Divulgação

‘O Gambito da Rainha’ consegue deixar xadrez emocionante até pra quem não entende nada do jogo

Com ótimos trabalhos do diretor e dos atores, a nova original Netflix consegue entreter todos os públicos.

Matheus Esperon

Pra mim, assistir a uma corrida de Fórmula 1 é tipo acompanhar uma emocionante disputa pra ver qual entre duas paredes recém pintadas seca mais rápido. Não tenho nenhum tipo de envolvimento emocional (não vi corridas do Senna) e acho qualquer momento além da largada extremamente chato…

Por isso entrei tão relutante no cinema em 2013 pra ver ‘Rush’, o filme com Chris Hemsworth e Daniel Brühl sobre a rivalidade entre James Hunt e Niki Lauda no “esporte”. Pra minha surpresa, achei o filme ótimo do começo ao fim, mesmo tratando de um tema que eu tinha interesse zero — negativo até.

Daí ficou a lição: quando a história é boa de verdade e bem executada, o seu grau de afinidade com o tema do filme ou da série se torna a coisa menos importante de toda a experiência. E O Gambito da Rainha, nova série original Netflix sobre xadrez, é mais um ótimo exemplo disso!

Órfã aos 9 anos de idade, Beth Harmon (Anya Taylor-Joy) descobre sua vocação e paixão pelo xadrez em jogos com o zelador do seu orfanato extremamente conservador. Ascendendo rapidamente entre os rakings de melhores enxadristas do mundo ao longo da sua adolescência, Beth precisa lidar com o desafio ser uma das raras mulheres no jogo, além de um antigo vício em sedativos.

É de impressionar como Scott Frank, criador, roteirista e diretor de todos os sete episódios da série, conseguiu tornar partidas de xadrez emocionantes até pra quem não entende nada do jogo (oi!).

Você pode não saber exatamente o que os personagens estão fazendo no tabuleiro (a série até explica algumas jogadas, mas percebeu muito bem que ficar explicando tudo seria um golpe no ritmo e muitas vezes na própria construção de tensão de algumas partidas), mas isso não vai te impedir de torcer ou ficar preocupado pelos rumos de alguns jogos.

Aliás, essa percepção do clima e andamento das partidas se dá muito por uma direção competente e um roteiro criativo, mas também pelas grandes atuações dos jogadores, desde os mais figurantes até a protagonista vivida pela ótima Anya Taylor-Joy (‘A Bruxa’ e ‘Fragmentado’). É através da reação deles que os mais desacostumados com xadrez podem interpretar o que está acontecendo no tabuleiro.

Mas a série não se resume apenas aos jogos. Beth possui uma personalidade naturalmente desconectada com os outros à sua volta e um vício em sedativos que vem desde a sua infância, quando dar calmantes pra crianças era algo socialmente aceitável e incentivado — a série começa no final dos anos 50.

Esses dois fatores aliados, além do xadrez em si, contribuem pra estabelecer todo o drama da série, que trata sobre temas como abandono, obsessão, amor e looks impecáveis. Por mais que não haja nada de inovador nessas partes da história, tudo é muito bem executado, dando oportunidade de sobra pra Anya Taylor-Joy brilhar numa atuação que tem grandes chances de lhe render uma indicação ao Emmy em 2021.

‘O Gambito da Rainha’ só não é uma série impecável por dois motivos. O primeiro, menor, é a ocasional falta de carisma da protagonista — claramente uma decisão consciente de Scott Frank, mas que às vezes vai um pouco além da conta.

O segundo, literalmente maior, é a sua duração: os apenas sete episódios dão uma enganada, já que quatro deles têm 1h ou mais de duração. Ao longo da temporada, muitas cenas se estendem muito além do necessário, com algumas sequências inteiras sendo quase cosméticas.

Pra quem conseguir superar qualquer preconceito com xadrez e estiver disposto a encarar os longos episódios, ‘O Gambito da Rainha’ guarda uma ótima surpresa, que com certeza vai fechar o ano entre os 10 melhores lançamentos da Netflix.

Divulgação

O Gambito da Rainha

Quando o time envolvido é bom, a série/filme pode tratar sobre qualquer assunto que vai ser sucesso, mesmo que você como espectador não tenha afinidade nenhuma com o tema central. A indicação ao Emmy pra Anya Taylor-Joy VEM!

  • Direção e roteiro competentes ao longo de todos os episódios.
  • Grandes atuações, especialmente de Anya Taylor-Joy.
  • Xadrez apresentado de forma muito divertida e compreensível
  • Longa duração de alguns episódios
Nota: 4/5