Review | A atmosfera perfeita de ‘Perry Mason’ merecia um roteiro melhor

A história lenta, inflada e um pouco confusa acaba com o potencial da nova série da HBO.

Matheus Esperon

Uma boa atmosfera é um daqueles detalhes que podem fazer toda a diferença, tanto em planetas quanto em filmes e séries. Quando criada com dedicação, ela pode ser responsável por injetar vida nova e prender as pessoas do começo ao fim. Só que nenhuma atmosfera perfeita consegue, sozinha, compensar por uma história ruim – o que segue valendo tanto pra planetas quanto filmes e séries.

E é uma pena que Perry Mason, série original HBO produzida por Robert Downey Jr., seja justamente muito bonita e imersiva de ver, mas, ao mesmo tempo, muito cansativa e confusa de acompanhar.

Em 1932, um bebê é morto após ser sequestrado numa tentativa de extorsão de um jovem casal de Los Angeles. Com o pai da família sendo inicialmente acusado de cumplicidade no crime, o caso vai parar nas mãos do decadente advogado ‘E.B.’ Jonathan (o sempre ótimo John Lithgow), que emprega a ajuda de seu investigador particular, o alcoólatra e igualmente decadente Perry Mason (vivido pelo Matthew Rhys de ‘The Americans’), pra provar a inocência dos familiares.

Antes de tudo, é importante notar que a série é na verdade um grande reboot da sua consagrada versão homônima de 1957, contando com importantes (e infelizmente ainda muito relevantes) atualizações pra tocar em temas como racismo e machismo – o parceiro de Perry, Paul Drake, interpretado por um ator branco nos anos 50, por exemplo, é vivido aqui por Chris Chalk, um ator negro, o que  permite que a segregação racial da época seja propriamente explorada e, claro, criticada.

E, falando no passado, a direção de arte de ‘Perry Mason’ é simplesmente impecável. Os figurinos, os objetos, os cenários… Cada grande e pequeno detalhe, aliado à uma trilha sonora sempre certeira e uma fotografia inspirada no estilo noir, é responsável por nos transportar pra Los Angeles dos anos 30 desde os primeiros minutos do primeiro episódio.

O problema da série é que o roteiro não chega nem aos pés da qualidade da ambientação da história. Durante todos os 8 episódios, acompanhamos um caso que, honestamente, não é tão interessante – o que é agravado por personagens secundários pouco carismáticos (tanto os inocentes quanto os culpados), um ritmo arrastado e uma progressão confusa, que só começa a fazer um pouco mais sentido na reta final da temporada.

Aliás, esse é outro problema: o protagonista originalmente era um advogado, mas a versão de 2020 funciona como uma história de origem, mostrando Perry ainda como investigador. É só no 5º episódio que ele entra pro mundo do direito e a história começa a fazer mais sentido, deixando a frustrante sensação de que a série realmente só começa depois de quase 5 horas de duração.

Mas, sendo justo, o roteiro não é digno de críticas. O trio principal, composto por Perry, o advogado E.B. e sua assistente Della Street, é muito bem escrito, dando origem a personagens tridimensionais com seus próprios problemas secundários, o que dá muito material e diversas oportunidades pra que os atores também entreguem atuações excelentes.

‘Perry Mason’ infelizmente não viveu à altura do seu potencial (e bota potencial nisso porque o piloto foi a estreia de maior audiência da HBO dos últimos dois anos). Com uma atmosfera perfeita sendo prejudicada por um roteiro capenga, é o tipo de recomendação que só dá pra fazer pra quem é muuuito fã da estética dos anos 30 e de histórias noir. Agora é torcer pra que a já confirmada segunda temporada aprenda com os erros da primeira e venha mais madura!

Divulgação

Perry Mason

A série poderia concluir sua estreia já como novo sucesso consolidado da HBO, mas vai ter que esperar pra ver se a próxima temporada entrega todo o potencial prometido.

  • Direção de arte impecável entrega uma atmosfera perfeita
  • Ótimas atuações dos protagonistas
  • Ritmo lento
  • Progressão confusa
  • Personagens secundários pouco carismáticos
  • Caso central da temporada é pouco inspirado
Nota: 3/5