Fonte: Divulgação

Estou cansado de Game of Thrones

Também conhecida como: A série onde só os mocinhos quebram a cara

Bernardo Dabul
Rafael Mei

Disclaimer: Eu não li nenhum dos livros da saga A Song of Ice and Fire. Meu conhecimento do universo de Game of Thrones se extende somente a série da HBO e o jogo da Telltale Games.

Disclaimer 2.0: Falarei sem restrição alguma sobre a história tanto da série quanto do jogo (até o 5° episódio “A Nest of Vipers”)! Basicamente, *SPOILER WARNING*

Se existe uma forma de resumir Game of Thrones, é que é a série onde todos os personagens queridos pelos fãs não conseguem se dar bem e/ou morrem. Foi assim que se estabeleceu na TV, com a grande morte de Ned Stark na primeira temporada, e assim continua até hoje, com a (aparente) morte de Jon Snow no final da quinta.

No início, isso era um fator determinante do sucesso da série: uma mudança na dinâmica tradicional de storytelling que trouxe bastante originalidade para um meio onde o mocinho sempre se dava bem no final, independente da situação. Porém isto tem sido utilizado de forma constante em todas as temporadas, a ponto de deixar de ser algo original e inusitado e virar simplesmente um mecanismo recorrente da narrativa da série. O maior problema disso é que se torna difícil criar vínculo com os supostos “heróis”. Se TODO mocinho no final das contas sempre se da mal ou até morre, quem assiste eventualmente se desinteressa por ele.

Vou usar exemplos da série de TV para melhor ilustrar meu ponto:

Quando a série começou, Ned Stark era claramente o protagonista. Um cara boa pinta, honroso, sempre querendo fazer a coisa certa apesar de todos ao seu redor serem corruptos e quererem ele morto. É quase impossível achar alguém que não tenha se importado com Ned, o que faz também ser quase impossível achar alguém que não tenha ficado chocado com sua morte (a não ser que a pessoa tivesse lido os livros ou recebido spoilers previamente). Do nada o mocinho, que todos  tinham certeza que conseguiria vencer e subvertendo todas as expectativas, foi literalmente decapitado. Um fantástico exemplo de storytelling.

Pobre Ned Stark... Nunca teve nenhuma chance
Pobre Ned Stark… Nunca teve nenhuma chance

Na terceira temporada aconteceu outro momento onde também o mocinho encontrou seu fim prematuro. O famoso Casamento Vermelho mostrou que Robb Stark pagou caro por ter quebrado sua promessa a Walder Frey. Dessa vez o espectador mais safo já teria notado que não tinha como terminar bem a campanha de Robb, mas ainda assim os demais estariam perdoados porque, novamente, tratava-se do “protagonista” da série no momento.

E então, a quinta temporada encerrou com a trágica morte de Jon Snow. Novamente, um mocinho tentando salvar o mundo, acabou sendo consumido pelos malfeitores ao seu redor (neste caso, seus supostos irmãos da patrulha). Porém, pelo menos para mim,  desta vez não foi surpresa. Durante toda a temporada, como Jon dividiu o papel de “mocinho da vez” com Stannis Baratheon, já dava para imaginar em função dos antecedentes que ele também teria um futuro sombrio pela frente. Acabou acontecendo na última cena da temporada, mas ainda assim a tradição se manteve.

Conseguiram notar um padrão? Isso não se limita somente aos protagonistas. Qualquer personagem minimamente “decente” sofre consequências por sua popularidade, mesmo que não seja a morte. Oberyn Martel, Renly Baratheon, Jorah Mormont e Tyrion Lannister são alguns dos exemplos que vem em mente.

Nem Oberyn Martell, um dos personagens mais populares da série, escapou a tendência
Nem Oberyn Martell, um dos personagens mais populares da série, escapou a tendência

Esta regularidade monótona levou a um ponto onde, pessoalmente, me sinto alienado da série. Não consigo dar muita bola para qualquer personagem, uma vez que sinto que meu afeto por ele vai ser recompensado com sua morte após alguns episódios.

Nem os jogos da Telltale se salvam desta tradição. Logo no primeiro episódio um dos protagonistas, Ethan Forrester, é assassinado na cena final. Desde então, seus irmãos Rodrik e Asher vêm tentando de tudo para assegurar a sobrevivência da casa Forrester, mas no fim do quinto episódio o jogador deve escolher um dos dois para ser sacrificado. Esta escolha que deveria ser impactante, com potencial de mudar bastante o rumo da história no sexto e último episódio, só serviu para confirmar que fiz bem em não me apegar a nenhum destes personagens. O fato que a Telltale não dá tanta liberdade assim com suas “escolhas” não ajuda em nada, mas isso é assunto para outro dia…

Quando ele apareceu eu já sabia que o destino dele era a cova
Quando Rodrik apareceu eu já sabia que o destino dele era a cova

O pior de tudo é que uma forma simples de remediar esse problema seria deixar os protagonistas terem mais momentos de vitória. Não estou falando de somente sobreviver, mas de conquistar algo a favor de suas causas sem que isso seja completamente anulado alguns episódios depois. Assim, acompanhar seus personagens favoritos não só seria menos frustrante, como também tornaria as eventuais derrotas mais impactantes.

Estou totalmente ciente que a franquia é isso e que pedir para mudar é bater a cabeça contra a parede, mas quando só o fato de ACOMPANHAR a série parece um exercício de futilidade, fica difícil não falar nada…

Versão TL;DR: Dê aos personagens vitórias significativas, sem que sejam anuladas logo depois. Pode matar um mocinho aqui e ali se quiser, mas não todos!

