos dirigem e são mais velhos do que eu) entra na sala e pergunta:

– Ei, cara, mó fome. Quer ir ao McDonald’s?

A vida me ensinou que idas ao McDonald’s e drogas são duas coisas que não se recusam — afinal, drogas são caras e você pode revendê-las por um bom preço. Prontamente declarei meu interesse e levantei pra me arrumar.

Tacada de sinuca.

 

♬ Hey you, out there on the road, always doing what you’re told, can you help me? ♬

É impressionante. Não tenho memória nenhuma do que aconteceu depois disso até recuperar a consciência já dentro do carro do meu irmão em movimento, olhando pela janela. Não é como se eu tivesse dormido, e sim como se alguém tivesse cortado os eventos desse meio tempo e ligado duas pontas distantes demais da história.

É então que vejo o antigo outdoor “Sorria, você está na Barra!” passar por nós. Pra você se situar, a casa do meu pai era na Glória e havia um McDonald’s no Largo do Machado a 2.8km de distância de nós. A placa pela qual estávamos passando ficava a mais de 24km do nosso ponto de partida. Confuso, indaguei:

– Ué, Vin Diesel, por que a gente tá indo pra Barra?

Antes mesmo de ouvir qualquer réplica, meu cérebro se adiantou e me respondi mentalmente que devíamos estar indo pro drive-thru porque é difícil estacional no Largo do Machado. E então…

Tacada de sinuca.

♬ Black, black, black… and blue… And who knows which is which… And who is who… ♬

“Desperto” ainda olhando pela janela e dessa vez percebendo que estamos no Recreio — a 24km da placa “Sorria, você está na Barra!” e a 48km da casa do meu pai — fazendo a curva pra entrar em um condomínio.

– Vin Diesel, onde a gente tá indo?
– Relaxa, só vou passar rapidinho num lugar e logo vamos pro McDonald’s!

Tacada de sinuca.

♬ And if the band you’re in starts playing different tunes… I’ll see you on the dark side of the moon ♬

Volto ao comando do meu corpo apenas pra perceber que estou andando no meio de uma pequena igreja evangélica, batendo palmas ao som de uma música góspel e sendo cumprimentado pelos amigos do meu irmão com frases como “Ei! Que bom que você veio, Esperon!”. Minha única reação foi sorrir e responder “Pois é!”.

Até hoje eu não faço ideia do que aconteceu naquela noite. Eu não bebia, não fumava, não usava nenhuma droga. Não, meu irmão não me deu nenhuma bebida suspeita antes da sairmos de casa — irmão esse que nega veemente que essa história tenha acontecido.

Eu honestamente nem sei o que pensar.

E sabe qual é a melhor parte? Eu não lembro se fomos ao McDonald’s no fim daquilo tudo.