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‘Bridgerton’ vai além de ser apenas o ‘Orgulho e Preconceito’ da Netflix

Previsível, mas super encantadora, a série inova com sua representatividade num romance de época.

Matheus Esperon

“Putz, que saco…”

Essa foi minha reação quando em 2011, na indispensável faculdade de Publicidade e Propaganda, a professora de uma matéria que não lembro nome disse que naquele dia assistiríamos a ‘Orgulho e Preconceito’.

Eu era [mais] idiota e [mais] ignorante, logo, tudo que eu sabia sobre o filme é que se tratava de um romance de época — subgênero que até então pra mim representava o suco de maracujá do cinema: um sonífero poderosíssimo.

Corta pra duas horas e nove minutos depois, com os créditos rolando e eu secando as lágrimas.

O ponto é que a história de amor entre Elizabeth Bennet e o Sr. Darcy é uma arma cultural fantástica, praticamente uma ogiva nuclear da emoção, que só não faz seu país de origem ser invadido pelos EUA porque o filme é uma co-produção dos próprios americanos com os ingleses.

E quem sabe muito bem disso é a sra. Netflix, que de boba não tem nada e no apagar das luzes de 2020 nos presenteou com seu próprio ‘Orgulho e Preconceito’, na forma da série Bridgerton — o que é muito bom e um pouco ruim.

Adaptação do primeiro livro da série homônima escrita por Julia Quinn, ‘Bridgerton’ se passa durante a temporada de casamentos arranjados na Londres de 1813, quando as mães das família prestigiosas basicamente saíam na rua perguntando pra homens ricos: “boa tarde, por acaso gostarias de comer minha filha??”.

Uma dessas famílias é justamente a que dá título à série, com seus OITO FILHOS (a falta que fazia ter um FIFA pra jogar…), dentre eles Daphne Bridgerton (Phoebe Dynevor), categorizada pela própria rainha da Inglaterra como a “incomparável da estação”.

Num esquema digno do artigo 342 do Código Penal (falso testemunho, reclusão de dois a quatro anos e multa), Daphne se alia ao indomável solteirão Simon Basset (Regé-Jean Page), o duque de Hastings, para juntos fingirem o romance do momento — assim ela pode atrair o melhor pretendente possível, enquanto ele evita a encheção de saco de jovens pretendentes e suas mães desesperadas.

Se você já viu o supracitado ‘Orgulho e Preconceito’ (ou pelo menos alguns filmes românticos na vida), só de ler a descrição da série já dá pra saber exatamente como essa história termina, o que é um dos únicos pontos negativos de ‘Bridgerton’: sua extrema previsibilidade.

Mas é aquilo: quando o Botafogo entra em campo, é óbvio que ele vai perder, mas não é super divertido de assistir? Aqui é a mesma coisa. A série é tão charmosa e tão bem produzida, com uma fórmula testada e aprovada há mais de 200 anos, que você se diverte e se conecta horrores, mesmo sabendo como tudo vai acabar.

E isso não deixa de ser mérito de um bom roteiro também. Afinal, fazer com que uma história previsível seja profundamente maratonável não é pra qualquer um, já que é preciso todo um trabalho pra colocar ganchos nos momentos certos, além de balancear os quase 15 personagens centrais(!), escrevendo-os de forma carismática e minimamente tridimensional.

Aliás, o sucesso dos personagens da série também é fruto de um ótimo elenco, no qual ninguém deixa a peteca cair: as performances variam sempre entre os níveis “bom” e “ok você com certeza deve ser indicado ao Emmy!!!”, esse último sendo o caso específico da dupla principal vivida por Phoebe Dynevor e Regé-Jean Page (esse inclusive se destacou tanto que da noite pro dia se viu cotado pra viver o novo James Bond!).

Outro ponto fortíssimo de ‘Bridgerton’, e aí algo extremamente original, é a sua representatividade. Diferentemente de outras obras de época e até mesmo do livro no qual a produção é baseada, há diversos personagens negros na alta classe londrina, inclusive até mesmo na corte real, já que a rainha Charlotte é vivida por Golda Rosheuvel, uma atriz negra.

Há quem reclame que essa decisão não é “realista”, mas quando ‘Bridgerton’ se propôs a ser uma série documental? Ora, se na ficção há espaço, por exemplo, para realidades medievais com dragões, zumbis e teleporte, elementos que nunca existiram, mas mesmo assim fazem sucesso sem um pio dos defensores do “realismo cultural”, por que uma era georgiana com nobres negros incomoda tanto? A resposta é até mais óbvia que a conclusão da história de Daphne e Simon.

Falando em não realismo, outro diferencial da série (que aqui não chega a ser inovação, mas é uma característica super divertida) é a trilha sonora, que inclui versões orquestradas de grandes hits modernos (me falta aqui o conhecimento pra dizer de quais cantoras pop, mas minha esposa reconheceu várias músicas durante os bailes da série).

‘Bridgerton’ infelizmente não é perfeita, sem entrar apenas no mérito da sua [aceitável] previsibilidade. Com seus longos 8 episódios, ocasionalmente com mais de 1h de duração, ficou a sensação de que a série poderia ter facilmente 6 episódios — se duvidar até menos se você cortasse um episódio que é 80% soft porn estilo Multishow/Band depois da meia-noite.

A grande questão da história se resolve muito antes do último capítulo, com o que vem depois tendo uma super carinha de epílogo. A trama se torna arrastada e repetitiva, já que nos últimos dois episódios a dupla principal começa a andar em círculos e bater cabeça (quando tudo poderia ser resolvido com uma simples conversa). Fica a sensação de que essa parte final poderia ter sido tranquilamente agregada à “primeira” conclusão, tornando-a até mais forte e impactante.

Ainda assim, os méritos da série superam qualquer crítica. Com sua inovadora representatividade no gênero do romance de época, ‘Bridgerton’ acaba indo além de ser apenas o ‘Orgulho e Preconceito’ da Netfix, se tornando, assim como sua protagonista, a incomparável da temporada.

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Bridgerton

Mesmo tendo uma história previsível, consegue cativar a audiência com um roteiro competente, ótimas atuações e um show de representatividade — o que faz com que 'Bridgerton' vá além de ser apenas o 'Orgulho e Preconceito' da Netflix.

  • Representatividade
  • Ótimas atuações, especialmente da dupla principal
  • Trilha sonora
  • Direção de arte e figurinos
  • História super previsível
  • Mais longa que o necessário
Nota: 4/5