 

Notas do Mei:

Vou fazer alguns adendos ao texto como um leitor dos livros e espectador da série no que diz respeito as diferenças entre os dois nesse ponto de “os mocinhos sempre se dão mal”. Isso é verdade na série e, até certo ponto, no livro também, porém existem diferenças básicas na forma como o livro o faz.

Disclaimer: Haverão spoilers do livro aqui, mas se você acompanha a série não entrarei em nada que você já não saiba.

A primeira diferença é, por ter mais tempo de desenvolver suas histórias e criar tramas, George R. R. Martin sempre faz com que a derrota ou morte de um protagonista pareça uma conclusão óbvia dos eventos que antecederam. Veja Ned Stark, por exemplo, na própria série fica evidente a quantidade de decisões erradas e alianças problemáticas que ele fez. À luz disso, a morte do mesmo não parece uma jogada barata mas sim o resultado de suas escolhas. O mesmo pode ser dito sobre a morte de Robb.

Até ai tudo bem, a série apresentou bem essas decisões errôneas dos personagens e chegou aos finalmentes de forma satisfatória, porém as temporadas seguintes não foram bem assim. Vamos ver Jon Snow. Desde que se tornou comandante da patrulha, Jon toma diversas decisões problemáticas – embora corretas – e, com isso, torna-se um tanto impopular com seus irmãos de patrulha. Contudo, em seu assassinato na série as motivações de seus perpetradores não parece nem um pouco nobre – além de não contar com personagens mais próximos ao protagonista.

O jovem Olly parece estar apenas com raiva por Jon ajudar os selvagens que mataram sua família e Alliser Thorne nunca foi com a cara do bastardo. Essas motivações tiram qualquer peso do bordão “pela patrulha” que cada um profera antes das facadas. No livro, Jon toma muitas das mesmas decisões e isso cria um clima de animosidade com seus irmãos da patrulha, porém existem outras questões em jogo: ele nunca vai a Hardhome, mas manda um de seus amigos e a partida de Sam é decisão única dele. Basicamente, Jon manda seus poucos aliados embora. Ele constrói as circunstâncias para o atentado em sua vida.

Estou fazendo isso pela patrulha, mas também porque te odeio muitão
Estou fazendo isso pela patrulha, mas também porque te odeio muitão.

Além disso, os irmãos da patrulha que o atacam, o fazem em lágrimas. Entre eles encontram-se amigos de Jon – alguns aparecem na série, porém morreram na batalha da quarta temporada contra os selvagens. Ninguém ali está tirando uma vingança pessoal, eles amam o seu líder, mas acreditam que ele está traindo seu propósito. Eles, de fato, o fazem “pela patrulha”.

A segunda diferença nos livros é o fato de que tudo pode acontecer com qualquer personagem, sejam eles bons ou maus. Os criadores da série parecem ter lido os primeiros livros e compreendido que apenas os mocinhos morrem ou sofrem, o que não é verdade.

Nos livros, os Starks de fato são uma família trágica, porém estão longe de ser os únicos. Pegarei como exemplo a família Frey, os responsáveis pelo Casamento Vermelho. Na série, ao que tudo indica, eles não sofreram nenhuma consequência ruim pela traição que cometeram.

No entanto, nos livros, os Freys são a família que teve mais membros mortos na guerra dos cinco reis – e isso depois de trair os Starks. Eles são perseguidos pela Irmandade Sem Bandeiras (para quem não lembra, um bando de justiceiros que vimos ser liderado por Berric Dondarrion, que lutou contra o Sandor Clegane usando uma espada em chamas) agora liderada por Lady Stoneheart* – que, inclusive, faz uma falta tremenda na série exatamente por isso. Além disso, temos evidências de uma conspiração no Norte contra os Bolton, e não só uma senhora que diz “O Norte se lembra” e morre no episódio seguinte.

*Personagem que não existe na série. Não sei se aparecerá algum dia então não explicarei quem é. Deixarei por sua conta procurar caso queira.

Essas não são as únicas diferenças entre a série e o livro, também temos casos de personagens com motivações mais fracas ou com personalidades alteradas sem razão aparente. Jon Snow é um dos personagens que mais muda do livro pra série nesse ponto, tendo um arco bem parecido com o do livro no geral, mas com detalhes diferentes, que enfraquecem sua jornada. A pior parte desses detalhes é que, exatamente por serem pequenos, não se encaixam na justificativa do tempo que a série tem, pois seriam muito fáceis de fazer com mudanças pequenas.

D.B. Weiss: "O que aprendemos com esses livros, David?" David Benioff: "Que os bonzinhos só se ferram e Jon Snow é um bunda mole" - diálogo verídico entre os criadores da série.
“A gente leu o primeiro livro e concluímos que só os bonzinhos se ferram e Jon Snow é um bunda mole” – David Benioff e D.B. Weiss

Enfim, também me peguei considerando largar a série algumas vezes no decorrer dessa 5ª temporada – ainda mais depois da galhofa que foi o arco do Dorne, que é diametralmente diferente no livro. Não sei se acompanharei a 6ª.

Gosto do clima que GoT cria, a conversa entre os espectadores, o verdadeiro evento que se torna nas redes sociais. E, exatamente por ser um evento, sei que mesmo se não assistir ficarei sabendo de tudo que acontece – recebendo inclusive spoilers do livro. Talvez seja mais um caso de uma série que já fui longe demais para parar agora.