Divulgação

‘Bom Dia, Verônica’ é um viciante suspense policial sem cara de novela

Produção brasileira dá um show de maturidade e se impõe como um dos grandes originais Netflix do ano.

Matheus Esperon

Em dezembro de 1951 estreava a primeiríssima novela brasileira: ‘Sua Vida Me Pertence’, da finada TV Tupi, sobre a jovem e inocente Elisabeth, que se relacionava com brutal e indomável Alfredo (MOMENTO TRÍVIA: essa novela também teve o primeiro beijo em cena, com a protagonista da bitoca, Vida Alves, tendo que pedir autorização ao seu marido pra realizar o ato, VISH…).

O gênero se tornou tão dominante no mercado cultural brasileiro que, ainda hoje, 69 anos depois, as séries nacionais têm dificuldade de se desvincular do formato — produções modernas como ‘3%’, por exemplo, apesar de contarem histórias diferentes do habitual novelesco, apresentam direção, atuações e estética ainda muito próximas do que vemos todo dia nas emissoras abertas.

Por isso, é tão legal poder escrever que a única coisa que Bom Dia, Verônica, nova série original brasileira da Netflix, tem em comum com novela é ter na sua história uma trama similar à de Elisabeth e Alfredo.

Após presenciar um suicídio bem na sua frente, Verônica Torres (Tainá Müller), escrivã na Delegacia de Homicídios de São Paulo, decide investigar por conta própria dois casos de violência contra mulheres. Rapidamente, seu senso de justiça a coloca contra o violento Brandão (Eduardo Moscovis) e todo o sistema de segurança da cidade, revelando uma grande conspiração nas polícias.

A história definitivamente não é coisa de novela. Muito mais pesada, visceral e impactante do que vemos na faixa das nove (fica aqui o alerta de gatilho pra violência doméstica), mas sem nunca ser gratuita, ‘Bom Dia, Verônica’ conta com um roteiro maduro, que consegue costurar os desdobramentos e avanços da investigação de Verô com muita lógica e naturalidade — mesmo que algumas poucas decisões caiam em clichês batidos do gênero policial (especialmente em um confronto no último episódio).

O que com certeza não cai em clichê é o caminho que a série escolhe pro desfecho da primeira temporada. Por mais que muito ainda fique sem grandes explicações, numa clara tentativa de cavar a necessidade de uma sequência, a conclusão desse ato inicial subverteu minhas expectativas e levou a protagonista por uma direção que vai ser interessante demais de acompanhar caso a série seja renovada.

Contribuindo pra força do roteiro estão as excelentes atuações de todo o elenco (com exceção da personagem “Policial Loira Escrota”, que infelizmente segue presa no formato novelão de interpretação). A protagonista Tainá Müller funciona bem demais como fio condutor de toda a história, oferecendo toda uma gama de emoções e diferentes intensidades ao longo dos 8 episódios.

Camila Morgado, que vive Janete, a esposa constantemente abusada e manipulada por Brandão, entrega uma atuação verdadeiramente digna de pena (dá vontade de entrar em cena e falar “VOCÊ NÃO MERECE PASSAR POR ISSO, SAI DESSA VIDAAAA”).

Mas o grande destaque da temporada vai pra Eduardo Moscovis, que alterna entre o modo “marido carinhoso” e “psicopata filho da puta” com uma naturalidade assustadora, conseguindo sozinho pesar todo o clima das suas cenas e nos deixar tão tensos quanto Janete.

‘Bom Dia, Verônica’ pode não ser perfeita, mas representa um grande marco pras séries nacionais por mostrar que, sim, dá pra fazer diferente da pegada de novela, se tornando não só uma das melhores produções brasileiras dos últimos anos, como também um dos melhores lançamentos da Netflix em 2020.

Divulgação

Bom Dia, Verônica

Uma produção brasileira que veio pra reforçar que dá sim pra fugir do formato novelão. Um suspense policial maduro com ótimas atuações pra botar uma série nacional como uma das melhores da Netflix em 2020!

  • Ótimas atuações, especialmente de Camila Morgado e Eduardo Moscovis
  • Desfecho foge do óbvio
  • Suspense de te prender na frente da tela
  • Algumas poucas decisões do roteiro caem no clichê do gênero
  • Parte mais interessante ficou pra 2ª temporada
Nota: 4/5