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O visível potencial inalcançado de ‘Cidade Invisível’

Um bom mistério marcado pela falta de criatividade ao trazer as lendas pro nosso mundo.

Matheus Esperon

Enquanto o mundo inteiro paga pau pra um barbudo com martelo que deixa sulistas atiçados, o Brasil meio que secretamente tem um dos folclores mais ricos e diversos do mundo.

Você quer uma entidade que inspirou Michael Jackson a criar o moonwalk? Temos. Você quer um peixe humanoide fumante? Temos. Você quer o conhecimento de que a mandioca teria surgido a partir do corpo de uma criança morta? Agora você tem.

Tente não lembrar disso na próxima vez que você comer mandioca.

Mesmo com tanto material interessante disponível e um universo tão rico a ser explorado, as adaptações do nosso folclore costumam focar no público infantil, sendo ignoradas como potencial para histórias mais complexas e criativas.

Por isso, Cidade Invisível, nova série brasileira da Netflix sobre um policial entrando em contato direto com algumas das lendas brasileiras, é um primeiro passo tão importante, mesmo que o resultado tenha ficado abaixo do que a nossa mitologia merece.

Após a morte de sua esposa num incêndio florestal, Eric (Marco Pigossi), agente da polícia ambiental do Rio de Janeiro, começa a investigar uma conspiração que envolve tanto elementos terrenos quanto sobrenaturais, com revelações capazes de mudar sua vida para sempre.

O maior problema de ‘Cidade Invisível’ é a nitidez com a qual se apresenta a falta de criatividade da série, especialmente na hora de transportar os personagens folclóricos pro nosso mundo moderno.

Com exceção de uma sacadinha envolvendo Iara e seu aparente trabalho como cantora (que ainda assim é super pequena pontual na trama), nada vai além do óbvio de, por exemplo, colocar o Saci como um morador de rua de mãos leves ou a Cuca como dona de um bar… que passa o dia fazendo poções que ela nunca usa na série (chega a ser cômico como toda cena da personagem “trabalhando” parece ser quase o mesmo take da atriz Alessandra Negrini misturando umas ervas genéricas).

Quem ficou “mal acostumado” com as ótimas ideias da série ‘Deuses Americanos’, dos quadrinhos ‘Fables’ ou do livro ‘Deuses Caídos’, puxando pra um [excelente] exemplo nacional que lida justamente com as mesmas fontes, não vai conseguir digerir tão bem a obviedade das escolhas de ‘Cidade Invisível’.

O decorrer da história consegue fugir um pouco melhor do lugar comum, com uma investigação interessante que, aliada a uma premissa de olhar por trás das cortinas do mundo, consegue prender a atenção desde o primeiro episódio — por mais que as revelações acabem se tornando óbvias com o tanto de dicas e até confirmações que o roteiro repete, subestimando a capacidade de nós, espectadores, costurarmos os elementos e entendermos as conclusões por conta própria.

No texto sobre a também brasileira e também da Netflix ‘Bom Dia, Verônica‘, um dos meus maiores elogios foi sobre como a série conseguiu escapar com maestria da estética de novela, tanto no campo da atuação quanto na parte técnica, como direção e fotografia.

Sua conterrânea aqui se descola muito bem na fotografia, que chega até a surpreender, e por pouco na direção, mas é constantemente puxada de volta ao formato novelesco com suas atuações engessadas e pouco expressivas, especialmente no péssimo trabalho de Alessandra Negrini — além da escolha bizarra de colocar Jimmy do Matanza (SIM) no elenco da produção.

Aliás, falando em decisões estranhas, a série transportou lendas folclóricas típicas do Norte e do Centro-Oeste (como Boto, Iara e Curupira), para um cenário carioca, sob justificativa (dada em entrevista) de que “aqueles são descendentes das entidades originais, que mudam com o tempo”.

Sem querer Lumenar, mas já Lumenado (um abraço pra você que está acompanhando o BBB 21), isso soa como uma desculpa muito fraca de produtores e roteiristas que quiseram porque quiseram fazer a história no Sudeste, seja por motivos logísticos ou até mais problemáticos mesmo, sem nem se importarem, por exemplo, em colocar o Boto e a Iara pra nadar no mar, quando estes são tipicamente entidades de água doce.

É o tipo de falta de cuidado e respeito que mancha um pouco a série, especialmente sem haver sequer uma justificativa na trama pra concentração dos personagens no Rio de Janeiro.

Por fim, vale comentar dois grandes aspectos que, junto com a supracitada fotografia, também fogem do comum: a abertura da série, que é nível HBO de produção gráfica, e os efeitos especiais, que se seguram muito bem e até mesmo melhor que alguns filmes e séries hollywoodianos.

‘Cidade Invisível’, mesmo com suas falhas, é uma ótima vitrine pra mostrar o potencial do nosso folclore. Com um pouco mais de cuidado e criatividade, a próxima temporada (caso a série seja renovada) tem tudo pra se aproximar ainda mais da qualidade que a mitologia brasileira merece.

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Cidade Invisível

Uma tentativa honesta de explorar o nosso folclore que, mesmo desperdiçando o potencial dos materiais originais, consegue entregar um mistério digno de nos segurar durante toda a temporada.

  • Ótimos efeitos especiais
  • Abertura nível HBO
  • Um bom mistério
  • Atuações engessadas no geral, e péssimas mesmo nos casos de Alessandra Negrini e... Jimmy do Matanza
  • Extrema falta de criatividade
  • Desrespeito com os regionalismos das lendas
  • Final abrupto
Nota: 3/5