Review | Killing Eve (1ª temporada)

Esqueça o que você sabe sobre thrillers de espionagem, Killing Eve seduz e hipnotiza em um Girl Power eletrizante.

Bia Macedo

Aposta da BBC em 2018, Killing Eve é uma série adaptada do romance Codename Villanelle, de Luke Jennings. Uma saga irreverente e hipnotizante, contada em 8 episódios nessa temporada de estréia (com renovação garantida pela BBC) e que subverte a premissa de que narrativas policiais e suspenses de espionagens precisam exalar virilidade com heróis másculos e vilões estereotipados.

Em seu primeiro grande papel na TV após sua saída de Grey’s Anatomy (que já faz 4 anos!), Sandra Oh aparece como protagonista da história. Ganhadora de prêmios como Critics’ Choice Awards e o Globo de Ouro por seu papel na série, Oh retorna de forma brilhante para as telas. Eve é uma funcionária do MI5, entediada com seu cargo burocrático e frustrada pelo não reconhecimento de seus atributos como espiã. Sua antagonista  é interpretada pela britânica Jodie Comer, de apenas 25 anos. Villanelle é uma figura fascinante, que já se apresenta em sua primeira cena demonstrando sua instabilidade e apreço pelo caos.

Killing Eve é regido por mulheres, personagens masculinos ainda são relevantes em sua trama, porém ficam à margem das poderosas que levam a história para frente. Enquanto Eve é recrutada para solucionar uma série de assassinatos ao redor da Europa, podemos assistir, cena por cena, sua vida entediante dando lugar à obsessão em encontrar a assassina. Com um casamento falido e a ânsia pelo novo, Eve vê a jovem Villanelle tomar conta de seus dias muito rápido. Já nos primeiros episódios dá pra sentir que o clássico jogo de gato e rato dos thrillers evolui de uma maneira diferente, em uma tensão delicada e quase sexual.

Oh interpreta a personagem que nomeia a série de forma magistral, é possível ver a essência da atriz na personagem, de uma forma que não há como não lembrar de Cristina Yang em certos momentos. Eve é engraçada, obstinada e, com o passar do tempo, cada vez mais segura de si e da importância do seu trabalho, encontra em Villanelle uma espécie de paixão pela caça, alternando com uma sensação de estar viva e de ser, de certa forma, admirada por sua algoz.

Comer é quem dá o tom da série, a tensão que se instala em suas cenas é quase sufocante. A personagem é refinada, calma, fria e ama o que faz. Assassina de aluguel contratada por um misterioso grupo, ela é uma psicopata sádica, que sente prazer na dor alheia, mas sem perder em nenhum momento seu sotaque arrastado e rostinho angelical.

A personalidade e o passado da vilã são aprofundados a cada cena da série, por vezes confundindo o espectador sobre quem realmente ela é: não se compadece por nada ou por ninguém, mas nutre uma admiração e algo próximo com uma paixão por Eve. Em determinados momentos, fala como se tivesse raiva de homens e precisasse mostrar sua superioridade, apesar de se relacionar com alguns, mas fica claro que Villanelle sente atração por mulheres de forma bem mais intensa.

Os encontros entre Eve e Villanelle são diferentes de tudo que entendemos sobre espiões e vilões. Há jantares, banhos, elogios sinceros, admiração mútua, sarcasmo e uma tensão sufocante e sensual entre as duas. São versões dos clássicos personagens do gênero na perspectiva de mulheres poderosas e inteligentes que, cada uma à sua maneira, desenvolvem com maestria seus papéis, seja correr atrás de uma psicopata sanguinária pela Europa ou cortar o pênis de um homem e vesti-lo como uma mulher. A forma como Eve liga cada ponto de acontecimento, desvendando os mistérios conta muito com a ajuda da própria Villanelle, que por vezes parece ter como objetivo o encontro.

A série atrai à todos, mas é inegável o fascínio que traz às mulheres. Visões femininas, coexistência do visceral, do delicado e a sensualidade que transborda em cada cena, é algo novo para o público feminino em thrillers de espionagem na TV. A representatividade e o empoderamento das personagens torna a experiência uma montanha russa de emoções para quem assiste, a representação da mulher acontece nas mais variadas camadas e profundidades.

É possível sentir a tensão e a angústia das personagens, de modo que é impossível desgrudar os olhos da tela. Phoebe Waller-Bridge traz um roteiro eficiente, de representatividade incrível e que não procrastina a história e as decisões em nenhum momento, Killing Eve te deixa vidrado em sua narrativa do começo ao fim de seus 8 episódios.

As gravações da 2ª temporada já foram encerradas e sua data de estréia não deve demorar a ser divulgada. Pare tudo que você está fazendo e vá assistir Killing Eve!

Killing Eve (1ª temporada)

Killing Eve é um thriller bem feito, empolgante e que funciona muito bem em 8 episódios. Emoção e representatividade feminina do começo ao fim, numa mistura de tensão e sensualidade.

  • Roteiro direto e engajado
  • Nova perspectiva do jogo de gato e rato entre detetive e bandido
  • Representatividade e mulheres empoderadas
  • Sandra Oh (!!)
Nota: 5/5